Telemóveis esquecidos em gavetas, pequenos eletrodomésticos parados na garagem ou equipamentos antigos guardados “para o caso de um dia fazerem falta”: o lixo eletrónico continua a acumular-se nas casas dos portugueses. É precisamente este hábito que a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) quer combater com a campanha “Não fiques com ele”, uma iniciativa que usa humor e referências da cultura popular para lembrar que estes resíduos devem voltar ao circuito certo de recolha, reciclagem e reutilização.
O ponto de partida é um dado revelador: 33% dos portugueses admitem guardar equipamentos antigos em casa, em armários, garagens ou prateleiras, adiando a sua reciclagem ou reutilização. Apesar da existência de uma rede de 1.692 pontos de recolha nos espaços dos associados da APED, o desafio já não está apenas na infraestrutura, mas também na mudança de comportamentos e na literacia ambiental.
Em entrevista à Distribuição Hoje, Cristina Câmara, Diretora de Sustentabilidade da APED, explica o papel da distribuição como elo entre o cidadão e a economia circular. A responsável sublinha que as lojas podem tornar a entrega de equipamentos usados tão simples como o ato de compra, mas alerta para a necessidade de reforçar a sensibilização, melhorar hábitos de pós-consumo e aprofundar a colaboração entre produtores, retalhistas, entidades gestoras e Estado para acelerar a transição para modelos mais circulares.
Que papel concreto assume atualmente o setor da distribuição na recolha e encaminhamento de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos em Portugal?
A distribuição é hoje um importante elo de ligação entre o cidadão e a economia circular. O nosso papel vai muito além do cumprimento de uma obrigação legal de receção e encaminhamento de equipamentos usados para reciclagem; funcionamos como uma plataforma de alta eficiência.
Através dos nossos associados, garantimos que a entrega de equipamentos elétricos e eletrónicos seja tão simples e acessível quanto o ato da compra, assegurando que o material seja recolhido através de um circuito de triagem e valorização, evitando, assim, o encaminhamento inadequado. O setor está comprometido com a transformação de hábitos de consumo e pós-consumo, sendo a APED uma voz ativa na promoção da economia circular.
O setor está comprometido com a transformação de hábitos de consumo e pós-consumo, sendo a APED uma voz ativa na promoção da economia circular.
Apesar da existência de uma rede de 1.692 pontos de recolha, 33% dos consumidores continuam a acumular equipamentos em casa. Onde está a falha: Na infraestrutura ou na mudança de comportamento?
A rede atual, composta por 1.692 pontos de recolha nos espaços dos associados da APED, em complemento à rede de recolha das entidades gestoras deste fluxo específico e ao papel dos municípios, demonstra que a infraestrutura física em Portugal é robusta e oferece uma cobertura territorial abrangente.
Além disso, o próprio setor está comprometido em trabalhar para encontrar novas formas de melhorar infraestruturas e sistemas que apoiem esses hábitos. No entanto, acreditamos que o desafio maior se prende exatamente com essa mudança de hábitos e a literacia ambiental que ainda não atingiu o ponto de maturidade desejado.
Os 33% de consumidores que ainda acumulam equipamentos em casa fazem-no por uma combinação de “posse emocional” (o receio de perder o valor residual do equipamento) e por um desconhecimento dos riscos ambientais associados a essa acumulação.
É certo que todos reconhecem que a reciclagem é essencial para preservar o ambiente, mas pouco estão conscientes do verdadeiro impacto da falta dela – principalmente neste tipo de equipamentos, que ainda causam muitas dúvidas. É por isso que este tipo de campanhas são importantes: mais do que dizer o quê, temos de explicar porquê e como.
Como é que campanhas como “Não fiques com ele” contribuem para transformar hábitos de consumo e pós-consumo no ponto de venda?
A campanha “Não fiques com ele” foi desenvolvida em parceria com a ERP Portugal e conta com o apoio institucional da Agência Portuguesa do Ambiente e da Direção Geral de Economia. Tem o propósito de criar uma mensagem de sensibilização e de informação próxima do consumidor e com forte impacto e capacidade mobilização.
Assente numa abordagem criativa que recorre ao humor, a referências culturais amplamente reconhecidas e a uma linguagem próxima do consumidor, a campanha visa promover, de forma clara e eficaz, a adoção de comportamentos mais responsáveis no momento da entrega de equipamentos usados, contribuindo para uma maior consciencialização ambiental e para a normalização deste gesto no ponto de venda.
Os associados da APED garantem cerca de 17% da recolha global destes resíduos. Que medidas são necessárias para escalar este contributo e aproximar Portugal das metas europeias?
Atualmente, os associados da APED garantem cerca de 17% da recolha global destes resíduos realizada pelas entidades gestoras. Para aproximar Portugal das exigentes metas europeias, é essencial reforçar e incentivar comportamentos que garantam a correta entrega, sendo as lojas um canal que assegura simplicidade e eficiência no processo de recolha e encaminhamento destes resíduos.
Tem o propósito de criar uma mensagem de sensibilização e de informação próxima do consumidor e com forte impacto e capacidade mobilização.
Que desafios operacionais enfrentam os retalhistas na gestão destes fluxos de resíduos dentro das lojas, nomeadamente em termos de espaço, triagem e encaminhamento?
Os retalhistas enfrentam desafios operacionais que exigem uma gestão rigorosa nos seus espaços e processos logísticos. A limitação de espaço para o armazenamento seguro de resíduos, muitas vezes volumosos, a alocação de recursos e a coordenação logística para o encaminhamento rápido são barreiras diárias que o setor tem superado com investimento contínuo em processos e formação de equipas.
Considerando o peso da distribuição na economia nacional, como pode o setor liderar a transição para modelos mais circulares e qual o papel das parcerias institucionais nesse processo?
Considerando o papel estruturante da distribuição na economia nacional, o setor reúne condições únicas para impulsionar a transição para modelos mais circulares, em virtude da sua capilaridade, proximidade ao consumidor e influência na promoção de boas práticas ao longo cadeia de valor.
Neste contexto, as parcerias assumem uma relevância importante, ao promoverem a colaboração e sinergias entre produtores, retalhistas e o Estado, contribuindo para a consolidação de um ecossistema mais sustentável e operacionalmente integrado.
 É certo que todos reconhecem que a reciclagem é essencial para preservar o ambiente, mas pouco estão conscientes do verdadeiro impacto da falta dela – principalmente neste tipo de equipamentos, que ainda causam muitas dúvidas.
Que evolução antecipam para este modelo nos próximos anos, nomeadamente ao nível da integração com estratégias de economia circular e responsabilidade alargada do produtor?
Para os próximos anos, antecipamos que este modelo evolua para uma integração cada vez mais estrutural entre logística inversa, economia circular e responsabilidade alargada do produtor (RAP), que evolua para uma colaboração mais estreita entre os diferentes elos da cadeia, onde o ecodesign e a reparação assumem um papel mais preponderante.
Acreditamos que o sucesso deste modelo dependerá da capacidade de criar soluções simples, convenientes e economicamente viáveis para o consumidor final. O retalho, pela sua proximidade e capilaridade, terá um papel decisivo na massificação de comportamentos circulares e na transição para modelos de consumo mais sustentáveis.

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