Os mercados globais de energia reagiram com alívio ao acordo entre os Estados Unidos e o Irão que deverá permitir a reabertura do Estreito de Ormuz, mas o regresso aos níveis de abastecimento e preços anteriores à crise poderá demorar meses. Segundo o The Guardian, apesar da queda imediata do Brent e dos preços grossistas do gás, persistem riscos operacionais, logísticos e financeiros que deverão manter pressão sobre empresas, transportadores e cadeias de abastecimento.
O preço do Brent caiu para cerca de 82 dólares por barril após a confirmação do acordo, depois de ter atingido 126 dólares no pico da crise. Ainda assim, o valor permanece acima da média de 69 dólares por barril registada no ano anterior, sinalizando que a normalização dos mercados energéticos não será imediata.
A reabertura do Estreito de Ormuz deverá ser gradual. De acordo com a análise citada pelo The Guardian, o processo de remoção de minas poderá demorar até sete semanas, durante o período de negociação de 60 dias sobre os termos do desmantelamento nuclear iraniano. A rota é considerada crítica por ter transportado cerca de um quinto do petróleo e gás mundial antes da crise.
O impacto logístico é uma das principais limitações à recuperação. Mais de 160 navios terão ficado retidos no Golfo durante mais de 100 dias, segundo dados da Lloyd’s List citados pelo jornal. Mesmo com passagem segura, há navios fora da posição necessária, instalações de produção e refinação ainda a recuperar capacidade e incerteza sobre o custo e disponibilidade de seguros marítimos para atravessar Ormuz.
Os analistas citados admitem que cerca de 80% dos fluxos de crude possam ser retomados até ao final do terceiro trimestre, mas o gás deverá demorar mais tempo a normalizar, devido aos danos causados por ataques a infraestruturas de processamento no Qatar. O impacto é relevante para os mercados internacionais de gás natural liquefeito, numa altura em que os compradores procuram garantir carga num contexto de menor disponibilidade.
A recuperação dos fertilizantes poderá ser ainda mais lenta. Segundo Alexis Ellender, analista da Kpler citado pela Bloomberg e referido pelo The Guardian, os fertilizantes deverão ficar atrás do petróleo e do gás natural liquefeito na prioridade de passagem pela rota, o que pode prolongar a pressão sobre custos agrícolas e cadeias alimentares.
Para o retalho e a distribuição, o principal risco está menos na rutura imediata de produtos e mais na persistência de custos elevados ao longo da cadeia. Energia, combustíveis, transporte marítimo, seguros, produção industrial, frio logístico e fertilizantes são componentes que influenciam diretamente os custos de produção, abastecimento e distribuição.
Mesmo com o acordo, os preços do petróleo poderão manter-se entre 80 e 90 dólares por barril durante o resto do ano, à medida que os compradores procuram repor reservas de emergência de crude. Os analistas da Rystad Energy citados pelo jornal admitem que as exportações de petróleo do Golfo só regressem aos níveis pré-crise em 2027, caso o acordo se mantenha e a produção recupere ao ritmo necessário.
O cenário aponta, assim, para uma normalização parcial, mas não imediata. Para empresas dependentes de transporte, energia e matérias-primas, a reabertura de Ormuz reduz o risco de choque extremo, mas não elimina a pressão sobre custos, margens e planeamento logístico nos próximos meses.
Guerra no Médio Oriente deixa cadeias de abastecimento novamente sob pressão

iStock
