A instabilidade geopolítica, o aumento dos custos logísticos e a pressão sobre as cadeias de abastecimento estão a agravar os desafios das empresas agropecuárias portuguesas.
Em entrevista à DISTRIBUIÇÃO HOJE, Clara Moura Guedes, CEO da Monte do Pasto, refere que o setor enfrenta constrangimentos externos relevantes, mas o principal bloqueio continua a ser interno: a falta de agilidade na abertura de mercados e na definição de protocolos sanitários que permitam exportar carne.
Num setor globalmente competitivo, a instabilidade no Médio Oriente tem impacto direto na logística, na energia e nos transportes. Ainda assim, a responsável considera que o maior desafio para as empresas portuguesas é “de ordem interna e estrutural”.
“Portugal continua pouco ágil a abrir mercados e a fechar protocolos sanitários vitais para exportar carne, o que nos deixa em desvantagem face a acordos como o estabelecido com o Mercosul”, afirma Clara Moura Guedes.
Para a gestora, o reposicionamento do setor exige “agilidade institucional do Estado na abertura de mercados”, desburocratização e uma colaboração mais estreita entre os diferentes agentes.
“Mais do que preço, o caminho exige uma marca-país agroalimentar forte, assente numa união estratégica entre empresas, cooperativas locais e associações setoriais para ganharmos a escala e o valor que individualmente não temos”, defende.
 Portugal continua pouco ágil a abrir mercados e a fechar protocolos sanitários vitais para exportar carne, o que nos deixa em desvantagem face a acordos como o estabelecido com o Mercosul.
Custos logísticos pressionam operação e tesouraria
O aumento dos combustíveis é outro fator de pressão sobre a operação diária. Segundo Clara Moura Guedes, este agravamento “encarece em flecha toda a cadeia operacional, das rações aos transportes”, sendo um custo que acaba por chegar ao consumidor.
A responsável sublinha ainda o impacto combinado dos custos energéticos e dos fenómenos climáticos extremos, que obrigam a uma gestão mais exigente das explorações, sublinhando que “gerir uma exploração exige hoje um reequacionamento constante”.
Na leitura da CEO da Monte do Pasto, existe também uma diferença relevante entre Portugal e Espanha na resposta pública a este contexto. “Enquanto o governo em Espanha tem sido muito interventivo, com subsídios diretos aos combustíveis e transportes para amortecer o impacto imediato nas empresas, Portugal tem optado por uma via mais lenta e estrutural, focada na transição energética”, refere. O resultado, acrescenta, é uma pressão “muito mais severa e imediata” sobre a tesouraria dos produtores portugueses.

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Mais do que preço, o caminho exige uma marca-país agroalimentar forte, assente numa união estratégica entre empresas, cooperativas locais e associações setoriais para ganharmos a escala e o valor que individualmente não temos.
Nearshoring e cadeias mais próximas
A vulnerabilidade das cadeias de abastecimento é outro dos temas centrais para o setor agrícola e pecuário. Para Clara Moura Guedes, a dependência de cadeias longas “deixou de ser sustentável”, abrindo espaço a modelos mais regionais e a estratégias de nearshoring.
“O futuro passa por um posicionamento regional inteligente e pelo nearshoring — a relocalização de cadeias produtivas para geografias vizinhas”, afirma. Na sua perspetiva, Portugal tem condições para se afirmar como fornecedor de proximidade para a Europa, mas esse posicionamento depende de maior articulação operacional.
Para que essa oportunidade não seja perdida para Espanha, a responsável defende a criação de “um ecossistema logístico integrado”, envolvendo operadores logísticos, portos e produtores, capaz de garantir “rotas rápidas, previsíveis e eficientes”.
O futuro passa por um posicionamento regional inteligente e pelo nearshoring — a relocalização de cadeias produtivas para geografias vizinhas.
Acesso aos mercados continua a ser o bloqueio central
Quando questionada sobre a competitividade internacional das empresas agroalimentares portuguesas, Clara Moura Guedes coloca o acesso aos mercados como prioridade.
