Especial Sustentabilidade

“Se não conseguimos justificar algo cientificamente, reivindicá-lo é um bocadinho ignorante”

“Se não conseguimos justificar algo cientificamente, reivindicá-lo é um bocadinho ignorante”

Leyla Acaroglu é designer, especialista em sustentabilidade e fundadora da UnSchool of Disruptive Design, organização que quer transformar a forma como vivemos com ‘design consciente’. Em 2016, foi considerada ‘Champion of the Earth’ pelo programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) e em entrevista à DISTRIBUIÇÃO HOJE explica porque temos de deixar de normalizar a descartabilidade.

É australiana, mas foi em Portugal que decidiu criar um ‘Brain Spa’ para otimistas criativos e change-makers, um projeto que pretende mostrar que é possível vivermos sem gerar desperdício. À DISTRIBUIÇÃO HOJE fala de medo e da importância de estarmos abertos à mudança.

Tem ‘corrido’ o mundo a falar da importância de olharmos não para os materiais que usamos, mas para a utilização que fazemos deles. Nos últimos anos abrimos uma guerra ao plástico, mas o problema não é exatamente o plástico, ou é?
O plástico é um produto interessante. É um produto incrivelmente durável e leve, e todas as propriedades que fazem dele um produto incrível são também aquelas que fazem dele um produto perigoso para o ambiente, porque pode saltar de caixotes do lixo, pode flutuar nos oceanos e não sabemos exatamente quanto tempo é que pode permanecer no ambiente. Fazemos muitas assunções, mas a realidade é que qualquer material que usemos, seja alumínio ou plástico, tem custos associados e um impacto no seu fim de vida. O papel é particularmente impactante na sua produção, mas o problema é que temos a ideia errada sobre qual é o problema.

O problema não está na forma como reciclamos ou se os produtos acabam no meio ambiente. Estes são certamente problemas – e o plástico nos oceanos é uma realidade muito problemática com a qual temos de lidar-, mas o grande problema é a descartabilidade e o facto de a termos ‘normalizado’. Como sociedade, é extremamente fácil ir ao supermercado e comprar algo numa embalagem completamente descartável. Um dos maiores problemas da indústria de embalagens prende-se com a forma como criamos embalagens duráveis, seguras e que possam ‘caber’ nesta Economia Circular. E isso não exige apenas mudar de materiais, mas também mudar a forma como este fluem na economia e o negócio de tudo isto.

Eu acho que uma das coisas mais entusiasmantes em relação à indústria de embalagens é a forma como a indústria pode começar a vender o serviço de transformar este sistema. É um desafio de design muito interessante: esta ideia de que ‘Eu apenas faço embalagens e esse é o fim da minha responsabilidade’ é quase como um pai que assim que o filho faz 18 anos assume que a sua responsabilidade para com ele acaba. Quando olhamos para todo o ciclo de vida, mudamos a nossa perceção acerca do que algo pode fazer.

Eu acho que a coisa mais entusiasmante é que temos muitos desafios de design para ultrapassar e as organizações que têm medo da mudança serão aquelas que ficarão para trás, porque isto está a acontecer, quer gostem ou não.

O que é que está a impulsionar esta mudança?
Estamos no meio de uma grande mudança neste momento e as mudanças são muito difíceis de percecionar quando estamos no meio delas. É quando estamos do lado que fora, ou no início do fim, que começamos a ver essas mudanças. E o que é mais fascinante neste momento é que esta mudança está a vir de múltiplas frentes. As pessoas estão frustradas porque estão sobrecarregadas por desperdício. Quando levamos um produto para casa, ficamos sempre com uma parte utilizável, mas também com uma parte que é desperdício, seja embalagens ou comida que está estragada. Depois temos a responsabilidade de o reciclar ou deitar fora e ainda pagamos por esse serviço. Nós pagamos pela má decisão de design de alguém, certo?

Os consumidores começam agora a perceber isso e esta é uma questão omnipresente em diferentes tipos de embalagem. A decisão da China de não salvar produtos recicláveis tem a ver, em parte, com o facto de os países Ocidentais se terem tornado muito preguiçosos em relação a estas questões. Do ponto de vista do design, começámos a produzir embalagens tão complexas do ponto de vista da engenharia e que, de facto, são fantásticas na preservação dos alimentos – o que é importante porque o desperdício alimentar é um problema grave -, mas que criaram esta charada. A embalagem protege os produtos, mas se for desenhada com esta visão linear cria este problema enorme.

