Um estudo realizado pela Universidade de Shenzhen, na China, revelou que os pagamentos digitais levam os consumidores a gastar mais do que quando utilizam dinheiro.
A investigação, que envolveu 1.208 participantes, destacou como o ato de pagar digitalmente, através de toques e cliques, reduz a percepção do custo das compras, criando um efeito de erosão do controlo financeiro antes mesmo de os consumidores notarem qualquer mudança no seu orçamento.
“Os pagamentos digitais vão explodir nas experiências do dia-a-dia,” afirmou Safeer Ullah Khan, autor principal do estudo. E continua: “isso pode acontecer em aplicações de redes sociais ou noutras ferramentas que usamos regularmente. Qualquer aplicação que utilizamos no nosso quotidiano vai tornar-se o local onde realizamos as nossas atividades financeiras”.
O estudo revelou que, quando o dinheiro se torna invisível no momento da compra, a transação é sentida como mais barata, mesmo que o valor total não tenha mudado. Esta alteração na perceção do pagamento está a reconfigurar os hábitos de consumo, tornando o processo de pagamento mais fácil de ignorar, o que pode resultar em maior gasto por parte dos consumidores.
A análise também explorou como os pagamentos digitais alteram o conceito de “orçamento mental”, uma ideia apresentada em 1985 que sugere que as pessoas dividem o seu dinheiro em categorias mentais separadas.
Por exemplo, uma conta de supermercado pode ser classificada como necessária, enquanto um bilhete de cinema pode ser visto como opcional, mesmo que o orçamento total se mantenha igual. Segundo o estudo, os pagamentos digitais dificultam a manutenção dessas categorias, uma vez que a transação não envolve a experiência física de entregar o dinheiro, como acontece com os pagamentos em dinheiro.
“O uso de cartões de crédito aumenta a disposição para gastar,” sublinhou Safeer Ullah Khan, enfatizando que “essa separação entre a decisão de compra e o momento de pagamento pode ser ainda maior com os pagamentos feitos por telemóvel, onde os cartões são armazenados e os dados preenchidos automaticamente”.
De acordo com o estudo, os pagamentos em dinheiro funcionam de forma diferente. Quando o consumidor paga em dinheiro, ele observa fisicamente as notas a saírem da sua posse, o que torna mais difícil ignorar o custo. Por outro lado, com os pagamentos digitais, a ausência de tangibilidade torna mais fácil desconsiderar o valor da transação, levando a um aumento nos gastos.
 O estudo também sublinhou que a literacia financeira digital pode ajudar os consumidores a evitar problemas relacionados com os pagamentos digitais, uma vez que, segundo os autores do estudo, consumidores que são mais informados sobre como os serviços financeiros digitais funcionam, tendem a monitorizar melhor os saldos, taxas e o momento dos pagamentos, o que lhes permite tomar decisões financeiras mais conscientes.
Além disso, o estudo revelou que as políticas governamentais podem moldar a forma como os consumidores adotam os pagamentos digitais, influenciando como as ferramentas financeiras digitais são percepcionadas em termos de segurança e normalidade.
“As nossas descobertas também revelaram que a literacia financeira digital modera profundamente a relação entre pagamentos digitais e o comportamento de gastos, enquanto o apoio do governo só modera entre os pagamentos digitais futuros e o comportamento de consumo,” explicou Safeer Ullah Khan.
Assim, o estudo concluiu que o controlo dos gastos está intimamente ligado à forma como os pagamentos são processados. A literacia financeira digital, o design claro dos sistemas de pagamento e a implementação de medidas de segurança podem ajudar a limitar o gasto excessivo, sem rejeitar a conveniência dos pagamentos digitais.

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