O nome advém da região de Mértola, onde já em 1873 se referia existir uma raça de bovino diferente das demais. Caracteriza-se por ser de tamanho mediano, esqueleto fino, bem adaptável a terrenos severos e ao sistema de produção extensivo, de temperamento nervoso e com forte instinto maternal. Apresenta três fenótipos distintos: rosilho (47%), unicolor (vermelho) (36%) e malhado vermelho (17%).
O encontro onde a DISTRIBUIÇÃO HOJE esteve presente foi organizado pela Associação de Criadores de Bovinos Mertolengos (ACBM) e Promert – Agrupamento de Produtores de Bovinos Mertolengos, entidades que partilham a mesma direção, com o objetivo de defender a uma só voz os interesses dos produtores. E também, para assim ser mais fácil a tomada de decisões de comercialização e promoção da raça Mertolenga, algo que, afirmam os responsáveis, não estava a ser feito da melhor forma até há pouco tempo.
Tanto que esta nova equipa, que se mantém desde julho de 2010, avança com uma nova visão de comercialização da carne, que pretendem que seja inserida num segmento de topo. Segundo os responsáveis, afirmando com o orgulho de quem cria, esta é uma carne onde não existem partes de terceira qualidade, primando todas as peças por uma elevada qualidade e sabor diferenciado.
Atualmente, a ACBM representa 242 criadores, que além da óbvia localização alentejana, se espalham também por Beira Interior, Ribatejo e arquipélago dos Açores (neste caso com apenas um produtor). Existem cerca de 20 mil fémeas adultas, nem todas utilizadas para a produção de raça pura. Isto porque, segundo Eduardo Mira Cruz, presidente do conselho de administração da Promert e da ACBM, são também realizados cruzamentos: “a maioria dos touros utilizados em cruzamento é das raças Limousine e Charolesa. No entanto, também existem com outras raças, como por exemplo o Angus e o Blonde d´Aquitaine”. Ainda assim, existem aproximadamente nove mil fémeas em linha pura: “o número total de fémeas é bastante importante, porque significa que a curto prazo temos a capacidade de aumentar a nossa produção de linha pura das atuais nove mil para as vinte mil, e assim colocar mais Carne Mertolenga DOP junto do consumidor”.
O que poderia então levar um produtor a optar por linhagem pura, quando esta é de crescimento mais lento? “Só conseguiremos convencer os produtores a juntarem-se a nós se as condições financeiras forem favoráveis. Sim, falamos de uma raça de crescimento mais lento mas que, por isso mesmo, e entre outras coisas, nos proporciona uma carne de altíssima qualidade e como tal a sua produção tem mais custos do que a de um animal cruzado. Produzimos um produto diferenciado e certificado e os nossos produtores têm que ser compensados por isso”, afirma Eduardo Mira Cruz.
Montado alentejano é casa
Os animais são criados em sistema extensivo, no montado alentejano. Eduardo Mira Cruz resume todo o processo: “os vitelos nascem no campo, entre os montados de Azinho e Sobro, nalgum recanto mais escondido da herdade, entre umas estevas e uns matos onde a vaca se afasta da manada e se sente mais protegida para dar à luz. Os animais vivem junto da mãe, onde se alimentam do leite materno e da pastagem, até ao desmame, que normalmente ocorre aos seis meses. Daí em diante passam por um processo de recria e acabamento até ao abate. Nesta fase final os animais consomem alimento concentrado à base de cereais e forragens. Esta fase, em grande parte dos animais, ocorre no nosso Centro de Recria e Acabamento, em Évora, na Herdade dos Currais. Aqui todo este processo é acompanhado pelos técnicos da ACBM, que efetuam controlo sanitário, pesagens regulares e escolhem os lotes para abate”.
Sendo possível abater os animais, obviamente, em diferentes escalões etários e de peso, a grande aposta agora é no vitelão, animais até 15 meses e com um peso entre 150 e 200 kg. Esse abate é normalmente “realizado no Matadouro de Santarém e no Matadouro da Raporal no Montijo”.
Aposta no hambúrguer gourmet
Atualmente, têm colocado produtos em oito superfícies Pingo Doce (antigos Feira Nova). Aquando da nossa visita à Herdade da Apariça era-nos também revelado que seriam enviadas carcaças para a Sonae, de forma a serem realizados testes para comercialização nas superfícies. E isto parece ser apenas o início, uma vez que: “apesar de termos um produto gourmet de elevada qualidade, e como tal impossível de ser um produto de massas, queremos colocar a Carne Mertolenga DOP noutras marcas da grande distribuição, mas sempre como um produto diferenciado”.
Se presentemente comercializam “carcaças, meias carcaças, peças em vácuo e em cuvetes”, no curto prazo irão apostar “noutros produtos transformados ou seja os prontos a cozinhar, nomeadamente, o hambúrguer gourmet relativamente ao qual temos as melhores expectativas, pois ele é incomparável face aos outros produtos congéneres existentes no mercado”.
No que diz respeito à divulgação da marca, estão previstas várias atividades, como ações de degustação dentro das grandes superfícies, bem como a presença em feiras do setor alimentar e agrícola. Para além disso “iremos ainda agendar um conjunto de reuniões com algumas das empresas que interessam para a comercialização da nossa carne, e projetar a sua qualidade junto de um espectro mais alargado de apreciadores de carne”.
Alinhado está também o lançamento de um livro de receitas com carne mertolenga, mas que ainda não se consegue adiantar datas. O que ressalva, no entanto, é que tal livro terá, possivelmente, a orientação do chefe Vítor Claro, o mesmo que produziu o almoço com que fomos brindados na Herdade da Apariça.