O que está a dizer é que o design pode resolver esta charada?
Usámos o design para criar este problema, por isso, temos que usar o design para sair dele. O maior problema é a descartabilidade, ou a hiperdescartabilidade, e esta falta de circularidade na forma de pensar de quem produz. Os consumidores, em última análise, irão exigir mudanças, mas só o vão fazer quando as coisas se tornarem extremas. E é isso que estamos a ver neste momento: reações extremas. Acho muito irresponsável e preguiçoso que uma empresa tenha de esperar por uma reação negativa dos consumidores, e isso mostra falta de visão estratégica.

O mais entusiasmante, para mim, são aquelas empresas que olham para este problema e pensam: ‘Como é produzimos/oferecemos bons serviços que não destruam o planeta?’. E usam isso como uma espécie de base para o seu negócio. Essas são as empresas que vão sobreviver a longo prazo.

Mas existe, ainda, o receio de perda de lucratividade…
Ninguém vence no mundo através do medo! A mudança não acontece pelo medo. Na verdade, o medo é incapacitante e o otimismo é um estimulador. O problema é a oportunidade. Qualquer indivíduo que é paralisado pelo medo, não irá progredir na vida. É por isso que sempre que alguém se sente assoberbado pelo medo deve ir a um terapeuta ou beber whisky [risos]. É preciso ultrapassar o medo para agir! Para mim, e eu falo muito nas empresas sobre o medo, a interpretação cognitiva do medo está frequentemente relacionada com experiências passadas.

Há muitas empresas que falham acidentalmente, por exemplo, ao fazer ‘green washing’ – quando gastam mais dinheiro em marketing, para promover práticas supostamente ‘ecológicas’, do que gastam em Investigação e Desenvolvimento -, e depois ficam com medo. Se não conseguimos justificar algo cientificamente, reivindicá-lo é um bocadinho ignorante. É como um trabalho académico sem referências. Não é válido.

Por isso, se vamos colocar um produto no mercado e dizer que é feito com plástico biodegradável e nem sequer olhamos para o ciclo de vida completo do material, mesmo existindo a possibilidade de o fazer, é um bocadinho constrangedor. Para mim, a psicologia da mudança organizacional é muito interessante, porque o medo faz com que não vamos a lado nenhum. É muito fácil para as empresas dizerem que ‘Tentámos isto uma vez e não resultou’. Se uma criança que está a tentar andar, parar logo na primeira vez que dá uma queda porque a gravidade é muito intensa então nunca vai aprender a andar. O medo é uma moeda muito barata e que não pode durar muito tempo. Para mim, ultrapassar os enviesamentos cognitivos que limitam a mudança começa por reconhecer o facto de todos os problemas têm uma oportunidade e podemos escolher ignorá-la ou estar no primeiro plano e tomar as rédeas da mudança.

Eu trabalho com organizações que estão dispostas a ser pioneiras na mudança e dispostas a ver que às vezes temos de passar por alguns falhanços para mudar, porque, na verdade, nós não temos as respostas para muitos destes problemas.

Esta é a parte verdadeiramente entusiasmante em relação à sustentabilidade: neste momento, 7,6 mil milhões de pessoas já vivem de forma equitativa, colaborativa e contribuem para um futuro positivo. Porque a maioria das pessoas do planeta quer que o futuro seja melhor do que é hoje e o que estamos a fazer neste momento é a ‘alimentarmo-nos’ da ideia de que o futuro pode ser melhor e a ignorar os nossos erros.

Temos de mudar o mindset sobre o que o problema é. E o problema não é o plástico, mas sim a forma como criamos a nossa resposta para as necessidades humanas…O mais entusiasmante em relação à Economia Circular como conceito é que chegamos a uma loja, compramos um produto, usamo-lo e depois deitamos fora…

No fundo, o que está a dizer é que temos de mudar os nossos estilos de vida?
Claro! As pessoas estão em constante fluxo e constantemente a mudar. O problema é esta sociedade de ritmo hiperacelerado e esta cultura de descartabilidade e de conveniência, que está também a criar problemas de saúde mental, obesidade, etc. Não é apenas o planeta. O que está em causa é a humanidade e a forma como vamos chegar ao futuro.

