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Análise: Ainda haverá grossistas dentro de 10 anos?

Análise: Ainda haverá grossistas dentro de 10 anos?

Com os híper e supermercados a praticar preços cada vez mais baixos, ainda haverá grossistas dentro de 10 anos? Esta é uma das questões que inquieta o sector grossista. Será o retalho o caminho?

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As medidas de austeridade fazem-se sentir a todos os níveis e o sector dos Cash & Carry não é exceção. “Fruto da conjuntura económica, o sector dos Cash & Carry está a atravessar um período conturbado. Por um lado, o aumento do IVA para 23 por cento levou ao encerramento de muitas pequenas e médias empresas na área da restauração. Por outro lado, a grande pressão que a Distribuição Moderna tem vindo a colocar ao nível dos preços tem também influenciado negativamente o desempenho do setor grossista em Portugal”, atesta António Barracho, diretor geral do Recheio Cash & Carry.

Carlos Cipriano, da cooperativa Luta – Comércio e Distribuição de Produtos de Consumo, partilha de opinião semelhante. “O setor Cash & Carry em Portugal vive nos dias de hoje período que reflete a não adaptação às exigências do mercado, dirigindo-se a clientes indiferenciados, sem uma segmentação dos seus canais, baseando em muitos casos a sua estratégia comercial em sortido largo e no preço reduzido, tratando-se, de uma utilização de margens unitárias baixas, procurando atingir taxas muito elevadas de rotação dos produtos, como resposta a um abastecimento rápido.”

 

Atenta à tendência de contração, tendo como base uma filosofia comercial e de marketing de desenvolvimento de soluções ideais como resposta às necessidades específicas de cada cliente, a Makro realizou investimentos em novos serviços, novas tecnologias e na introdução de novos modelos operacionais de negócio, avança António Pinheiro, diretor de comunicação e marketing da empresa. “Somos o único operador em Portugal que no mesmo espaço conseguimos responder a praticamente todas as necessidades dos clientes, dos alimentos aos equipamentos necessários à sua transformação ou revenda, dos produtos básicos aos que qualquer operador necessita para gerir o seu negócio (back office)”, afirma o diretor.

Se por um lado a Makro investe no desenvolvimento de soluções à medida dos seus clientes, o Recheio Cash & Carry, líder na distribuição grossista em Portugal, com uma quota de mercado estimada em cerca de 39 por cento no subsegmento do Cash & Carry, como revela o seu diretor geral, “apostou fortemente na diferenciação ao nível da oferta de produtos frescos, o que permitiu à companhia continuar a crescer.” Uma orientação estratégica que tem exigido um grande esforço financeiro ao nível da remodelação das lojas da companhia que, apesar da crise, “tem crescido, alicerçada na angariação de novos clientes e no crescimento das vendas de perecíveis, bem como das nossas marcas próprias (Masterchef, Gourmês e Amanhecer).”

 

Apesar da conjuntura, sobretudo por via da redução do consumo fora de casa, o Recheio, detentor de uma base de clientes superior a 100 mil, composta essencialmente por restaurantes e retalhistas independentes, viu as suas vendas crescerem 4,9 por cento (valor que corresponde a 756 milhões de euros). Como forma de fortalecer a performance operacional da empresa, bem como aumentar os seus níveis de produtividade para valores standard internacionais, e tendo como objetivo “ser o melhor operador em qualidade, em variedade e diferenciação e em competitividade, para reconquistarmos a liderança no setor em Portugal”, a Makro remodelou recentemente alguns dos seus espaços. Alfragide, Palmela, Matosinhos e Gaia são algumas das lojas com um novo conceito operacional direcionado para a lógica de consumo em detrimento da de categoria de produto que figurou até agora.

