No rescaldo do Dia Mundial dos Direitos do Consumidor, assinalado a 15 de março, um estudo da ConsumerChoice traçou o retrato de um consumidor português mais cauteloso, mais atento ao contexto e cada vez mais orientado para decisões de compra racionais.
A comparação de preços tornou-se um gesto corrente, num cenário marcado por incerteza, pressão sobre o orçamento familiar e maior exigência na forma como se avalia o valor de cada compra.
Os dados mostraram que o consumo está hoje mais centrado no essencial. Alimentação, energia e saúde surgem entre as principais prioridades, enquanto áreas como vestuário, lazer e tecnologia perdem peso nas decisões das famílias. Ao mesmo tempo, cresce a utilização combinada de vários canais de informação, dos folhetos promocionais às lojas físicas e aos meios digitais, o que revela consumidores mais preparados, mais informados e menos disponíveis para decisões impulsivas.
Em entrevista à DISTRIBUIÇÃO HOJE, Nassrin Majid, diretora-geral da ConsumerChoice, analisou as principais conclusões do estudo e explicou de que forma a instabilidade económica e internacional está a moldar os hábitos de consumo em Portugal. Entre as ideias centrais, destaca-se a imagem de um consumidor menos impulsivo, mais defensivo e mais disciplinado, para quem o preço ganhou peso sem eliminar outros critérios, como a qualidade, a confiança ou a sustentabilidade.

Nassrin Majid, diretora-geral da ConsumerChoice
O vosso estudo mostrou que 68% dos portugueses comparam preços antes de comprar. Isto revela um consumidor mais informado ou um consumidor mais pressionado financeiramente?
Revela um consumidor mais consciente do contexto em que vive. Há, naturalmente, uma dimensão financeira importante, mas aquilo que vemos é sobretudo um consumidor mais atento, mais racional e menos disponível para decidir por impulso.
Comparar preços deixou de ser um comportamento pontual, tornou-se um reflexo de gestão. Hoje, o consumidor quer sentir que está a fazer a escolha certa, não apenas a mais barata, o que se traduz num maior cuidado sobre cada decisão.
Os dados reforçam esta leitura. Por um lado, 62% dos consumidores assumem já maior cautela na gestão financeira e no consumo do dia a dia. Por outro, 82% dizem sentir impacto direto do contexto internacional, com um nível médio de preocupação de 4,6 numa escala de 1 a 5.
Quando o contexto gera este nível de inquietação, o consumidor reage da forma racional, tenta controlar aquilo que consegue, e muitas vezes isso começa no momento da compra. Comparar preços, hoje, não é apenas procurar o mais barato. É uma forma de manter equilíbrio num contexto que se tornou, para muitos, cada vez menos previsível.
 Comparar preços deixou de ser um comportamento pontual, tornou-se um reflexo de gestão.
Se 43% dos inquiridos afirmaram que o poder de compra se manteve estável, como se explica esta forte preocupação em comparar preços
Porque estabilidade não significa conforto e, sobretudo, não significa previsibilidade. Os dados mostram que o consumidor continua a viver num contexto de elevada incerteza, 82% afirmam já sentir impacto dos acontecimentos internacionais no seu quotidiano, com um nível médio de preocupação de 4,6 em 5 e uma perceção de incerteza face ao futuro de 4,2. Mesmo sem uma quebra direta de rendimento, esta instabilidade influencia a forma como as pessoas pensam e decidem.
A isso soma-se um comportamento cada vez mais cauteloso, 62% dos consumidores já ajustaram a sua gestão financeira e o consumo do dia a dia. Muitos começam a rever hábitos desde a redução de consumos essenciais, como energia e combustível (44%), até uma maior ponderação nas decisões de compra.
Ou seja, o que estamos a ver não é apenas uma reação ao rendimento disponível, mas uma adaptação a um contexto mais incerto. O consumidor pode sentir que mantém o seu poder de compra, mas não sente segurança suficiente para relaxar na forma como consome. E quando a segurança diminui, a comparação aumenta.