Sim, mas quando se fala de sustentabilidade tendemos a olhar apenas para o ambiente e para a parte económica e a deixar de lado a parte social…
É verdade. A definição técnica de sustentabilidade vem de desenvolvimento sustentável, o que significa responder às necessidades das gerações atuais sem afetar, negativamente, a capacidade das futuras gerações de conseguirem garantir as suas próprias necessidades. Essencialmente, quer dizer: “Vamos viver todos de forma feliz e de forma saudável agora e no futuro sem usar os recursos de forma egoísta e sem pensar nas gerações futuras”.

Atualmente, toda a investigação científica mostra que esgotamos todos os recursos disponíveis no planeta quando chegamos a agosto e depois ainda temos setembro, outubro, novembro e dezembro…Para mim, não é assim tão simples como dizer que a mudança vai acontecer porque os consumidores o irão exigir. A mudança é constante, é emergente, e a diferença está em quem ganha nesta situação.

E aquilo que eu vejo é que as pessoas que são mais flexíveis em relação a viver uma vida mais saudável e feliz, e em relação a como ser um bom cidadão, ou um bom pai, ou uma boa pessoa, tiveram de fazer alguma mudança. Percebemos que alguma das nossas decisões não foi brilhante a adaptamo-nos e tomamos novas decisões. E a sustentabilidade tem muito a ver com isso. Se estamos sempre a beber água engarrafada e percebemos que isso pode ser um problema, se calhar fazemos uma escolha diferente. Arranjamos um filtro para a torneira, passamos a andar sempre com uma garrafa…

Exige apenas um segundo extra na nossa rotina diária e tem um resultado muito positivo. Este é o tipo de coisa que as pessoas não se apercebem: agir como agente de mudança, seja como organização ou como ser humano, significa estar também estar na liderança da nossa própria mudança. Deixamos de ser vítimas do sistema. Também há empresas que têm medo da regulação…

Uma investigadora portuguesa referiu durante a conferência que, no estudo que fez, muitas empresas portuguesas afirmavam que o que falta para fazerem a transição para uma economia circular é a regulação e os incentivos económicos…
Isso é como ser um adolescente mimado que espera que os seus pais continuem a dar uma mesada depois de começar a trabalhar… Acho que num mercado livre, como o que temos, temos de ser um bocadinho mais responsáveis em relação àquilo que incentivamos ou desincentivamos, não só através de intervenções governamentais, mas também através de microinvestimentos, porque todos os seres humanos são investidores.

Quer gastemos apenas um euro por dia ou 1000 euros, isso tem um impacto na economia. A Economia Circular implica que os indivíduos mudem a forma como investem no futuro, através de micro ações como o consumo, e que os produtores ofereçam opções alternativas ao sistema descartável. E claro, os Governos devem criar a regulação certa e, na minha opinião, a regulação deve promover uma cultura de inovação contínua, porque caso contrário não podem ser sociedades bem-sucedidas.

Obviamente, podíamos falar de diferentes abordagens, mas honestamente, as maiores mudanças que vejo acontecerem têm muito a ver com a forma como valorizamos coisas enquanto sociedade: como valorizamos as pessoas, recursos, tempo… E essa é a mudança mais fascinante. A moeda da mudança não é apenas o dinheiro, são todas as coisas que têm valor para os humanos, e estamos a mudar a nossa perceção, porque esta sociedade de ritmo acelerado está a criar muitas pessoas infelizes e as pessoas infelizes criam culturas infelizes…

O maior desafio para o ser o humano é perceber como desenhamos um futuro que funcione melhor do aquilo que temos hoje.

Foi por isso que criou o ‘Brain Spa’?
Sim, é uma iniciativa que criei aqui em Portugal, em Tomar, porque estava muito interessada em perceber de que forma a Natureza resolve problemas porque é um sistema regenerativo e do qual todos fazemos parte.

Por isso, comprei uma quinta abandonada em Tomar e criei um ‘laboratório de aprendizagem’ para design regenerativo. Temos muitas culturas agrícolas diferentes e estamos a reconstruir todos os edifícios de forma sustentável e regenerativa, incluindo um lagar antigo, que transformámos num spa para o cérebro, onde vamos para regenerar os neurónios.

Muitas das vezes enfrentamos problemas, como a exaustão, que apenas precisam de ferramentas como percebermos que podemos ser agentes das nossas escolhas. É, na verdade, um espaço de aprendizagem sobre como podemos ter um impacto positivo em tudo o que fazemos.