O caso da Luta, no entanto, acompanhou de certa forma a retração da economia. “As vendas da Luta, tiveram, principalmente em 2012, um comportamento descendente, não estando esta tendência relacionada com a ‘transição’ de clientes para a Distribuição Moderna”, refere Carlos Cipriano, para quem importa ainda salientar que “a base de clientes de um Cash & Carry é diferente do core dos Hiper’s. Contudo e, apesar desta diferença, é assinalável o número de pessoas coletivas, nomeadamente o Retalho Tradicional Independente (RTI), que realizam algumas compras na Distribuição Moderna (DM), perdendo aí vantagens de preço quando colocam esses mesmos artigos à venda nos seus estabelecimentos, incorrendo diretamente com custos de stock. Verifica-se igualmente que este tipo de comportamento, por parte, quer do RTI, quer do Retalho de Consumo Imediato, origina em alguns casos a não declaração dessas compras. Este facto deriva em grande parte das políticas de preço levadas a cabo pela DM, que como é de conhecimento geral, geram no início da cadeia problemas de sustentabilidade de muitos fornecedores (e.g Ramazzotti), originando desequilíbrios sociais, que deverão ser objeto de combate, mediante um controlo mais apertado às políticas e de preço praticadas e imposições da Distribuição Moderna aos fornecedores.” De referir que em setembro último, a empresa de distribuição e comercialização de produtos alimentares Ramazzotti, com mais de 60 anos de existência, entrou em insolvência e fechou as suas portas. Caso idêntico poderá estar iminente para o grupo GCT, detentor das marcas Elos Cash & Carry, Ponto Fresco e Frescos & Companhia, que, em agosto deste ano e como forma de evitar insolvência, aderiu ao Processo Especial de Revitalização.

 

Perante este cenário, como se afiguram os próximos tempos para os grossistas? Para a Makro, o setor de Cash & Carry é “claramente uma aposta da empresa e do grupo Metro. As necessidades dos clientes profissionais quer em tipo de produtos, quer em modelos de abastecimento do seu negócio, necessitam de operadores focados em soluções B2B, capazes de lhes responder em termos de competitividade, com capacidade de proporcionar a diminuição das suas necessidades de investimento, seja pelo facto de maior adequação das quantidades de compra às reais necessidades de venda e consumo da sua empresa, seja pela maior disponibilidade da oferta permitindo ao cliente comprar o que necessita, quando necessita e ao melhor preço oferecido, diminuindo as suas necessidades de manter stocks de segurança”. “Consideramos que o modelo operacional de um grossista em Cash & Carry moderno, ou seja, com a integração de serviços de ‘delivery’, constitui o formato mais eficiente de servir o mercado B2B, pelo que a nossa visão para o sector de cash &carry é a de que se os operadores souberem entender que já hoje o mercado está diferente, que as necessidades dos clientes profissionais são também diferentes e souberem antecipar as suas reais necessidades oferecendo-lhes soluções específicas para as satisfazer, a sua eficiência continuará a fazer a diferença”, remata António Pinheiro.

Não sendo futurologista, e porque em dez anos muito pode acontecer, Carlos Cipriano considera que “este setor, e alguns operadores em particular, poderão ter uma posição relevante, quer no mercado nacional, quer no mercado externo. Contudo, a existência de fusões e aquisições é um cenário que pode dar um apport a este setor muito significativo inserido numa ótica de criação de valor para os próprios e a jusante da cadeia, tornando-a mais competitiva e ‘aderente’ às exigências dos consumidores, gerando-se ganhos interessantes nesta cadeia. Em dez anos vejo igualmente os Cash & Carry’s como potenciais plataformas para o exterior.” Apesar das dificuldades que ainda se afiguram, “quer pela conjuntura económica que leva à retração do consumo, quer pela crescente concorrência dos super e hipermercados”, António Barracho não desarma: “as dificuldades acrescidas não me retiram, contudo, a grande confiança que deposito na robustez da companhia e na adequação da sua proposta de valor.” Será caso para dizer que o retalho é o caminho ou que os grossistas estão para durar?

 

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