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“A certificação é um caminho credível e de diferenciação para as várias organizações”

“A certificação é um caminho credível e de diferenciação para as várias organizações”

Com 17 anos de experiência como formadora, consultora e auditora, abraçou um novo projeto em setembro do ano passado enquanto diretora de certificação do Bureau Veritas Portugal. A DISTRIBUIÇÃO HOJE esteve à conversa com Patrícia Franganito no ano em que a empresa comemora o 20º aniversário de presença nacional.

É licenciada em engenharia de produção industrial, ramo de energia e ambiente, tem uma pós-graduação em gestão pelo valor, um MBA em gestão e é master em gestão empresarial. A revista DISTRIBUIÇÃO HOJE esteve à conversa com Patrícia Franganito, diretora de certificação do Bureau Veritas Portugal, para saber em que estado se encontra a certificação em Portugal.

Como funciona uma certificação na prática e durante quanto tempo está em vigor?
Partindo do princípio que a organização analisou internamente a norma, preparou o sistema para cumprir com os requisitos e implementou o sistema de gestão dentro da organização, fica apta para ser avaliada e é aqui que surgem os organismos de certificação, como o Bureau Veritas.

A primeira auditoria inicial é denominada de conceção e vai garantir que todo o sistema está preparado para ser emitido um certificado do nosso lado. Esta auditoria divide-se em duas fases: documental, que vai garantir que a organização tem um conjunto de documentos, de métodos e de regras que cumprem com a norma de referência, seguindo-se a fase de operação, que passa pelo acompanhamento no terreno para garantir que tudo está implementado. Isto acontece no primeiro ano.

Há um conjunto de não conformidades ou de constatações que podem surgir e a empresa tem um determinado tempo para resolvê-las. Depois, não pode ocorrer mais de doze meses sem que o organismo volte à organização para averiguar o grau de cumprimento do referencial. Até um ano, fazemos a chamada auditoria de acompanhamento, realizando outra no ano seguinte. Findo um período de três anos, vamos ter a renovação da certificação por igual tempo.

Quais as vantagens da certificação?
Acredito que a certificação é um caminho credível e de diferenciação para as várias organizações, seja uma pequena, uma micro, uma startup até às multinacionais ou empresas de grande dimensão.

Poderemos apontar as vantagens introduzidas pela certificação, tanto a nível interno, como externo às organizações. No primeiro nível, falamos de determinar processos chave, da monitorização dos KPI e objetivos mais relevantes para a gestão da organização, redução de custos com desperdícios, produto não conforme, reclamações, a melhoria no cumprimento de metas, no aumento da produtividade, na manutenção da qualidade do serviço/produto. A nível externo, podemos destacar o incremento na satisfação dos seus clientes, e globalmente dos seus stakeholders, a imagem mais robusta e credível, a entrada em mercados mais exigentes e na possibilidade de concorrer a concursos onde a certificação seja um requisito ou fator de majoração. Poderemos sempre, e mediante a norma de referência que abordamos, identificar um conjunto mais vasto de benefícios, tais como, respeito e racionalização pelos recursos naturais, diminuição e/ ou eliminação de formas de poluição, são dois exemplos que a norma de gestão ambiental incorpora nas organizações.

“O que o organismo de certificação quer é que aquela empresa se desenvolva, seja sustentável e tenha êxito no mercado. É importante que se perceba que estamos do mesmo lado“

Cada empresa é que deve definir que tipo de certificação é mais adequado para a sua área de atuação?
A certificação vai ser uma mais-valia, mas vai ter de ser a própria organização a definir o que é que pretende em termos de estratégia, não só interna, como também de comunicação para o exterior. Por exemplo, se tivermos um mercado nacional que valoriza a inovação e o desenvolvimento, pegando nas startups, existe uma norma que vai dar-lhes esse suporte. Mas, se for uma multinacional que está presente em vários mercados e em países que possam ser mais críticos a nível de cumprimento legal, pode ser importante apostar numa SA 8000 que é uma norma de responsabilidade social que vai exigir à cadeia de todos os stakeholders, um compromisso com esta área.

