Até 2035, cerca de três quintos das tarefas realizadas pelos trabalhadores do retalho no Reino Unido deverão mudar de forma significativa, à medida que as empresas direcionam cada vez mais os seus orçamentos digitais para tecnologias de inteligência artificial (IA). A conclusão é de um novo estudo da Eversheds Sutherland, em parceria com a Retail Economics.
Segundo o relatório Retail Workforce Reimagined, os retalhistas britânicos já alocam 30% dos seus orçamentos digitais a iniciativas ligadas à IA, sendo que 76% esperam aumentar este investimento nos próximos dois anos, à medida que os casos de uso ganham escala. Ainda assim, o estudo alerta que a evolução poderá ser travada por sistemas legados, lacunas de competências e custos crescentes de integração.
Na próxima década, a transformação da força de trabalho liderada pela IA permitirá que quase 60% das tarefas do retalho, em funções-chave, sejam automatizadas ou reforçadas por tecnologia. Este avanço coloca o Reino Unido entre os mercados mais evoluídos a nível global.
Funções mais impactadas
As áreas digital e tecnológica — incluindo equipas de online, digital e IT — serão as mais expostas, com quase 75% das tarefas potencialmente suportadas por IA nos próximos 10 anos. O acesso a dados e a elevada literacia tecnológica facilitam a integração de machine learning, deteção de anomalias e automação de software, além de um papel central na cibersegurança.
Também as equipas de supply chain, que englobam merchandising, gestão de stocks e sourcing, deverão registar níveis semelhantes de adoção, com assistentes conversacionais, automação de workflows e analítica preditiva a assumirem tarefas administrativas e de reporting.
Nas operações de loja — que representam 55% do emprego no retalho britânico — o impacto será igualmente relevante. A IA deverá influenciar cerca de 60% das tarefas até 2035, através de análises inteligentes de prateleiras, gestão mais eficiente de armazéns de loja e insights em tempo real sobre o cliente, libertando as equipas para se concentrarem mais no serviço e na relação com o consumidor.
Já as funções de liderança terão uma integração mais lenta, com pouco mais de um terço das tarefas consideradas adequadas para adoção de IA.
Andrew Todd, partner da Eversheds Sutherland e responsável pelo sector de retalho e grossista, sublinha que “o surgimento de novas funções especializadas e a evolução dos papéis tradicionais reforçam a necessidade de upskilling contínuo e modelos de força de trabalho mais ágeis”. O responsável defende que só os retalhistas que aliarem a adoção de IA a uma gestão cuidada das pessoas, governação legal robusta e forte aposta na formação conseguirão ganhar produtividade e manter equipas resilientes.
Impacto económico e confiança do sector
O estudo estima que a integração da IA nas funções profissionais permitirá um crescimento anual de 4,9% nas vendas por colaborador entre 2025 e 2030, valor que poderá subir para 6,4% quando a tecnologia estiver totalmente integrada nas operações.
A confiança dos líderes do sector é elevada: 94% dos decisores do retalho no Reino Unido concordam que a IA permite um trabalho mais relevante e de maior valor acrescentado, o nível mais alto entre os cinco mercados analisados.
Richard Lim, CEO da Retail Economics, reforça que “os retalhistas britânicos estão a acelerar o investimento em IA” e que a próxima década trará uma mudança profunda na forma como o trabalho é realizado. No entanto, deixa um aviso claro: sem resolver o peso dos sistemas legados e sem fechar as lacunas críticas de competências, o sector dificilmente conseguirá extrair todo o potencial que a inteligência artificial promete.

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