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Virtualizar, literalmente, tudo o que está hoje na carteira

Virtualizar, literalmente, tudo o que está hoje na carteira

19% dos portugueses entre os 60 e 74 anos já fazem compras online e 67% já têm um telemóvel com acesso à internet. Estes são os dados que mais ‘saltam à vista’ no estudo ‘Hábitos e atitudes face à evolução dos meios de pagamento’, realizado pela Ipsos‑Apeme para a Mastercard Portugal, e que vêm desmontar “o mito urbano de que os nossos pais e avós não estão a acompanhar a evolução tecnológica”.

Apresentado no final de 2018, o estudo mostra que dos 67% dos portugueses entre os 60 e 74 anos que já têm acesso à internet através de um telemóvel, 25% já têm a aplicação móvel do seu banco instalada. 69% têm computador e 32% dizem ainda ter um tablet, ambos com acesso à internet.

De acordo com o estudo, 11% já se sentem insatisfeitos com os pagamentos em numerário, contra 16% dos que afirmam ter maior satisfação com este tipo de pagamento. Dos ‘insatisfeitos’, 42% dizem que pagar em dinheiro não é cómodo e 28% dizem que pagar com cartão lhes permite ter melhor controlo do seu dinheiro.

À DISTRIBUIÇÃO HOJE, Paulo Raposo, Country Manager da Mastercard Portugal, explica que “fica claro que ainda há uma certa relação emocional com as notas e as moedas, mas também verificamos que há já uma franja da população que sente alguma insatisfação a pagar em numerário. Ainda há um caminho para percorrermos, mas os sinais são muito interessantes e até, de certa forma, surpreendentes, porque os resultados do estudo desmontam o mito urbano de que os nossos pais e avós não estão a acompanhar a evolução tecnológica. E para os que ainda têm uma forte relação emocional com o dinheiro, só a experiência poderá fazer as pessoas evoluírem para as novas soluções. E isso é, de certa forma, independente do nível de escolaridade que cada um de nós tenha. Aliás, em média, cada português tem na carteira três cartões de débito, o que contrasta com o facto de 70% das transações serem ainda feitas em dinheiro. Mas, repito, a melhor forma de comunicar a inovação é permitir a experiência. Os consumidores adotam o que é fácil, intuitivo e seguro. Daí o esforço em criar experiências de utilizador positivas”.

Entre as inovações que criam “experiências positivas”, Paulo Raposo destaca soluções como o Contactless. “Hoje há soluções de pagamento mais fáceis para o consumidor e precisamos de continuar a evoluir para esse próximo nível. Refiro-me, por exemplo, à tecnologia Contactless, que, em Portugal, ainda tem uma pequena expressão quando nos comparamos com outros países europeus. A forma de conseguirmos aproximar as pessoas destas novas soluções é darmos-lhes a oportunidade de experimentarem. Sem essa experiência, será mais difícil a adesão das pessoas, por muitas campanhas de sensibilização que se façam. Aliás, Portugal foi, de certa forma, pioneiro nos anos 80 do século passado na adoção de pagamentos eletrónicos, precisamente porque foi dado às pessoas a possibilidade de experienciarem as vantagens desses meios de pagamento. No caso concreto da Mastercard, temos estado empenhados em proporcionar essas experiências aos consumidores e um dos exemplos que fizemos no ano de 2018 foi a campanha com a Bagga, a cadeia de cafetarias do grupo Sonae, centrada na informação e elucidação dos clientes acerca dos benefícios da utilização dos cartões Contactless para compras de montantes inferiores a 20 euros, que não necessitam da introdução do PIN”.

A caminho do cashless
O estudo publicado pela Mastercard Portugal revela também que quando a conta ultrapassa os 20 euros, metade dos portugueses entre os 60 e 74 anos opta por pagar com cartão. Este é, aliás, o meio preferido pelos inquiridos para pagarem produtos de primeira necessidade, como compras do supermercado e medicamentos. As pequenas despesas, como o café, o pequeno-almoço ou o jornal são as principais despesas que ainda são pagas em numerário por este grupo de consumidores.

Virtualizar, literalmente, tudo o que está hoje na carteiraNo que diz respeito a inovações, 14% destaca o homebanking, 11% os pagamentos Contactless, os pagamentos através do telemóvel e os cartões virtuais para pagamentos online. Quanto às operações realizadas, 45% diz consultar online, ainda que de forma esporádica, o saldo da sua conta bancária.