A certificação é algo em que as organizações devem apostar mediante a estratégia de posicionamento que pretendem ter.

Universo ISO

Qual a norma mais procurada em Portugal?
A tendência que temos registado no nosso país é a aposta na ISO 9001, de 2015, que é a norma de base que nos permite indicar que determinada empresa é certificada em qualidade. Quer em Portugal, quer globalmente, esta norma teve uma grande aceitação e implementação, é aquela em que temos mais empresas certificadas, e garante que as mesmas têm a organização necessária para prestar um bom serviço ou fabricar um bom produto.

“A certificação é um caminho credível e de diferenciação para as várias organizações”

Foto: Rodrigo Cabrita

O conselho que deve ser lançado às empresas é que muito mais do que avançar com um processo de certificação, é perceberem claramente em que mercados querem estar, qual a tendência do seu setor de atividade, o que é que estrategicamente vai ser solicitado pelos seus stakeholders no futuro, de modo a posicionarem-se nessas certificações agora. Muito mais do que ter uma norma de ambiente, em alguns setores de atividade, a nova norma de conciliação da vida profissional, pessoal e familiar [NP 4552:2016] pode ser um repto as organizações.

Uma empresa pode solicitar várias certificações e a tendência que temos registado ao longo de todos estes anos, e sobretudo desde 2001, é a solicitação da norma base que é a norma da qualidade [a ISO 9001], seguindo-se a norma do ambiente [ISO 14001], e posteriormente, a norma da segurança que está neste momento num período de migração [existia a OHSAS 18001 e atualmente, as empresas vão ter de mudar para uma versão internacional que é a ISO 45001].

Essa é uma norma recente…
Sim, muito recente, data de 2016, é uma norma portuguesa que já está alinhada com aquilo a que chamamos a estrutura global das normas internacionais ISO e está ajustada ao pacto da conciliação necessária nas organizações.

No caso das startups, numa fase inicial, já têm estrutura suficiente e trabalho desenvolvido que lhe permitam obter uma certificação?
Temos organizações com duas pessoas e que são certificadas. O número de colaboradores não é impeditivo. O mindset está em conseguir afirmarem-se no mercado e só posteriormente pensarem na certificação. Definida a estratégia e o posicionamento, a escolha da norma e da certificação vem a posteriori.

Em 2015, deu-se uma mudança de paradigma nesta área da certificação… O que mudou?
A indústria automóvel esteve na génese de alguns princípios em termos de qualidade e na altura tinha associado um conjunto de procedimentos e de exigências documentais que faziam sentido, mas com peso e medida. De nada me valia ter um manual da qualidade com 100 páginas se na prática não se traduzia em conhecimento e mais valias para as pessoas que estavam na organização.

A partir de 2015, houve uma mudança de paradigma para uma nova edição e passámos de uma exigência documental muito grande para normas muito mais flexíveis relativamente à sustentabilidade das empresas e alinhadas com o seu propósito. Desde essa altura, deu-se o “casamento” entre as normas de gestão e o negócio, o que antes não acontecia.

Certificação na “Origin”

Quais são as certificações mais solicitadas pela Grande Distribuição?
São as certificações de qualidade, ambiente, segurança e a certificação de gestão de segurança alimentar (ISO 22000), que antigamente era o HACCP.

Em que consiste o produto lançado pelo Bureau Veritas Portugal para a Grande Distribuição, o Origin?
O Origin, apresentado em outubro do ano passado, possibilita que se pegue no produto desde a sua origem – e podemos estar a falar da captura de um peixe, ou da produção de uma alface – passando por todas as etapas [acondicionamento, transporte, pontos críticos, distribuição] para perceber a viagem que faz até chegar às prateleiras do supermercado. Esse produto tem um QR Code que permite ao consumidor fazer a leitura na prateleira do supermercado e ter a garantia de qual foi o trajeto que aquele produto fez até ao momento de compra. Com esta tecnologia, poderá ser possível conhecer a origem do produto, a localização do seu produtor, a data da sua recolha ou colheita, o seu percurso, entre outras informações relevantes que garantem a qualidade do mesmo.

