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Opinião

Mais uma crise? Não há crise

Mais uma crise? Não há crise

Durante os últimos anos, a palavra “crise” foi perdendo força. Foi repetida tantas vezes, em tantos contextos, que deixou de significar exceção. Hoje, já não identifica um momento de rutura; descreve o estado permanente em que vivemos e ao qual, por desconfortável que seja admiti-lo, nos habituámos. A certa altura, deixámos de perguntar quando termina a crise e passámos a tentar perceber como se vive dentro dela. Por vezes, ainda nos interrogamos se a crise é a regra ou a exceção. A resposta é simples.
O episódio atual de tensão no Médio Oriente, com impacto imediato no preço dos combustíveis, segue um padrão que já reconhecemos quase sem esforço. O petróleo e outras matérias­‑primas sobem, os custos de contexto agravam-se, o transporte encarece, as cadeias de abastecimento ficam sob pressão, retalhistas e marcas comprimem margens, e o consumidor volta a ser chamado a absorver o choque final. O problema é que esse consumidor já vem cansado. Subtrai onde antes somava, adia onde antes decidia, hesita onde antes confiava. Nada disto é novo. É apenas mais um ciclo dentro de uma sucessão contínua de choques.
É precisamente aqui que a noção de crise se altera. Uma crise, no sentido clássico, pressupunha um desvio à normalidade. Tinha princípio, auge e, idealmente, fim. Hoje, essa lógica desapareceu. Saltamos de sobressalto em sobressalto: pandemia, inflação, guerra, disrupção energética, escassez de talento, transformação tecnológica, instabilidade geopolítica. Mal um tema perde intensidade, outro ocupa o seu lugar. O resultado é simples: a exceção tornou-se ambiente. E quando o ambiente é instável por definição, a crise deixa de ser interrupção. Passa a ser contexto.
Há, então, diferenças entre crises? Podíamos dizer que sim, pela origem, pelo impacto ou pela velocidade de propagação. Mas, no essencial, a verdade é outra: não há uma diferença decisiva. Se despirmos o contexto da sua roupa formal, vemos que, numa economia globalizada, interdependente e permanentemente exposta, a crise apresenta-se sempre com nomes diferentes, mas produz efeitos semelhantes. Pressiona custos, corrói confiança, altera prioridades e força ajustamentos. Muda o palco, mudam os protagonistas, mas o enredo repete-se.
A Europa sente isso de forma particularmente dura. Perde peso relativo, move-se entre potências concorrentes e revela dificuldade em afirmar autonomia económica, energética e tecnológica. Está demasiado dependente para controlar os efeitos e demasiado exposta para os ignorar. Neste enquadramento, cada novo abalo externo tem impacto interno quase automático. E isso ajuda a explicar porque é que a sensação de vulnerabilidade se instalou de forma permanente nas empresas e nas famílias.
Mas talvez o traço mais relevante desta nova realidade seja a adaptação. O sistema habituou-se. As empresas aprenderam a operar com menos previsibilidade, a rever planos com mais frequência, a tomar decisões em ambiente de ruído constante. Os consumidores, por seu lado, também se adaptaram, ainda que de forma mais defensiva. Tornaram-se mais racionais, mais prudentes, mais seletivos. Já não reagem à palavra “crise” com surpresa, mas com resignação. Esperam-na. Contam com ela.
É por isso que talvez faça mais sentido dizer o óbvio: a crise já não é um acidente. É o modo de funcionamento do presente. E, sendo assim, talvez devamos parar de tratar cada novo episódio como se fosse uma anomalia absoluta. Numa economia globalizada, com uma Europa encostada entre forças maiores e interesses concorrentes, a crise é só mais uma crise. E, por isso mesmo, já não há crise: há apenas a realidade, sem disfarce.

 

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