“Enquanto vigorar a extrema inércia das autoridades em estabelecer protocolos bilaterais que permitam às empresas portuguesas exportar para um número significativo de mercados, o acesso continua bloqueado nas nossas categorias de produtos”, afirma.
A CEO da Monte do Pasto sustenta que Portugal é “o país da UE com menos mercados abertos para a exportação de bovinos ou carne de bovino” e considera que, apesar da estratégia europeia de promoção dos produtos europeus, Portugal “não tem acompanhado de forma alguma”.
“Sem acesso aos mercados, não há nada que possamos fazer”, resume.
A par da abertura de mercados, Clara Moura Guedes defende a criação de uma identidade nacional forte para o agroalimentar português, à semelhança do que considera ter acontecido no turismo. Essa marca nacional, afirma, deveria valorizar o produto para além do preço.
A responsável aponta ainda a necessidade de investimento em inovação, atração de investidores estratégicos e linhas de financiamento orientadas para a modernização agropecuária.
“Precisamos de uma estratégia conjunta e cofinanciada entre empresas, associações setoriais e os Ministérios da Agricultura, Economia e Turismo”, afirma.
Enquanto vigorar a extrema inércia das autoridades em estabelecer protocolos bilaterais que permitam às empresas portuguesas exportar para um número significativo de mercados, o acesso continua bloqueado nas nossas categorias de produtos.
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Inovação, universidades e talento qualificado
A inovação surge como outro eixo de diferenciação. Clara Moura Guedes considera que “a inovação científica é o motor da Monte do Pasto” e destaca os projetos desenvolvidos com as Universidades de Évora e do Minho, como o Ethical Meat, ligado ao bem-estar animal, o Planet Moo, na área da economia circular, e o Future Beef, focado em genética.
A empresa tem também projetos em curso que incluem a incorporação de inteligência artificial (IA) para uma gestão individualizada e para o aumento da eficiência produtiva. Em paralelo, desenvolve novos produtos e cortes, incluindo a True Burn Charcuterie, descrita pela responsável como uma gama de enchidos do Alentejo 100% de bovino.
No plano dos recursos humanos, a Monte do Pasto tem-se afirmado como empregador qualificado no distrito de Beja. Segundo Clara Moura Guedes, a ligação às universidades e o ambiente de inovação são fatores de atração de talento.
“Na maioria dos casos, privilegiamos as qualificações e a atitude e motivação, recrutando sobretudo à saída das universidades”, explica. A empresa conta com mais de 60% dos colaboradores com pelo menos grau universitário e foi considerada Projeto de Interesse Regional pelo IEFP, dispondo de condições diferenciadas para o recrutamento de colaboradores qualificados.
Sustentabilidade com viabilidade económica
A sustentabilidade é outro dos temas estruturantes para a pecuária. Para a responsável da Monte do Pasto, as exigências ambientais têm de ser conciliadas com modelos economicamente viáveis.
“A sustentabilidade só será verdadeiramente sustentável se também for economicamente viável para quem produz”, afirma. No caso da empresa, essa abordagem passa pela produção ao ar livre, pela gestão mais eficiente dos recursos naturais, pela valorização da genética e da alimentação animal, bem como pela inovação e tecnologia.
A sustentabilidade só será verdadeiramente sustentável se também for economicamente viável para quem produz.
A rastreabilidade e a origem dos produtos têm também impacto na relação entre produtores e distribuição moderna. Clara Moura Guedes considera que a produção ao ar livre, a rastreabilidade integral, o bem-estar animal e a redução da pegada ambiental fazem parte da proposta de valor da Monte do Pasto, mas antecipa que estas características tenderão a deixar de ser fatores diferenciadores para passarem a constituir “expetativas básicas do mercado”.
Para a responsável, esta evolução cria oportunidades para valorizar produtos de origem nacional, produzidos de forma sustentável e com identidade própria, num contexto em que os consumidores procuram “autenticidade, qualidade e confiança”.

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