Produção

Pedro Pimentel, diretor-geral da Centromarca

Centromarca diz que “estão a ser dados passos seguros na direção de uma melhor regulação da cadeia de abastecimento”

Quais foram os maiores desafios que o setor em que exerce atividade enfrentou no ano 2019?
2019 revelou-se, como se previa, um ano desafiante, com alguns dossiers a chegarem ao seu epílogo e com outros a entrarem – em força – na agenda.

Como aspetos mais marcantes, salientaria:

A nível de Mercado

  • A aterragem da Mercadona no mercado português, colocando maior pressão sobre os restantes operadores e motivando algum frenesim a nível da política de aberturas e renovações de espaços comerciais e de antecipação estratégica a nível de modelos de negócio;
  • As dificuldades atravessadas pelo grupo DIA, com momentos complexos no processo de reorganização acionista que criaram incerteza no mercado;
  • A atenção dada pela generalidade das insígnias a operar no mercado nacional relativamente ao portfolio, posicionamento e comunicação das suas marcas próprias.

A nível do Consumidor

  • A crescente preocupação com a saúde e bem-estar, a alimentação e estilos-de-vida mais saudáveis;
  • A emergência dos temas da sustentabilidade, das alterações climáticas e do ambiente, com impacto direto – por exemplo, ao nível da embalagem – no sector FMCG

A nível da Regulação (e Autorregulação)

  • A aquisição de tração relativamente ao Código de Boas Práticas Comerciais, com a formalização da adesão de um conjunto numeroso e relevante de operadores da produção, transformação e distribuição
  • A aprovação da Diretiva europeia em matéria de Unfair Trading Practices (UTP), criando um patamar comum a nível europeu no combate a práticas comerciais abusivas na cadeia agroalimentar
  • A publicação da atualização do Regime das Práticas Individuais Restritivas do Comércio (PIRC) com claro destaque para o tratamento jurídico dado aos nefastos Débitos Unilaterais.
  • Acresce ainda a publicação do novo diploma sobre Saldos e Promoções que está, atualmente, a causar fortes dores-de-cabeça no sector do grande consumo.

E que soluções foram encontradas para resolver esses mesmos desafios?
A Centromarca e as empresas nossas associadas acompanharam de muito perto, como seria de esperar, todos estes dossiers. Ainda assim algumas notas:

  • A nível de Mercado, seguiram com atenção as movimentações dos vários operadores do mercado, com a preocupação de minimizar os impactos e os riscos que a acrescida pressão resultante quer da entrada de novos operadores, quer das dificuldades sentidas por outros; para além disso, viram no risco de aumento do espaço e preponderância dos produtos MdD nos lineares, um desafio para aumentarem os níveis de inovação, de comunicação e, quando necessário, de ação promocional.
  • A nível do Consumidor, procuraram dar resposta aos anseios do shopper e da opinião pública, com muitas reformulações de produtos e novos produtos direcionados para as crescentes franjas de consumidores, preocupadas com os temas da naturalidade, saúde e bem-estar. A nível de embalagem a pressão esteve em níveis altíssimos, o que motivou uma resposta na medida das possibilidades, pois, como é sabido, a transição para novos materiais é muito complexa, principalmente nos produtos mais massificados.
  • A nível da Regulação e Autorregulação, o trabalho da Centromarca desmultiplicou-se quer no apoio aos seus associados, em termos de informação e formação, mas também de veículo para a redinamização do Código de Boas Práticas Comerciais ou de fonte principal de comunicação ao mercado sobre o impacto dos novos diplomas (nacionais e europeus) no dia-a-dia dos operadores económicos.

Como antecipa o ano de 2020 para as marcas e que novos desafios poderão ser lançados?
Julgo que em 2020 sentir-se-á, antes de mais, um aprofundamento e em casos como os das alterações climáticas ou do ambiente quase que uma sublimação dos dossiers mais importantes do ano que agora termina.

As empresas transformadoras e os retalhistas irão sofrer uma pressão mediática crescente para a mudança de alguns aspetos críticos da sua atividade, embora o mercado não esteja – em minha opinião – preparado para lhe dar uma resposta totalmente positiva, seja a nível, por exemplo, da transição de materiais de embalagem, seja a nível da capacidade do mercado remunerar os investimentos e acréscimos de custos necessários a essa mesma transição.

Falar-se-á, por certo, muito em digitalização, muito embora mais numa ótica comercial do que operacional, onde, como quem conhece o sector percebe, essa digitalização está fortemente presente.

Finalmente, 2020 poderá marcar algumas mudanças na paisagem do retalho alimentar em Portugal, com a entrada e consolidação de novas insígnias e conceitos e com o ganhar de espaço de um retalho mais especializado e direcionado para nichos concretos de consumidores.