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Opinião

Menos carbono, mais competitividade na indústria cervejeira

Menos carbono, mais competitividade na indústria cervejeira ©DR

A produção de cerveja tem um consumo significativo de energia, sobretudo sob a forma de calor. De facto, a energia térmica representa dois terços do consumo total energético das operações produtivas na Cervejeira de Vialonga, onde se fabrica a cerveja Sagres. Esta energia é essencial para etapas que envolvem aquecimento, como a transformação da cevada em malte, a fabricação do mosto ou o embalamento em garrafas, latas ou barris.

Historicamente, a energia térmica tem sido gerada a partir de combustíveis fósseis, sobretudo gás natural. A sua substituição por soluções renováveis e eficientes é complexa, exigindo inovação tecnológica e industrial, investimento significativo e uma abordagem colaborativa. O projeto recentemente inaugurado pela Central de Cervejas e Bebidas é um exemplo desta “fórmula” que combina sustentabilidade e competitividade.

Trata-se de um sistema que recupera o calor excedente dos processos de refrigeração e utiliza eletricidade produzida a partir de fontes renováveis para depois distribuir a energia térmica resultante através de um circuito fechado de água quente, substituindo parcialmente o vapor gerado pelas caldeiras a gás natural. Em poucas palavras, podemos designá-lo de Bomba de Calor.

A sua implementação representa um investimento de 33,5 milhões de euros por parte da nossa empresa, cofinanciado em 8,8 milhões pelo Plano de Recuperação e Resiliência. À equação junta-se a Siemens Portugal, parceiro tecnológico que desenvolveu o sistema ao longo de 22 meses, sem nunca parar a operação da Cervejeira de Vialonga. É a combinação destas variáveis – visão e ambição, por um lado; incentivo ao investimento, por outro; conhecimento e inovação, igualmente importantes – que dita um resultado que, ao final do dia, é um passo muito significativo na descarbonização da indústria cervejeira. Graças à nova Bomba de Calor de alta temperatura de 6 MW, vai ser possível reduzir em 50% as emissões de carbono associadas à energia térmica, eliminar mais de 7000 toneladas de CO2 por ano (o equivalente a retirar cerca de 1800 automóveis das estradas), estimando-se ganhos de eficiência em 39%.

Mas como é natural em projetos ambiciosos, às oportunidades antecedem desafios. Neste caso, falamos de uma intervenção profunda numa fábrica que continuou sempre a produzir, sendo que uma das principais dificuldades foi integrar equipamentos de última geração numa instalação industrial já existente. Para tal, foi essencial construir uma réplica virtual do sistema antes de avançar com a sua instalação física – esse gémeo digital foi desenhado a partir de 74 mil milhões de pontos de varrimento de laser e várias centenas de milhões de dados de consumo de energia e de processos. A partir desse modelo, foram analisados mais de 60 cenários possíveis, sem interromper a produção e sem intervir diretamente nas máquinas. Por isso, durante algum tempo, este projeto viveu no mundo digital, antes de ganhar vida na Cervejeira de Vialonga.

A Bomba de Calor foi um passo significativo na Jornada de Descarbonização da Central de Cervejas e Bebidas, que já começou há uma década e em 2024 também atingiu um marco muito importante, quando toda a eletricidade utilizada nas unidades de produção passou a ser 100% renovável. Desde 2017, a empresa já investiu 135 milhões de euros na transição energética das suas operações, sendo que a ambição é antecipar a meta de atingir a neutralidade carbónica na produção em 2030. Isto significa que, por essa altura, estaremos a colocar nas mãos dos consumidores uma cerveja Sagres livre de emissões de carbono.

Mas, mais do que reduzir emissões, o nosso objetivo é reinventar a forma como produzimos, tornando a nossa operação mais eficiente, resiliente e preparada para os desafios do futuro. Ao diminuirmos a dependência de combustíveis fósseis e ao integrarmos fontes de energia renováveis, estamos a tornar a nossa atividade mais previsível, menos exposta à volatilidade dos mercados energéticos e mais competitiva.

Contudo, importa lembrar que a transição energética não se esgota na fábrica. O maior desafio está em descarbonizar toda a cadeia de valor até 2040 – desde a produção agrícola das matérias-primas até à distribuição e consumo. Para que esta meta seja cumprida é necessário repensar processos, fornecedores, logística e até comportamentos de consumo. Exige inovação, mas também compromisso coletivo. E, por isso, será uma oportunidade para reinventar a própria indústria.

Sabemos que o futuro da indústria cervejeira será, inevitavelmente, de baixo carbono. A questão já não é “se”, mas “como” e “a que ritmo”. Nós escolhemos liderar esse caminho.

Manuel Galvão
Diretor de Supply Chain da Central de Cervejas e Bebidas

 

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