Em Portugal, as famílias canalizam entre 60% e 80% da despesa para bens e serviços essenciais, num contexto em que o rendimento disponível após esses encargos é entre 12 e 17 vezes superior nas famílias de rendimentos mais elevados face às de rendimentos mais baixos.
Os dados constam do mais recente relatório Portugal, Balanço Social: Perspetivas — “Quanto sobra ao final do mês? Despesas essenciais, inesperadas e poupança” —, elaborado por investigadores da Nova SBE no âmbito da Iniciativa para a Equidade Social.
Segundo a análise, apesar do aumento do rendimento discricionário nos últimos anos, em 2022 cerca de 26% dos agregados familiares gastavam mais do que recebiam. Entre as famílias com menores rendimentos, essa percentagem subia para 60%, enquanto nas mais ricas se fixava nos 8%.
Os resultados indicaram que, entre 2015 e 2022, o rendimento discricionário médio em Portugal aumentou, refletindo um crescimento do rendimento acima do custo das despesas essenciais. Ainda assim, embora mais de 80% das famílias apresentassem rendimento discricionário positivo, entre as de menores rendimentos essa proporção situava-se entre 49% e 66%. Entre estas, cerca de 60% registavam poupança negativa, o que mostra que a melhoria dos indicadores médios não afastou as situações de maior vulnerabilidade económica.
Em 2022, o rendimento discricionário médio em Portugal situava-se entre 10.402 e 13.379 euros por ano, mas a sua distribuição continuava marcada por fortes desigualdades. Entre as famílias com menores rendimentos, este valor variava entre 1.485 e 2.393 euros anuais, enquanto nas mais ricas oscilava entre 24.973 e 30.004 euros, o que significa que os agregados com rendimentos mais elevados dispunham, em média, de um rendimento discricionário 12 a 17 vezes superior ao dos mais pobres.
No mesmo ano, o custo das despesas essenciais situava-se entre 9.381 e 12.795 euros. Embora os agregados com maiores rendimentos gastassem mais em termos absolutos, estas despesas pesavam mais no orçamento das famílias mais pobres, representando 65% da despesa total, face a 53% nas mais ricas. Segundo os investigadores, este peso reduz a margem para responder a gastos imprevistos ou para poupar.
Segundo o estudo, a ligação entre rendimento e fragilidade financeira torna-se mais clara quando se observa a poupança monetária por escalões de rendimento. A percentagem de agregados com poupança negativa diminui à medida que o rendimento aumenta: entre os agregados com menores rendimentos, quase 60% registavam poupança negativa, enquanto entre os de rendimentos mais elevados essa proporção era de apenas 8%. Os dados mostram que as famílias mais pobres dispõem de uma margem orçamental muito mais curta, o que reduz significativamente a capacidade para absorver despesas inesperadas.
A vulnerabilidade financeira torna-se ainda mais evidente perante despesas imprevistas. Apenas 64,3% dos inquiridos dizem conseguir suportar um encargo inesperado de 632 euros sem recorrer a empréstimos. Entre os agregados com rendimentos mais elevados, essa percentagem sobe para 90%, mas desce para 23,6% nas famílias com menores rendimentos.
 Perante uma despesa inesperada de 1.000 euros, quase metade admite recorrer a poupanças, 14% a crédito e 11% a ajuda de familiares ou amigos. Entre os agregados de menores rendimentos, 34,2% dizem não saber como reagiriam a um encargo deste valor.
A análise regional revelou diferenças significativas no rendimento discricionário e na capacidade de poupança das famílias. Lisboa apresenta os valores mais elevados de rendimento discricionário, enquanto os Açores e a Madeira registam os mais baixos. Ainda assim, apesar de concentrar os custos mais elevados com despesas essenciais, a região de Lisboa mantém uma maior margem financeira, devido aos níveis de rendimento mais altos.
Em paralelo, a percentagem de agregados com poupança negativa é mais elevada no Algarve, com 29,1%, seguido do Norte, com 28,9%, e da Madeira, com 26,1%. Já os Açores surgem como a região com menor incidência, com 18,8%. Os dados apontam para diferenças territoriais relevantes na solidez financeira das famílias e reforçam a necessidade de uma leitura regional das dinâmicas de rendimento e poupança em Portugal.

iStock
