Moderada pela editora chefe do Wall Street Journal Europe, Tracy Corrigan, o primeiro painel plenário do primeiro dia do World Retail Congress centrou-se na crise e na recessão mundial que os países desenvolvidos estão a enfrentar e de que forma poderão os retalhistas fazer face ante esta perspetiva de não crescimento e de falta de consumo.
A sessão começou com a intervenção do secretário de Estado Alemão para a Economia e Assuntos Tecnológicos, Ernst Burgbacher, que centrou o seu discurso na necessidade da Europa se manter unida para prosseguir com o projeto da moeda única. O governante alemão alertou para o fato de todos os estados terem de ser “corresponsabilizados por arrumar melhor ou pior as suas casas”. Mostrou uma grande preocupação com o possível default da Grécia e o impacto que a saída deste Estado-membro teria na zona euro, e não deixou de tecer elogios aos esforços de Portugal e da Irlanda para estabilizar a situação económica interna.
Seguiu-se a intervenção de Ira Kalish, diretor de Global Research da Deloitte, um dos patrocinadores do congresso, que traçou um panorama geral da situação do retalho nos Estados Unidos da América (EUA), na Europa, na China e na Índia.
Em sua opinião, a situação dos EUA e da Europa é em tudo muito semelhante e considera que a dúvida não reside no facto de se saber se há ou não recessão, mas em saber qual é “a profundidade da recessão” que se enfrenta.
Kalish mencionou ainda a falta de dinheiro disponível para o consumo e forneceu alguns dados relativos à quantidade de dinheiro disponível e o consumo desde 1973 até ao momento, tendo-se verificado uma clara tendência nos últimos anos, para um nível de consumo muito acima da disponibilidade financeira dos consumidores, que, face aos atuais constrangimentos da banca não voltará a acontecer.
Em sua opinião o crescimento na China é “pouco estruturado e muito baseado no investimento público e que não tem condições para ser sustentável no tempo”, refutando, contudo, que essa possibilidade possa acontecer caso o governo chinês crie condições para o mercado funcionar “livremente”.
Para além disso, alertou para o facto de um dos fatores que tem motivado o atual crescimento da China se ter baseado na existência de uma força de trabalho superior à população existente e que apresenta atualmente uma tendência decrescente, semelhante à dos países desenvolvidos, com uma grande pressão populacional e um claro aumento do número de reformados. Já a Índia, para Ira Kalish, é um mercado com um “crescimento invejável”, onde o retalho se tem modernizado muito rapidamente e com condições excelentes para se desenvolver, apesar das restrições ao investimento estrangeiro impostas pelo governo.
Grandes projetos surgem em momentos difíceis
A esta intervenção contextual seguiu-se a intervenção do antigo responsável pelo marketing da Office Max nos EUA, Bob Thacker e que envolveu toda a assistência numa onda de otimismo.
Começou por dizer que a história nos mostra que é em momentos difíceis que surgem grandes projetos e grandes ideias: na idade média em plena peste negra, onde as pessoas morriam aos milhares por toda a Europa, surgiu o Miguel Ângelo em todo o seu esplendor; em Inglaterra enquanto cristãos e protestantes se matavam uns aos outros, apareceu Shakespeer com toda a sua grandiosidade; durante a grande depressão americana em que as pessoas não tinham o que comer, criaram-se marcas fortíssimas como a Revelon, a WaltDisney, a HP ou a American Airlines. São estes exemplos que nos devem mover e motivar a criar e sair desta crise.
Passou depois para a apresentação de alguns exemplos inspiradores de campanhas de marketing levadas a cabo pela equipa que coordenava na Office Max. Com base na premissa men buy, women shop a Office Max lançou-se no desenvolvimento de campanhas de marketing muito interessantes para humanizar a marca e o ambiente dos escritórios, apelando aos consumidores para o fato de um escritório “não ter necessariamente que ser aborrecido e feio”.
A primeira manhã do World Retail Congress 2011 terminou com a apresentação de Lovro Mandac, Chairman das galerias Kaufhof, um dos department stores mais antigos da Alemanha.
O responsável explicou um pouco da sua estratégia e dos desafios que se colocam às galerias Kaufhof com a entrada de players internacionais no mercado alemão e com o aumento das compras online. Mandac sublinhou que, apesar das estatísticas apontarem para um decréscimo no consumo apenas nos PIG (Portugal, Irlanda e Grécia), não é certo que as estatísticas referentes à economia alemã estejam corretas. “Há um clima de desconfiança generalizado e de medo permanente relativamente à incerteza das pessoas em manterem o seu posto de trabalho e isso leva a uma estagnação do consumo”.
Terminou a sua palestra com mais um alerta às autoridades alemãs e europeias em geral para a necessidade de darem ao retalho instrumentos para poderem operar e crescer, visto serem um dos principais empregadores e geradores de riqueza na sociedade. Referiu várias vezes que o apoio à produção é essencial, mas que os governantes não se podem esquecer que “sem retalhistas não há vendas”.

