O Clube comemora 11 anos de actividade com um crescimento apreciável. Que balanço faz desta década de parceria com a produção?
O Clube nasceu em 1998 de uma necessidade de maior partilha, conhecimento e aproximação entre a produção nacional e a distribuição. Desde lá para cá tem crescido muito e os números são claros. Começámos com 96 produtores e hoje temos 230, em áreas muito distintas, desde os hortofrutícolas que tem um peso maior, com 117 produtores, mas também a área das carnes, que conta com 76 e os enchidos e os queijos regionais, com 66. Na área do pescado contamos com 3 produtores, um número onde se incluem organizações de produtores, 2 produtores de doces e compotas e, este ano, pela primeira vez, integrámos seis produtores da área da padaria e pastelaria regional, que é um sector novo para o clube…
Continuam sem vinhos?
Não, temos um clube de vinhos mas não está integrado no Clube de Produtores.
É uma opção estratégica?
Não, estamos mais centrados na parte dos hortofrutícolas e não tanto nessa área. O Clube de Vinhos no fundo é uma associação de clientes a quem divulgamos informação, é uma óptica diferente. O Clube de produtores é uma associação entre produtores e a distribuição, o Clube de Vinhos tem uma óptica mais comercial.
Ou seja, no caso dos hortofrutícolas os produtores acabam por fornecer produtos à medidas das necessidades, variedade, calibre… isso nos vinhos seria mais complicado?
Eu não gostaria de falar de vinhos porque não é o âmbito do Clube…
Mas há três anos atrás esse era um objectivo… falava-se em integrar os vinhos no Clube…
Talvez mais tarde, assim como outras áreas, caso do azeite, que hoje ainda não faz parte, mas já estamos a trabalhar nisso…
É uma área a crescer muito…
Sim, este ano ainda não foi possível integrar, mas é uma área com grande impacto em termos de produção nacional e mais tarde fará sentido…
E aí faria sentido a ligação ao vinho, dado que existem muitos produtores comuns…
Sim, não só com os vinhos, mas também com outras áreas na Sonae… Mas deixe-me voltar aos números. Desde 1998 até hoje já transaccionamos 980.000 toneladas, cerca de 90.000 toneladas ano.
Estamos a falar de que facturação?
Representa cerca de 80 milhões de euros de média anual, mas em 2009 chegámos aos 100 milhões de euros. Aqui temos pesos diferentes de área para área, só os legumes representam 75/80% do negócio.
Nas frutas o peso é mais baixo porque importamos muitas frutas tropicais e fora de época. Só 65% a 70% da quantidade de fruta vendida tem origem no Clube. Nas carnes, os ovinos e caprinos representam cerca de 50% das nossas compras, têm um peso muito grande…
Mas aí faria sentido abastecer no mercado nacional todo o ano…
Sim, mas são produtos muito sazonais, o cabrito e o borrego vendem-se na Páscoa e Natal e é difícil a produção ajustar-se para um pico tão grande de procura. E daí não ser possível satisfazer as nossas necessidades de comercialização no mercado nacional.
Na parte dos bovinos qual é o peso?
Cerca de 20 a 30%, de suínos e bovinos… tem a ver com as necessidades e com as dificuldades em alguns períodos do ano em conseguir fazer face à procura. São áreas muito concorrenciais e competitivas, e aqui não podemos esquecer que entram as carnes da América do Sul, as “picanhas”, as “maminhas”, carnes muito conhecidas e valorizadas pelos clientes e que não temos cá. Tudo isso entra nos números.
Ainda nas carnes, sente que os produtos com denominação de origem têm tido crescimento?
Sim, um crescimento enorme. Trabalhamos com várias carnes DOP de todo o país, desde a Mirandesa, aos Açores…
Esse é o foco do Clube, ir buscar esta diferenciação?
Também, mas não só. Temos clientes com diferentes disponibilidades e tipos de consumo, e temos de estar em todos os segmentos de mercado. Temos muito crescimento nas carnes DOP, um crescimento muito associado à marca selecção Continente, dado que tentamos associar produtos de valor acrescentado a uma segmentação.
Nos frescos também temos esta segmentação de forma a permitir satisfazer todos os nossos clientes.
Foi um ano muito complicado nas relações distribuição produção, não tanto nas áreas que envolvem o Clube, mas no caso dos produtores de leite e de arroz, por exemplo, houve muito atrito com as marcas. Como é que sente que está a relação com os vossos produtores, sofreu algum abalo?
Só posso falar da relação que temos dentro das áreas do clube. Não tivemos nenhum constrangimento e registamos um crescimento em 2009 em relação ao ano anterior no número de produtores, o que significa que trazemos vantagens…
Continua a abertura para receber mais produtores?
Sim, recebemos mensalmente muitas candidaturas e há sempre espaço para mais parceiros, dado que há uma série de áreas específicas de produção onde ainda não conseguimos satisfazer as nossas necessidades. O Clube também tem outro papel. Quando começámos, todos os produtores faziam basicamente as mesmas coisas e, por vezes, tínhamos excesso de produção relativamente a algumas variedades. Para inverter essa tendência nos hortofrutícolas, por exemplo, passámos a fazer reuniões sectoriais com todos os produtores e nessa altura podemos decidir, de acordo com as nossas necessidades, qual a campanha que cada produtor vai fazer e que tipo de produto cada um vai fazer. Isto para que não estejam todos a produzir tomate ou alface, dando a possibilidade de poderem diversificar. Contribuímos para que exista sempre espaço, ao dar estas opções de poderem diversificar para outras culturas. Há áreas onde não é possível fazer este planeamento, como as culturas anuais, mas ainda assim se sentirmos que há uma produção excessiva numa área podemos contribuir para esse escoamento através de campanhas, promoções nas lojas, folhetos, etc… Por tudo isto, sim, temos muito espaço para continuar a receber a produção nacional…
Continuam a apostar na formação, essa é uma área importante para o Clube?
