O setor da distribuição está a assumir a descarbonização como uma prioridade estratégica e não apenas como uma resposta regulatória. Essa foi a principal mensagem deixada na conferência “Descarbonização e ação climática no setor da distribuição”, organizada pela APED, que reuniu decisores públicos e empresas para fazer o ponto de situação sobre o roteiro setorial até 2040 e os primeiros resultados alcançados, no ano em que se cumprem quatro anos desde o lançamento do Roteiro para a Descarbonização.
Na sessão, que se realizou no Centro Cultural de Belém, os dados apresentados permitiram perceber o percurso realizado, evidenciando um desempenho positivo na redução de emissões diretas e indiretas, com uma diminuição de 12% nas emissões de âmbito 1 e de 17% nas emissões de âmbito 2. Em sentido inverso, registou-se um aumento de 31% nas emissões de âmbito 3. Esta evolução é atribuída sobretudo à melhoria significativa dos processos de recolha e reporte de dados, à revisão das metodologias de inventário — que permitem hoje um cálculo mais rigoroso e transparente — e ao crescimento da atividade económica das empresas. As categorias de compra de bens e serviços e de utilização de produtos vendidos concentram cerca de 86% das emissões indiretas do âmbito 3.

“O setor da Distribuição e do Retalho, representado, a nível nacional, pela APED, com 226 associados, mais de 4 800 lojas e um volume de negócios superior a 23 mil milhões de euros, constitui um pilar fundamental da economia nacional. Mas é também um setor-chave na descarbonização global, uma vez que cerca de um terço da pegada europeia resulta de produtos comercializados pelo setor do retalho. Por este motivo, e sob o mote ‘Colaborar, Adaptar e Transitar’, a APED assumiu a liderança deste processo através da criação do Roteiro para a Descarbonização”, afirmou José António Nogueira de Brito, presidente da APED.
Ao longo do encontro, a colaboração foi apontada de forma recorrente como condição essencial para o sucesso da transição climática. Embora o roteiro setorial assente numa adesão voluntária, num conjunto de compromissos mínimos e opcionais e numa forte partilha de experiências entre empresas concorrentes, mas com desafios comuns, a ideia transversal defendida foi a de que problemas individuais se tornam mais fáceis de resolver quando são enfrentados de forma coletiva.
Outro tema central do debate foi a necessidade de recentrar a sustentabilidade na criação de valor. Vários intervenientes alertaram para os riscos de uma abordagem excessivamente focada no cumprimento regulamentar, que consome recursos e desvia a atenção da ação concreta. A mensagem foi, por isso, clara: as empresas não devem descarbonizar apenas porque a regulação o exige, mas porque existem retornos económicos, redução de risco e vantagens competitivas associadas à eficiência energética, à inovação e à antecipação das expectativas dos clientes.

Esta visão esteve em destaque na mesa-redonda que contou com a participação de Cláudia Simões, gestora de Sustentabilidade da Luís Simões, Fernando Ventura, Environment Global Director da Jerónimo Martins, Joana Gomes, responsável técnica de Ambiente da Auchan Retail Portugal, Rita Agostinho, Sustainability Specialist da Sonae MC, Rita Castanheira, responsável de Ambiente, Carbono e Impacte Social da Leroy Merlin, e Sónia Sobral, responsável de Sustentabilidade da Cerealis.
Do painel resultou a ideia de que a descarbonização pode constituir uma vantagem competitiva quando adotada de forma voluntária, bem como a necessidade de maior parametrização dos pedidos feitos aos fornecedores por parte dos retalhistas. Rita Agostinho, em representação da MC, defendeu ainda que o retalho, pelo seu papel central na sociedade, tem a “capacidade e a responsabilidade de influenciar” melhores comportamentos por parte do consumidor. Os participantes convergiram também na ideia de que existe uma “competitividade saudável” em matéria de sustentabilidade, que contribui para acelerar o processo de descarbonização.
Cláudia Simões sublinhou a importância de encontrar um equilíbrio entre o fator económico e os objetivos de descarbonização, defendendo que as metas ambientais devem ser win-win para todas as partes envolvidas. “É muito difícil descarbonizar sem haver equilíbrio entre custo e valor”, afirmou, lembrando que, no setor dos transportes, muitas empresas são de pequena dimensão e dispõem de margens reduzidas para realizar investimentos avultados. Esta perspetiva foi secundada por Rita Agostinho, que reforçou que a “sustentabilidade é uma vertente que deve estar sempre integrada na perspetiva de negócio”.
A conferência terminou com uma mensagem de realismo e ambição. A descarbonização da distribuição é um processo complexo, que exige investimento, mudança cultural e tempo. Ainda assim, os primeiros resultados demonstram que o caminho está a ser feito e que a transição já não é uma questão de “se”, mas de “como” e “a que ritmo”. Para o setor, a escolha é cada vez mais clara: avançar de forma coordenada agora ou arriscar perder relevância num mercado que valoriza, de forma crescente, o desempenho ambiental e a responsabilidade climática.
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D.R.