“A certificação vai ser uma mais-valia, mas vai ter de ser a própria organização a definir o que é que pretende em termos de estratégia, não só interna, como também de comunicação para o exterior”

Obviamente que já fizemos uma aproximação a este segmento a nível de corporate e iremos fazê-lo também a nível nacional. Ainda estamos a trabalhar este produto como um case study em parceria com uma empresa internacional da área tecnológica. O Origin poderá vir a ser uma necessidade no futuro para as empresas da Grande Distribuição, e que nos distingue no posicionamento que queremos ter de garantir a rastreabilidade de forma independente.

Existem estudos que indiquem que as organizações certificadas melhoraram os seus procedimentos e conseguiram a renovação das certificações respetivas?
Claramente há uma melhoria e uma evolução. São poucas as empresas que iniciam um processo de certificação e que depois deixam cair porque isto é quase como um “não retorno”. Quando uma empresa se certifica, há uma responsabilidade conjunta da mesma com o organismo da certificação. O que as organizações desejam é a melhoria contínua, detetando as situações de não conformidade e trabalhando na sua causa.

Uma das coisas que a norma nos pede é que, a partir do momento em que se está numa situação de melhoria de uma organização, há que atuar na prevenção porque reduzem-se custos e resolve-se mais rapidamente do que a correção.

Nunca nos podemos esquecer que, por mais exigências que existam, a certificação é um processo voluntário, não devendo ser associada a um processo de inspeção e de obrigatoriedade. O que o organismo de certificação quer é que aquela empresa se desenvolva, seja sustentável e tenha êxito no mercado. É importante que se perceba que estamos do mesmo lado e que se veja a certificação como um trabalho conjunto.

Quais os objetivos da empresa para este ano?
O Bureau Veritas foi a primeiro organismo de certificação a apoiar o programa “3 em linha” [um projeto piloto lançado pelo Governo, em dezembro de 2018, em parceria com a Associação Portuguesa de Ética Empresarial] relativamente à norma da conciliação profissional, pessoal e familiar, um referencial em que queremos continuar a apostar. Fomos o primeiro organismo a certificar uma empresa nesta área com esta norma, a Novadelta, em fevereiro último.

Somos líderes da norma para o setor da indústria automóvel e temos vindo a crescer na certificação de ambiente e segurança, automóvel e área alimentar. Este vai ser um ano em que vamos querer acautelar esse crescimento. A área de food é também uma aposta do grupo que acaba por ser transversal a Portugal e na qual estamos muito focados.

Certificação em crescimento
Segundo os dados mais recentes e públicos do Instituto Português da Acreditação (IPAC), em dezembro de 2017, existiam, em Portugal, 5837 certificados emitidos para sistemas de gestão da qualidade (ISO 9001), 1174 para ambiente (ISO 14001) e 734 na segurança (OHSAS 18001 & NP 4397). Logo em seguida surge a segurança alimentar (ISO 22000) com 298 certificados emitidos e os sistemas de investigação, desenvolvimento e inovação com 164.

“Os setores das metalúrgicas e metalomecânicas e a construção são os códigos de atividade que registam mais empresas certificadas em qualidade, ambiente e segurança.  Nos dias de hoje, a certificação tem ganho espaço e é uma aposta em empresas multinacionais e microempresas, nas áreas do turismo, saúde, produtos, serviços, entre outros”, explica Patrícia Franganito.

*esta entrevista foi publicada originalmente na edição 472 da DISTRIBUIÇÃO HOJE