Numa entrevista datada de novembro de 2025, Jensen Huang, CEO da NVIDIA, uma das empresas mais disputadas do planeta, foi questionado sobre como definiria inteligência. Depois de uma breve pausa, Huang, visivelmente introspetivo, definiu “inteligente” como a interseção entre astúcia técnica, empatia humana e capacidade de antecipar o futuro.
A resposta é interessante não apenas pelo que diz, mas pelo momento em que surge. Vivemos uma fase em que a inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante para se tornar uma infraestrutura quotidiana. Está nos processos das empresas, nas ferramentas de trabalho, no nosso dia a dia mais pessoal.
Numa era em que os humanos parecem tornar-se a “segunda espécie” mais inteligente no planeta, Huang defende que a resolução técnica de problemas tenderá a transformar-se numa commodity abundante, impulsionada pela IA. Isto significa que saber encontrar uma resposta, escrever código, organizar informação ou executar uma tarefa complexa poderá deixar de ser, por si só, uma vantagem competitiva. A máquina fará cada vez mais, cada vez melhor e cada vez mais depressa. O verdadeiro diferencial humano passará, então, a estar noutro lugar.
Assim, na visão de Huang, as pessoas inteligentes serão aquelas capazes de prever e evitar problemas intuitivamente. Esta inteligência não vive apenas na competência técnica, mas na leitura fina dos contextos, na capacidade de perceber que uma decisão aparentemente eficiente pode gerar resistência numa equipa, na capacidade de antecipar riscos éticos antes de eles se transformarem em crises, na leitura de que um processo automatizado pode excluir alguém, que uma inovação pode criar dependências invisíveis ou que uma solução tecnicamente perfeita pode falhar por não compreender a realidade humana onde será aplicada.
Huang refere-se a esta capacidade intangível de antecipar problemas como uma “vibe”. Algo profundamente humano, difícil de medir e, até aqui, impossível de replicar integralmente por uma máquina. Esta ideia é relevante porque nos obriga a rever a própria definição de inteligência. Durante décadas, associámos inteligência a cálculo, rapidez, memória, especialização e capacidade analítica. Mas, se a IA passa a dominar esses territórios, talvez tenhamos de olhar para dimensões mais subtis: sensibilidade, julgamento, prudência, imaginação moral e empatia.
Entre os vários pilares desta nova inteligência, um dos que mais me chama a atenção é precisamente a empatia. Huang define esta “nova empatia” no mundo dos negócios como a capacidade de deduzir verdades não ditas, ler o ambiente, compreender e sentir o que os outros sentem. Não se trata apenas de simpatia ou gentileza. Trata-se de uma competência estratégica. Num ambiente empresarial marcado por velocidade, pressão e automação, a empatia tornar-se-á uma forma de inteligência aplicada. Permite deduzir o que os dados não mostram, o que os relatórios não dizem e o que os indicadores, por mais sofisticados que sejam, ainda não conseguem captar.
Ora, num mundo em verdadeira mudança acelerada, em que a IA veio pôr velocidade nos fluxos e exigir supervisão constante, ensinar será também uma capacidade que fará diferença. Para trabalhar com IA, muitas vezes o que temos de saber fazer é, precisamente, ensinar: formular bons pedidos, contextualizar problemas, passar informação, estabelecer critérios, corrigir interpretações e sugerir relações entre mundos desligados entre si. A qualidade da resposta da máquina depende, em larga medida, da qualidade da orientação humana. Neste sentido, o profissional do futuro não será apenas alguém que sabe usar ferramentas, mas alguém que sabe orientar sistemas.
No futuro, e talvez já possamos começar a pensá-lo, a aproximação a economias pós-trabalho obrigará a repensar o valor das coisas, das pessoas e do ambiente. Se parte significativa da produtividade puder ser automatizada, então a pergunta deixa de ser apenas “o que conseguimos produzir?” e passa a ser “para que queremos produzir?”. A abundância técnica não resolve, por si só, os dilemas humanos. Pode até ampliá-los, se não for acompanhada de responsabilidade.
É aqui que a sustentabilidade entra como dimensão essencial desta nova inteligência. Ser “smart” na era da IA não pode significar apenas ser mais rápido, mais eficiente ou mais competitivo. Terá também de significar ser mais consciente. A inteligência do futuro terá de saber antecipar não só problemas de negócio, mas também problemas ambientais, sociais e humanos. Talvez o verdadeiro “new smart” seja, afinal, esta capacidade de juntar técnica e cuidado.

