O retalho alimentar de proximidade tem sido uma alavanca fundamental na dinamização da economia local. No entanto, a concorrência com grandes cadeias e a ascensão do comércio online têm vindo a colocar no caminho desafios significativos para que estes negócios se mantenham competitivos.
Neste contexto, a inovação tem-se revelado essencial. A adoção de novas tecnologias, a personalização do atendimento e a digitalização dos serviços são algumas das estratégias que estão a redefinir esta área. Além disso, valores como a sustentabilidade e o compromisso com a comunidade têm sido cada vez mais integrados na identidade das marcas, fortalecendo a sua posição no mercado.
A personalização e inovação como diferencial competitivo
Para Carla Esteves, Diretora Executiva da rede ‘Aqui é Fresco’, a proximidade com a origem dos produtos é o principal fator de diferenciação da marca.
Já Pedro Santos, Diretor de Desenvolvimento, Operações e Inovação da MC Sonae, destaca que, na rede Continente Bom Dia, a inovação surge através da experimentação de tecnologias emergentes. “A inovação é implementada por meio de scouting e testes em áreas-chave como digitalização, sustentabilidade e ciências alimentares”, afirmou.
Segundo o mesmo responsável, os processos de inovação são conduzidos “de forma descentralizada”, permitindo que as equipas experimentem e respondam rapidamente às necessidades do mercado. “A inovação é suportada por modelos de co-inovação com fornecedores, parceiros científicos e tecnológicos, incluindo diversas startups, ampliando o valor do ecossistema”, enfatiza.
A experiência de compra é avaliada tanto por critérios subjetivos, como a simpatia do comerciante, quanto por fatores objetivos, como preço e variedade de produtos.
A marca Amanhecer, do grupo Jerónimo Martins, também aposta na modernização das suas lojas, equilibrando a adaptação ao retalho moderno sem perder a essência da proximidade.
“Implementamos iniciativas e ferramentas que possibilitam o crescimento sustentável das lojas, mantendo o caráter personalizado do negócio”, destaca fonte oficial da cadeia de retalho em declarações à DISTRIBUIÇÃO HOJE.

Carla Esteves, Diretora Executiva da rede ‘Aqui é Fresco’
Retalho de proximidade vs Comércio online e grandes superfícies
A digitalização tem sido um fator-chave para manter a relevância do retalho de proximidade. Para Pedro Santos, a aposta no digital diferencia estas lojas ao proporcionar uma experiência de compra personalizada e conveniente.
“Utilizamos o digital para criar experiências e serviços para o cliente in loco, além de ganhos recorrentes em eficiência e produtividade. O nosso foco é sempre a omnicanalidade”, sublinhou.
Utilizamos o digital para criar experiências e serviços para o cliente in loco, além de ganhos recorrentes em eficiência e produtividade. O nosso foco é sempre a omnicanalidade.
Por outro lado, Carla Esteves vê o crescimento do comércio online como uma oportunidade. “Nada impede que uma loja da rede ‘Aqui é Fresco’ tenha uma ou mais plataformas de e-commerce. Pelo contrário, incentivamos e apoiamos essa presença digital”, indicou.
Contudo, a maior concorrência que o retalho de proximidade enfrenta, segundo a executiva, ainda é física. “A grande distribuição tem vindo a expandir lojas de pequena e média dimensão, enquanto o crescimento das lojas low cost representa um desafio adicional”, sublinhou.
Como reter clientes com experiência de cliente
A experiência do cliente é um dos impulsionadores da inovação no setor. Pedro Santos destaca que a personalização se baseia no forte relacionamento com os clientes através do Cartão Continente, permitindo ofertas e promoções customizadas.
A grande distribuição tem vindo a expandir lojas de pequena e média dimensão, enquanto o crescimento das lojas low cost representa um desafio adicional.
Carla Esteves, por sua vez, acredita que a personalização deve estar alinhada com fatores humanos e emocionais. “A experiência de compra é avaliada tanto por critérios subjetivos, como a simpatia do comerciante, quanto por fatores objetivos, como preço e variedade de produtos”, apontou.
Na marca Amanhecer, a aposta passa por um design de loja mais atrativo, um sistema de gestão flexível e um programa de fidelização personalizado (Freebee). Além disso, a estratégia inclui campanhas exclusivas e um forte investimento em comunicação digital para “reforçar a notoriedade da marca”.

Pedro Santos, Diretor de Desenvolvimento, Operações e Inovação da MC Sonae
Os desafios do retalho de proximidade
Os desafios enfrentados pelo setor são diversos. Segundo Carla Esteves, a mudança no comportamento do consumidor, cada vez “mais digital e exigente”, representa um dos principais obstáculos. Além disso, a crescente presença de grandes operadores em pequenas localidades e os elevados custos operacionais, como energia e combustíveis, impactam diretamente as margens de lucro.
Pedro Santos reforça que o grande desafio está em satisfazer as necessidades dos clientes com uma proposta de valor relevante, garantindo os produtos certos, as promoções certas e a experiência ideal.
Que tendências esperar no futuro?
A tendência para os próximos anos aponta para uma maior diferenciação entre as cadeias de lojas que apostam na automação e aquelas que mantêm o fator humano como prioridade.
Para Carla Esteves, o comércio de proximidade continuará a valorizar o relacionamento pessoal com os clientes. “A confiança e a empatia geradas pela proximidade geográfica são elementos insubstituíveis”, defendeu.
A confiança e a empatia geradas pela proximidade geográfica são elementos insubstituíveis.
Além disso, a desmaterialização dos meios de pagamento é uma realidade iminente. “É apenas uma questão de tempo até que o dinheiro físico seja totalmente substituído por soluções digitais”, antecipou.
Já Pedro Santos acredita que a digitalização, a omnicanalidade e a personalização vão continuar a moldar o setor, afirmando que “o uso de inteligência artificial e data analytics permitirão uma maior assertividade na entrega de propostas de valor e na eficiência operacional, tornando a automação ainda mais relevante”.

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