Importa ainda referir que 43% dos inquiridos acreditam que, daqui a 10 anos, “tudo será feito via online ou digital” e 47% vê a possibilidade de poder vir a pagar as compras no supermercado com os seus telemóveis ou os seus smartwatchs.

Sobre a possibilidade de um mundo ‘cashless’, já daqui a 10 anos, o Country Manager da Mastercard Portugal é perentório: “Sem dúvida [que acredito] e a Mastercard assume a visão de estarmos a caminhar rapidamente para uma sociedade ‘cashless’. E não apenas por ser uma forma de facilitar a vida às pessoas, no momento de pagarem, ou de facilitarmos a vida aos comerciantes, no momento de receberem. Uma sociedade ‘cashless’ traz mais equidade, porque inibe a economia paralela que os pagamentos em dinheiro ainda permitem, mas também pode trazer mais eficiência à sociedade como um todo, uma vez que, atualmente, damos por adquirido que o manuseamento do dinheiro não tem custos. E isso não é verdade. Está estimado que pôr o dinheiro à disposição dos europeus custa 1% do PIB europeu”.

Paulo Raposo defende ainda que “numa visão de longo prazo, vamos conseguir virtualizar, literalmente, tudo o que temos hoje na carteira. O conceito de termos uma carta de condução em plástico, por exemplo, começa a ser anacrónico, porque os dados que estão registados nesse documento estão guardados num servidor, o que significa que podemos ter essas mesmas credenciais acessíveis a partir do telemóvel. E num controlo pela autoridade, basta existir um leitor biométrico para leitura da impressão digital para confirmar que sou eu o verdadeiro dono daquelas credenciais. Hoje, isto pode parecer bastante invasivo, mas a prazo tudo isto vai ser possível e, diria, até banal”.

A “velha” questão da segurança
“O que é fundamental para os consumidores é não cairmos numa situação em que continuamos a pôr os cartões na rua e a dar a sensação à pessoa de que as suas credenciais estão ali, na sua posse, no seu bolso e que depois nada mais existe. Porque, na verdade, o nosso cartão do cidadão, por exemplo, tem um conjunto de capacidades e de informação que vai muito para além do cartão em si. Logo, com os pagamentos e os cartões de débito e crédito, tal como os conhecemos, vai ser a mesma coisa. Não falta muito tempo – e isto não é ficção científica – para não precisarmos de carteira. Basta-nos um dispositivo como um anel, um colar ou uma pulseira para sairmos de casa. Há tecnologia para o fazer, grande parte dela, oriunda do IoT. Claro que a adoção destas tecnologias faz-se com base na generalização da sua utilização, mas faz-se, também, com a necessária educação e sensibilização. Desde logo, para extinguir alguns preconceitos ligados à privacidade, por parecer uma tecnologia demasiado disruptiva. Tendencialmente, receamos e rejeitamos aquilo que não conhecemos ou não entendemos. Por isso, este tem de ser um processo gradativo. Vamos ter um mundo sem cartões? Claramente. Não sei quando, mas vamos”, acrescenta.

E é com o objetivo de “educar e sensibilizar” para esta realidade que, ao longo de 2019, a Mastercard vai participar num roadshow da ACEPI – Associação Economia Digital, no âmbito do ‘Programa Comércio Digital’, que tem o objetivo de colocar 50 mil empresas online.

“A Mastercard, enquanto parceira da ACEPI nesta iniciativa, pretende demonstrar as vantagens da adoção de soluções de pagamento e checkout que proporcionem uma boa experiência de compra aos consumidores. Por outro lado, é preciso sensibilizar os comerciantes que em setembro de 2019 entra em vigor o novo padrão de segurança por autenticação forte (Strong Customer Authentication – SCA), por imposição da PSD2, a diretiva para os sistemas de pagamentos. Esta autenticação forte consiste em ter dois de três elementos que demonstrem que somos mesmo nós que queremos fazer o pagamento. Ou seja, algo que eu saiba (por exemplo, uma password), alguma coisa que eu tenha (por exemplo, um telefone ou token) ou algo que eu sou (por exemplo, uma impressão digital ou o reconhecimento facial)”, conclui.

*este artigo foi originalmente publicado na DISTRIBUIÇÃO HOJE 471