Mais de 93% dos bancos sob supervisão bancária europeia já utilizam inteligência artificial (IA), mas os modelos de governação e responsabilização ainda não acompanham o ritmo de adoção da tecnologia.
De acordo com o comunicado de imprensa, o alerta foi deixado durante um fórum promovido pela Zango AI, no Grémio Literário, que reuniu responsáveis do Banco Central Europeu, da Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões, da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, do Banco de Portugal, da Caixa Geral de Depósitos e da Ageas.
Em debate esteve a forma como o setor financeiro pode tirar partido da IA, assegurando simultaneamente a proteção dos consumidores, a estabilidade financeira e a resiliência operacional.
Na intervenção principal, Pedro Machado, membro do Conselho de Supervisão do Banco Central Europeu, afirmou que mais de 93% dos bancos europeus supervisionados já utilizavam IA e que o investimento nesta tecnologia atingiu cerca de quatro mil milhões de euros até ao final de 2025.
A adoção é mais elevada em áreas como deteção de fraude e cibercrime, seguindo-se marketing, assistentes conversacionais e avaliação do risco de crédito.
Ainda assim, Pedro Machado alertou que muitas instituições continuam presas numa “armadilha da micro eficiência”, automatizando tarefas isoladas para obter ganhos pontuais, sem que esses ganhos se traduzam necessariamente em valor para a organização.
Segundo o responsável, ultrapassar esta limitação exigirá que as instituições redesenhem processos e modelos de negócio, em vez de se limitarem a aplicar IA às atuais formas de trabalho. “A transformação digital não pode existir sem confiança, tal como a confiança não pode existir sem resiliência”, afirmou.
Responsabilização humana nas decisões assistidas por IA
Pedro Machado identificou três expectativas da supervisão para os bancos: responsabilização clara pelas decisões assistidas por IA, supervisão eficaz por parte da gestão de topo e escrutínio rigoroso pelas funções de risco, compliance e auditoria interna.
O responsável alertou ainda que a responsabilidade pela utilização da IA está frequentemente fragmentada entre equipas tecnológicas e unidades de negócio, sem um quadro de governação claramente definido.
Uma das conclusões do fórum foi que a responsabilidade pelas decisões assistidas por IA deve continuar a estar atribuída a pessoas. As instituições financeiras devem identificar quem é responsável por cada sistema, quem aprova a sua utilização, quem avalia os seus resultados e quem responde quando uma decisão produz um resultado incorreto, injusto ou prejudicial.
O tema surge num contexto em que o BCE enviou recentemente cartas “Dear CEO” às instituições financeiras, solicitando a correção de vulnerabilidades e a apresentação de planos concretos até 31 de outubro.
Pedro Machado referiu também que os modelos de IA mais avançados já conseguem identificar vulnerabilidades de software e gerar, em poucos minutos, código capaz de explorar essas falhas.
Proteção do consumidor e resiliência operacional
Os supervisores financeiros identificaram preocupações em duas áreas principais: proteção dos consumidores e governação dos modelos, por um lado, e resiliência operacional e de mercado, por outro.
Responsáveis da CMVM e do Banco de Portugal defenderam que a prioridade imediata da Europa não deve passar necessariamente pela criação de mais regulamentação, mas por uma maior convergência entre supervisores e por uma aplicação mais eficaz do quadro regulatório existente, incluindo o Regulamento relativo à Resiliência Operacional Digital.
A ASF sublinhou que tem procurado fomentar a “inovação com responsabilidade”, acompanhando os desenvolvimentos tecnológicos para assegurar que a proteção dos consumidores e a confiança no sistema não são comprometidas. Este trabalho materializa-se também através do InovaSup, previsto para 2026.
IA no marketing, fraude e relação com clientes
Na aplicação prática da IA pelas instituições financeiras, responsáveis da CGD e da Ageas analisaram o impacto da tecnologia nos processos internos, na deteção de fraude e na relação com os clientes.
Raquel Vila Verde, diretora de Compliance do Grupo CGD, destacou o impacto da IA na produção de conteúdos dirigidos aos clientes. “A IA permite-nos produzir conteúdos de marketing dirigidos aos clientes mais rapidamente do que nunca, mas a obrigação de garantir que esses conteúdos são justos, claros e compreensíveis mantém-se”, afirmou.
Segundo a responsável, “o desafio passa por assegurar uma revisão humana efetiva à medida que o volume aumenta, evitando que a aprovação se transforme numa mera formalidade”.
Ritesh Singhania, cofundador e CEO da Zango AI, defendeu que a adoção da IA pode ter impacto relevante na conformidade regulamentar. “A IA pode ajudar as instituições a assegurar a conformidade dos conteúdos de marketing perante o crescente volume de materiais produzidos nos canais digitais, identificando automaticamente potenciais problemas”, afirmou.
O responsável alertou, contudo, que “a governação destes sistemas tem de ser robusta”, caso contrário “as empresas ficam expostas a vulnerabilidades que podem ser exploradas por agentes mal-intencionados”.
O fórum concluiu que a próxima fase da adoção da IA nos serviços financeiros dependerá não apenas do acesso à tecnologia, mas da capacidade das instituições para combinarem inovação, responsabilização humana, governação eficaz e confiança dos consumidores.

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