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Pagamentos

Euro Digital em risco? BCE e setor bancário ‘chocam’

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A estratégia europeia para reduzir a dependência de operadores norte-americanos de pagamentos, como Visa, Mastercard, PayPal e Apple, está a ser condicionada por divergências entre o Banco Central Europeu e o setor bancário. Em causa está o papel do euro digital e das soluções privadas europeias, num momento em que a soberania nos pagamentos voltou a ganhar peso na agenda política e financeira da União Europeia.

Segundo a Reuters, a expansão dos pagamentos sem numerário desde a pandemia aumentou a dependência da zona euro face a empresas norte-americanas, que processam quase dois terços dos pagamentos com cartão no bloco. Esta dependência tornou-se mais sensível num contexto de fragmentação geopolítica, em que o acesso a infraestruturas de pagamento pode ser visto como um risco estratégico.

O BCE tem defendido o euro digital como uma peça central para reforçar a autonomia europeia nos pagamentos. A proposta prevê uma forma digital de moeda emitida pelo banco central, destinada a complementar o numerário e a garantir que os cidadãos continuam a ter acesso a dinheiro público também em ambiente digital. Para o BCE, o projeto pode contribuir para reduzir a exposição da Europa a sistemas de pagamento não europeus.

Parte do setor bancário, contudo, teme que o euro digital pressione os seus modelos de negócio e retire espaço às soluções privadas em desenvolvimento. Entre essas alternativas está o Wero, serviço lançado pela European Payments Initiative, que pretende criar uma solução pan-europeia de pagamentos baseada em transferências conta a conta e assente na infraestrutura de pagamentos instantâneos SEPA.

O Wero começou a ser lançado em 2024 e tem vindo a ganhar escala em mercados como Alemanha, França, Bélgica e Luxemburgo. A EPI prevê também a integração progressiva do sistema neerlandês iDEAL no Wero a partir de 2026, com uma migração faseada desenvolvida em conjunto com ABN AMRO, ING e Rabobank.

A tensão entre o euro digital e as soluções privadas reflete uma questão mais ampla: quem deve liderar a construção de uma infraestrutura europeia de pagamentos. Para o BCE, uma solução pública pode garantir resiliência e autonomia estratégica. Para os bancos, o risco é que uma moeda digital de banco central reduza receitas, aumente custos de implementação e concorra com investimentos já realizados em sistemas privados.

O debate ocorre numa altura em que vários países e operadores procuram reforçar alternativas regionais aos esquemas internacionais de cartões. Em França, a rede Cartes Bancaires tem sido apontada como uma das frentes de resposta à perda de quota para Visa e Mastercard, num movimento associado à soberania económica e à necessidade de preservar infraestruturas críticas de pagamentos na Europa.

Apesar do consenso sobre a necessidade de reduzir dependências externas, a falta de alinhamento entre reguladores, bancos e operadores privados pode atrasar a criação de uma solução europeia com escala suficiente para competir com os grandes players internacionais. Para o retalho e para os consumidores, o desfecho deste processo será relevante não apenas ao nível dos custos de aceitação de pagamentos, mas também da concorrência, interoperabilidade e controlo sobre dados e infraestruturas críticas.

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