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Euro digital: Competição ou cooperação?

Euro digital: Competição ou cooperação?

Numa altura em que o Banco Central Europeu avança com o euro digital, o setor financeiro debate-se com questões cruciais: estamos perante uma revolução colaborativa ou uma concorrência disfarçada? Luís Teodoro, administrador da Softfinança – empresa com mais de 30 anos de experiência na transformação digital do setor financeiro –, partilha a sua visão sobre os desafios, riscos e oportunidades deste novo paradigma.

 

O euro digital promete transformar a forma como interagimos com o dinheiro. Estamos perante uma ameaça para os bancos ou uma nova oportunidade de cooperação?
É um pouco dos dois. O euro digital tem o potencial de reforçar o papel do Banco Central como garante de confiança e estabilidade, mas isso não significa excluir os bancos comerciais. Pelo contrário: a proposta atual assenta numa estrutura intermediada, onde os bancos institucionais continuam a ter um papel central na distribuição e gestão da moeda digital. A questão é: estão preparados para isso?

A estrutura ainda não é totalmente clara. Por exemplo, quantas contas de euro digital um cidadão poderá ter? E quem suportará esses custos?
Neste momento, existem mais perguntas do que respostas. Sabemos que o Banco Central Europeu não quer operar diretamente com os cidadãos. Logo, a infraestrutura e o interface com o utilizador ficarão a cargo de intermediários – sejam bancos ou novos players. Mas quem paga o custo da infraestrutura, da integração e da gestão de risco? É um debate urgente. E é por isso que as empresas tecnológicas com experiência neste setor, como a Softfinança, têm um papel fundamental: podemos antecipar cenários e desenhar soluções viáveis.

E por que razão este esforço financeiro não é canalizado para modernizar o sistema atual?
É uma das críticas mais legítimas. O setor bancário já investiu milhões na digitalização dos seus serviços, mas o euro digital não é apenas sobre conveniência: é uma questão de soberania, inclusão e resiliência. O Banco Central Europeu quer garantir que a moeda europeia continua relevante num futuro onde stablecoins, moedas digitais estatais e carteiras Big Tech podem dominar o mercado. Estamos a preparar o “plano B” para não ficarmos reféns de infraestruturas externas.

A segurança digital será um dos maiores desafios. Quem assegura a proteção dos dados e das transações?
A segurança não será responsabilidade de uma única entidade. Estamos a falar de uma arquitetura partilhada, onde o Banco Central Europeu define princípios e os intermediários – como os bancos e fintechs – garantem a execução. É por isso que o modelo de negócio ainda não está claro: garantir cibersegurança neste nível exige investimentos massivos, como os que a Visa e a Mastercard fazem há décadas. E se o cidadão não paga pelo serviço, quem financia essa proteção?

Como se planeia assegurar a aceitação generalizada do euro digital por parte da população e do comércio?
Sem adesão, não há transformação. A aceitação depende de dois fatores: confiança e usabilidade. As pessoas precisam de sentir que o euro digital é tão seguro e fácil quanto o dinheiro físico – ou mais. Para isso, é preciso um esforço conjunto: bancos, reguladores, comerciantes e empresas tecnológicas devem trabalhar em conjunto para criar experiências simples e sem fricção. A Softfinança tem contribuído exatamente nesse campo: desenvolver interfaces que simplificam a complexidade do sistema financeiro.

“As pessoas precisam de sentir que o euro digital é tão seguro e fácil quanto o dinheiro físico – ou mais. Para isso, é preciso um esforço conjunto: bancos, reguladores, comerciantes e empresas tecnológicas devem trabalhar em conjunto para criar experiências simples e sem fricção”

A gestão de fraude será diferente? Há algo que possamos capitalizar neste novo modelo?
Sim. Com o euro digital, temos a oportunidade de integrar a prevenção de fraude logo à nascença. Os sistemas de Inteligência Artificial, biometria, “tokenização” e rastreamento de transações podem tornar este ecossistema mais seguro do que o atual. Mas atenção: quanto mais inteligente for o sistema, mais sofisticados serão os ataques. Precisamos de estar sempre um passo à frente.

E quanto à privacidade? O cidadão comum vai aceitar um euro digital com registo de todas as suas transações?
A privacidade será o maior fator de sucesso ou fracasso do euro digital. O Banco Central Europeu já afirmou que não pretende rastrear o comportamento individual, e está a estudar formas de garantir anonimato parcial – sobretudo em pequenas transações. Mas é uma linha ténue. Se o sistema for percebido como invasivo, perderá tração. O desafio é equilibrar transparência para prevenir crimes financeiros com privacidade para proteger a liberdade individual.

Por fim: voltamos ao tema das autorizações e autenticações online. Porque estamos a repetir temas que já existem no sistema bancário?
Porque os riscos aumentaram. Um sistema como o euro digital exige camadas adicionais de proteção. Voltar às autorizações reforçadas pode parecer redundante, mas será necessário para criar confiança. No entanto, a experiência do utilizador não pode ser sacrificada. O papel da tecnologia aqui é fazer com que a segurança seja invisível – e isso é algo que a Softfinança tem vindo a explorar em soluções de autenticação invisível e onboarding inteligente.

E fora da Zona Euro? Que impacto poderá ter o euro digital em países que usam o euro informalmente ou em regiões com fortes relações comerciais com a Europa?
Há muitos países – especialmente nos Balcãs, África e mesmo algumas zonas da Ásia – onde o euro já circula de forma informal ou é utilizado como moeda de referência. O euro digital pode tornar-se ainda mais atrativo nesses contextos, mas também mais vulnerável se não houver um enquadramento claro para a sua aceitação fora da Zona Euro. Estamos a falar de jurisdições com regras diferentes de proteção de dados, de combate ao branqueamento de capitais e de infraestruturas técnicas desiguais. Por um lado, há oportunidade de reforçar a presença do euro como moeda global; por outro, o risco de descontrolo ou utilização indevida é real. Vai ser necessária uma abordagem diplomática e tecnológica conjunta, entre o BCE, os reguladores e os parceiros regionais.

Como integrar a iniciativa euroPA neste ecossistema do euro digital? E que outras iniciativas podem ou devem ser articuladas com este projeto?
A iniciativa euroPA é essencial porque representa o esforço europeu para criar uma infraestrutura de pagamentos pan‑europeia, segura, rápida e autónoma face a sistemas globais dominados por operadores não europeus, como a Visa ou a Mastercard. Integrar o euro digital neste contexto é quase uma extensão natural: ambos procuram garantir soberania e interoperabilidade no espaço europeu.
Para funcionar, é preciso garantir conectividade técnica, jurídica e funcional entre as plataformas existentes – sejam elas de pagamentos instantâneos (como o TIPS), carteiras digitais nacionais ou serviços de identidade eletrónica. Também devemos pensar no papel do eIDAS 2.0, da European Digital Identity Wallet e do Regulamento MiCA, que está a definir regras para criptoativos e stablecoins.
Todas estas peças devem encaixar num puzzle maior: um ecossistema digital europeu, centrado no utilizador, resiliente, competitivo e ético. A Softfinança já está a trabalhar com clientes nesse alinhamento estratégico, porque o futuro não será de plataformas isoladas, mas de infraestruturas interoperáveis e colaborativas.

 

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