Especial Sustentabilidade

Economia Circular: Não nos podemos “ficar apenas pelas boas intenções”

Circularidade e sustentabilidade são a chave para garantir o futuro das próximas gerações. Os pensadores em matéria de Economia Circular dizem que já não bastam as boas intenções e pedem o compromisso das empresas, dos governos e da sociedade civil.

A Fundação Calouste Gulbenkian foi o palco escolhido pela Sociedade Ponto Verde, em fevereiro deste ano, para pensar um ‘futuro circular’. A conferência ‘Economia Circular – Pensar o Futuro de Forma Circular’ reuniu especialistas, investigadores e pensadores e quis deixar uma mensagem muito clara: está na hora de agir!

António Nogueira Leite, Presidente do Conselho de Administração da Sociedade Ponto Verde, encetou a conversa com um repto: “Queremos uma economia cada vez menos linear e cada vez mais apoiada nos princípios da circularidade e da sustentabilidade”.

A CEO da Sociedade Ponto Verde, Ana Isabel Trigo Morais, reforçou que não nos podemos “ficar apenas pelas boas intenções. O futuro é circular. Por isso, o presente também tem de o ser”.

Rita Lopes, investigadora da Universidade Nova de Lisboa, que tem estudado a matéria, lembrou que “o desperdício é grande e temos de perceber como atacar a questão do lado do consumidor. Tem de se atuar em várias áreas. Por um lado, sensibilizar os consumidores e por outro atuar em termos de regulamentação. Acreditamos que é possível”. Teresa Franqueira, Professora da Universidade da Aveiro e coordenadora da Design Factory daquela universidade, acrescentou que “é no design de produto que estão algumas das chaves da redução da pegada ecológica”.

A DISTRIBUIÇÃO HOJE entrevistou alguns dos especialistas que marcaram presença na iniciativa e no Dia Mundial do Ambiente (5 de junho) conta-lhe como veem esta transição e que passos terão de ser dados pelas organizações, pelos decisores políticos e pelos consumidores.

 “A economia circular é um pano de fundo para mudar a atitude das empresas”

Foi há cerca de um ano que Ana Isabel Trigo Morais deixou a direção-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) para se tornar CEO da Sociedade Ponto Verde. Em entrevista à DISTRIBUIÇÃO HOJE assume que é preciso reforçar a sensibilização da cadeia de abastecimento para a Economia Circular.

Economia Circular: não nos podemos “ficar apenas pelas boas intenções”

Um tema transversal a todos. É assim que Ana Isabel Trigo Morais quer que a Economia Circular seja vista dentro das organizações. Para a CEO da Sociedade Ponto Verde, todos somos agentes de mudança. E está mesmo na hora de agir.

 A economia circular é o tema da ‘moda’. Os portugueses já perceberam o conceito?
Há um propósito importante por parte da Sociedade Ponto Verde que é falar de Economia Circular de uma forma aplicada e que permita que as pessoas, a partir dos conceitos, consigam tirar orientações para as decisões que têm de tomar no seu dia-a-dia e nas empresas. Essencialmente, o que queremos é discutir um tema que, de facto, às vezes parece que não tem uns contornos muito bem definidos, que parece que é uma política, um conceito ou uma mera ideia, mas na verdade é muito mais.

Vemos que a Economia Circular, no fundo, é um pano de fundo para mudar a atitude das empresas e para usarmos os nossos recursos de uma forma que seja mais amiga do ambiente.

A Sociedade Ponto Verde, como entidade responsável pela reciclagem das embalagens em Portugal, entendeu que era a sua missão promover uma discussão prática, com boas práticas adotadas em todos os setores.

 Tocando no ponto mais sensível desta discussão: as empresas vão, ou não, perder lucros se adotarem práticas mais amigas do ambiente?
Eu penso que não. Esse é outro ângulo da discussão: como é que podemos desenhar modelos de negócios sustentáveis aplicando as boas práticas da Economia Circular? Não temos de seguir essa ideia, temos é de ver quais são as ideias, a tecnologia e os modelos que já existem que trazem sustentabilidade também económica. É preciso fazer da Economia Circular um tema transversal dentro das empresas e dentro da cadeia de valor. Todas as pessoas das organizações devem ser expostas aos temas da economia circular, porque são elas os veículos e os agentes para os levar à prática.

 O que é que ainda falta fazer para transitarmos de vez para uma economia circular?
Sabe que eu acredito que não daremos um passo de gigante da Economia Linear para a Economia Circular… Isto far-se-á por aproximação e por evolução, por desenvolvimento de novos modelos, de novas práticas, e com inovação.

Acho que é um território por excelência para a inovação, quer tecnológica, quer de sistemas e de processos. Acho que já estamos no caminho da Economia Circular e nós queremos ser aceleradores porque, na verdade, já há muita circularidade a acontecer.

Aliás, temos uma rede de 43 mil ecopontos no país e temos uma infraestrutura nesta área que já está a promover a Economia Circular. Temos de acelerar o conhecimento dos temas da Economia Circular, não só para o cidadão, mas também para as empresas.

Julgo também que é importantíssimo falarmos de sensibilização para a Economia Circular junto da produção, da indústria e dos retalhistas que, de facto, são quem coloca os produtos à disposição dos consumidores. E aí, sim, temos de passar a desenhar e a conceber embalagens para melhor reciclar. Recentemente, a Sociedade Ponto Verde lançou uma nova plataforma digital, que se chama Ponto Verde Lab, que pretende ser um guia e dar sugestões para que quem tem de escolher as melhores embalagens para colocar os seus produtos no mercado possa medir a reciclabilidade e possa escolher as embalagens de acordo com aquilo que são os princípios da melhor reciclagem.