Sem dúvida. Acabei há pouco de falar na minha apresentação [X Encontro de Produtores Sonae] de uma viagem recente que fizemos a queijarias italianas. Fomos cerca de 30 produtores, visitámos dois produtores de queijos Parmesano e Gorgonzola, visitámos uma feira de queijos e um hipermercado em Itália. São acções fantásticas que nos permitem, produção e distribuição, ter contacto com outras realidades em conjunto e ter uma comunicação facilitada. Quando colocamos os produtores nacionais em contacto com estrangeiros há uma partilha de ideias e experiências muito rica que pode enriquecer a sua actividade…
Como é que está neste momento a política de preços? Fazem contratos anuais com preços fixos?
Existem diferentes formas. Fazemos contratos programa com os nossos produtores, sem preço. O preço é o de mercado, mas garantimos sempre quantidades. Garantimos que escoamos determinada quantidade, num determinado período, ao preço de mercado. Fizemos várias experiências no início, mas achámos que era mais proveitoso para ambas as partes indexar ao preço de mercado…
Preço de mercado nacional ou internacional?
Depende um pouco dos produtos. Há produtos, como a carne, onde temos a bolsa nacional e a espanhola. Se estivermos a falar de hortofrutícolas já tem a ver com o mercado nacional. Isso é acordado de forma tranquila, semanal ou mensalmente. O mais importante é garantir o escoamento de determinada quantidade e isso está assegurado para o produtor.
Entraram recentemente na área do peixe…
Sim, é uma área nova para nós. Fizemos um contrato com a CAPA [Cooperativa dos Armadores de Pesca Artesanal], que representa 40 embarcações de Peniche, e aí fizemos um contrato de quantidade e de preço mínimo garantido. Não significa que o preço não possa ser superior, mas aquele está garantido. Isso dá uma segurança muito grande e a relação tem corrido muito bem.
O que é que fazia falta no Clube a nível de produtos inovadores? O presidente da APED falava recentemente que a área gourmet ainda tem muito para crescer…
Temos necessidades em várias áreas. Existem vários segmentos de clientes e temos de ter a preocupação de os satisfazer a todos. A inovação é algo que cabe em todos os tipos de posicionamento. Dou-lhe um exemplo, os produtos de charcutaria regionais de IGP [Indicação Geográfica Protegida] até agora só se comercializavam inteiros. E isso não era acessível a todas as bolsas, embora seja um produto muito conveniente.
O que lançámos este ano foram os enchidos regionais IGP Selecção Continente, mas fatiados. Isso permite maior conveniência, o cliente leva uma parte mais pequena e de que precisa, e a um preço muito inferior, e dá a possibilidade de comprar produtos que doutra forma provavelmente não conseguiriam adquirir. Isto é inovar. Mas temos outro tipo de inovações. Este ano, lançámos na feira de Queijos e Enchidos, que organizamos habitualmente em Fevereiro, alheiras de marisco, de broa de milho, de migas de bacalhau… São produtos muito tradicionais, as alheiras, mas que precisam de modernização….
Foi uma ideia ou um pedido vosso?
Foi uma ideia em conjunto com os produtores…Temos técnicos do Clube que acompanham os produtores e que vêem em conjunto o que podemos fazer de diferente e de inovador. Foi um sucesso brutal, esgotámos o stock nos dois primeiros dias, tivemos de fazer um esforço enorme para voltar a produzir de forma a conseguir acompanhar a feira. É muito engraçado este trabalho, são produtos tradicionais e as novas gerações de consumidores querem produtos mais inovadores e que lhes despertem a curiosidade. Ou seja, produtos tradicionais com diferentes sabores e texturas.
Nos hortofrutícolas é mais difícil inovar, ou fazem experiências com novas variedades, por exemplo?
Aí também temos experiências engraçadas, e às vezes a inovação dá-se no próprio processo. Falou em variedades. O ano passado lançámos uma série de maçãs nacionais muito antigas, na linha da Bravo de Esmolfe. Fomos recuperar estas variedades junto de alguns produtores e quisemos valorizá-las e colocá-las no mercado. O que fizemos foi dar-lhes a marca Selecção Continente e relançá-las no mercado.
O caso da laranja do Algarve também é emblemático. Produzimos e comercializamos a laranja com três marcas diferentes: laranja do Algarve IGP, o logo do Clube de Produtores e a marca Selecção Continente. E com uma embalagem nova e atractiva, conseguimos dar mais visibilidade a uma laranja que já é excelente, com muito açúcar e sumo. E fizemos algo de muito importante com a produção, porque os nossos clientes tinham necessidade de continuar a comprar laranja do Algarve para além de Julho. Conseguimos prolongar a produção de forma a vender durante quase todo o ano. E já vendemos 1.000 toneladas de laranja do Algarve, um número muito superior ao que era normal. É uma inovação não só na embalagem, mas também no tempo de comercialização, ou seja, interferimos no processo de produção. Na inovação cabe um leque enorme de possibilidades, e aí tenho de dizer que temos o orgulho de trabalhar com produtores muito bons, que aceitam sempre desafios, e nos desafiam a nós próprios. Temos feito coisas muito giras em conjunto.
Lembro-me de um produtor vosso que estava a fazer melancias amarelas…
Sim, e hoje fazem-se melancias de várias cores, melancias sem pevides… passou a ser normal. Hoje é recorrente produzir e vender uvas sem grainha, que foi uma técnica desenvolvida em Portugal, e é um sucesso comercial.

