A situação sem precedentes vivida ontem em Portugal, e que afetou o sistema de pagamentos, gerou uma reflexão urgente sobre a dependência excessiva de meios eletrónicos. Em declarações à DISTRIBUIÇÃO HOJE, Vinay Pranjivan, economista sénior da DECO, reforça a necessidade de garantir a aceitação e disponibilidade do numerário, como uma salvaguarda essencial para os consumidores.
A falha de energia, que deixou milhares de consumidores impossibilitados de realizar transações eletrónicas durante várias horas, expôs a fragilidade da atual infraestrutura digital e a dependência crescente da sociedade em soluções exclusivamente eletrónicas.
Sobre o incidente recente, Vinay Pranjivan, economista sénior da DECO, sublinha que ainda não é possível ter uma perceção completa do impacto da interrupção, mas destaca que “houve várias camadas de disfunção que se sobrepuseram, sendo a recusa do pagamento em numerário uma das mais preocupantes”.
“O que aconteceu ontem foi um exemplo marcante: bastaram 12 horas para evidenciar que a aceitação e a posse de numerário continuam a ser essenciais”

Vinay Pranjivan | Direitos reservados
O profissional lembra que, legalmente, os comerciantes são obrigados a aceitar dinheiro físico, salvo raras exceções, mas a inexistência de um quadro sancionatório eficaz faz com que a lei seja, muitas vezes, ignorada.
“Não é aceitável que um consumidor vá comprar pão e não possa pagar em numerário. Se ontem todos os comerciantes estivessem legalmente obrigados e operacionalmente preparados para aceitar dinheiro físico, quem o tivesse consigo teria conseguido efetuar compras essenciais. O que aconteceu ontem foi um exemplo marcante: bastaram 12 horas para evidenciar que a aceitação e a posse de numerário continuam a ser essenciais”, alerta.
O economista denuncia ainda práticas já observadas em Portugal, como padarias e hospitais que não aceitam dinheiro vivo, e recorda que, em países como a Suécia, já se começou a incluir quantidades razoáveis de numerário em kits de sobrevivência para eventuais ciberataques ou falhas sistémicas.
Além disso, Vinay Pranjivan aponta para outra fragilidade do sistema financeiro: o encerramento de agências bancárias e a crescente digitalização dos serviços financeiros, que dificultam o acesso de muitos cidadãos ao seu próprio dinheiro. “É preciso pensar numa solução, em conjunto com o setor bancário e de pagamentos, que permita aos consumidores aceder a uma quantia razoável de dinheiro em situações de blackout.”
 Por fim, o responsável critica a crescente alienação dos consumidores face ao dinheiro físico, incentivada pela proliferação de carteiras digitais e soluções como o MB Way. “Há um afastamento perigoso do dinheiro físico. As pessoas sentem agora, na pele, a importância de manter o numerário vivo no sistema.”
A DECO sublinha que continuará a defender, tanto a nível nacional como europeu, o direito inalienável dos consumidores a pagarem em numerário, mesmo num contexto de transformação digital.