Folhetos promocionais, lojas físicas e sites de comparação continuam entre os principais meios usados para comparar preços. O que é que isso mostra sobre a forma como os consumidores portugueses procuram informação e decidem?
Mostra que, no contexto da distribuição, o consumidor continua a valorizar proximidade, clareza e controlo. O folheto mantém um papel muito relevante porque simplifica a decisão, organiza a oferta, destaca preço e permite uma leitura rápida de oportunidade. Ao mesmo tempo, o digital ganha força como ferramenta de comparação e validação, sobretudo pela rapidez e facilidade de acesso à informação. E a loja física continua a ser o momento da decisão final, onde o consumidor confirma a sua escolha.
Mas há aqui uma mudança importante, esta utilização combinada de canais está diretamente ligada a um comportamento mais cauteloso. Num contexto em que 62% dos consumidores assumem maior controlo na gestão do dia a dia, a decisão deixou de ser impulsiva e passou a ser mais planeada.
Para a distribuição, isto tem uma implicação clara, o consumidor está mais preparado, entra na loja mais informado e com maior intenção de compra. E isso aumenta a exigência sobre a consistência de preço, a clareza das promoções e a coerência entre canais. O grande desafio é corresponder à expectativa que o próprio retalho ajudou a construir.
O consumidor pode sentir que mantém o seu poder de compra, mas não sente segurança suficiente para relaxar na forma como consome.
Alimentação, energia e saúde aparecem como as áreas mais prioritárias. O que é que esta hierarquia de consumo diz sobre a realidade económica das famílias em Portugal?
Diz-nos que o consumo se tornou mais essencial e mais defensivo. Estamos perante famílias que organizam o seu orçamento em torno do que é inadiável.
A alimentação, a energia e a saúde deixam de ser apenas áreas de consumo passam a ser áreas de proteção do dia a dia. Os dados reforçam isso, 44% dos consumidores já ajustaram consumos como energia e combustível. Ou seja, não estamos apenas a falar de escolhas, estamos a falar de adaptação a um contexto mais exigente.
Isto revela um consumidor mais pragmático, mais disciplinado e muito mais consciente do impacto de cada decisão. E tem uma implicação clara, o consumo aspiracional tende a recuar, dando lugar a um consumo mais racional, orientado para equilíbrio e estabilidade.
Naturalmente, este comportamento acaba por refletir-se em vários setores, incluindo a distribuição, onde a perceção de valor a relação entre preço, qualidade e confiança se torna cada vez mais determinante na decisão final.
Em sentido contrário, vestuário, lazer e tecnologia surgem entre os setores menos priorizados. Estamos perante uma mudança conjuntural ou estrutural nos hábitos de consumo?
Neste momento, estamos sobretudo perante uma resposta conjuntural a um contexto de maior instabilidade, mas com sinais que não devem ser desvalorizados. O estudo revela uma tendência clara para comportamentos mais cautelosos (3,8 em 5), o que se traduz numa reorganização pragmática das prioridades. O consumidor concentra-se no essencial e adia decisões que não são urgentes.
Os dados indicam uma alteração concreta no comportamento de consumo. 28% dos consumidores já ajustaram a escolha de produtos e o planeamento futuro, o que evidencia uma mudança efetiva na forma como gerem as suas decisões. Em paralelo, observa-se uma tendência para comportamentos mais cautelosos (3,8 em 5), o que ajuda a explicar a menor prioridade atribuída a categorias como vestuário, lazer e tecnologia.
Neste contexto, o consumidor privilegia decisões mais controladas e orientadas para o essencial, adiando ou reduzindo o consumo em categorias consideradas menos urgentes.
O consumidor privilegia decisões mais controladas e orientadas para o essencial, adiando ou reduzindo o consumo em categorias consideradas menos urgentes.
Que impacto pode ter este comportamento mais vigilante na forma como as marcas definem preços, promoções e estratégias comerciais?
Pode ter um impacto muito relevante, porque o estudo mostra um consumidor mais atento, mais comparativo e mais disciplinado. Quando 68% comparam preços antes de comprar e 62% assumem maior cautela na gestão financeira e no consumo do dia a dia, isso significa que o processo de decisão está mais exigente. A compra deixa de ser impulsiva e passa a ser mais escrutinada.
Além disso, o facto de 44% já terem reduzido consumos como energia e combustível mostra que não estamos apenas perante uma perceção de cautela, mas perante mudanças reais de comportamento. Para as marcas, isto implica maior clareza nos preços, maior relevância das promoções e consistência entre aquilo que comunicam e aquilo que efetivamente entregam.
Até que ponto o preço está hoje a sobrepor-se a outros critérios de escolha, como qualidade, confiança na marca ou sustentabilidade?
O preço ganhou um peso muito relevante, mas os dados não indicam que tenha eliminado os restantes critérios. Quando 82% dos consumidores afirmam já sentir impacto no seu quotidiano e quando o nível médio de preocupação atinge 4,6 em 5, é natural que o preço assuma maior centralidade na decisão. O consumidor começa por avaliar o que consegue suportar.
Ainda assim, a qualidade, confiança ou sustentabilidade continuam a contar. O que muda é a ordem de decisão, o preço funciona como filtro inicial, sobretudo num contexto de maior pressão e incerteza.
Para as marcas, isto implica maior clareza nos preços, maior relevância das promoções e consistência entre aquilo que comunicam e aquilo que efetivamente entregam.
Quais são hoje, na prática, as maiores fragilidades dos consumidores portugueses?
Os dados mostram que a maior fragilidade está na sensação de instabilidade contínua. Por um lado, temos um nível médio de preocupação de 4,6 em 5 e uma perceção de incerteza face ao futuro. Por outro, verifica-se que esta preocupação não é apenas abstrata, traduz-se em comportamento. 23% dos consumidores já adotam comportamentos de stock ou preparação, precisamente porque sentem necessidade de antecipar ou mitigar risco.
Além disso, o estudo evidencia também uma forte presença de sentimentos de medo e incerteza relativamente ao futuro, em especial no que toca às gerações mais jovens. Isso significa que a fragilidade do consumidor português hoje não é apenas económica, é também emocional.
Que retrato geral do consumidor português emerge deste estudo?
Emerge um consumidor mais cauteloso, mais impactado pelo contexto e mais orientado para decisões defensivas. Os dados mostram níveis elevados de preocupação, uma perceção significativa de incerteza e um impacto direto do contexto internacional no quotidiano.
Revelam também ajustes concretos na gestão financeira, no consumo corrente, na redução de energia e combustível, na escolha de produtos e até em comportamentos de preparação. Ou seja, não estamos perante um consumidor passivo, mas sim um consumidor em adaptação. Um consumidor que continua a consumir, mas que o faz com mais controlo, maior filtro e maior consciência do risco associado a cada decisão.
Emerge um consumidor mais cauteloso, mais impactado pelo contexto e mais orientado para decisões defensivas.
Com base neste estudo, que tendências anteveem para o comportamento do consumidor em Portugal nos próximos meses?
Os dados mostram que o consumidor continua em processo de adaptação, e isso deverá manter-se nos próximos meses. No que respeita à adoção de medidas preventivas, o estudo apresenta uma divisão muito equilibrada, cerca de 36% já adotaram medidas, e 28% estão a considerar essa possibilidade. Isto indica que a mudança de comportamento ainda está em curso.
Ao mesmo tempo, a combinação entre níveis elevados de preocupação, impacto já sentido no quotidiano e perceção de incerteza sugere que a prudência continuará a marcar a forma como os consumidores gerem o orçamento, escolhem produtos e definem prioridades. A tendência que emerge é clara, o consumo continuará a ser mais controlado, mais comparado e mais condicionado pelo contexto económico e internacional.

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