Retalho

O novo retalho de Lisboa

retalho

Lisboa está em ebulição. Há ideias a serem transformadas em negócios todos os dias, o que acaba por ser o reflexo da vida da capital nos dias de hoje: um pólo turístico e cultural efervescente em que os empreendedores querem ter uma palavra a dizer. Tudo isso está a levar que exista novas lojas, novos conceitos de retalho. Descubra o que se está a criar  na capital portuguesa.

Os números do comércio, em Lisboa, estão a dar uma volta. Em 2013, na capital, e de acordo com a União de Associações do Comércio e Serviços (UACS), fecharam em média cinco lojas por dia. “Felizmente, esse número decaiu”, diz a presidente Carla Salsinha à DISTRIBUIÇÃO HOJE. “Hoje já vão abrindo pequenos negócios. Nota-se muito o surgimento de novas empresas, algumas delas mais direcionadas para nichos.” São novas lojas, com modelos de negócio diferenciadores, criativos e disruptivos. “Há uma nova tendência que é o retorno ao comércio da cidade que é fruto, indiscutivelmente, desses novos conceitos disruptivos do comércio que vieram trazer uma lufada de ar fresco.”
O turismo e o crescimento da entrada de visitantes em Portugal e na cidade de Lisboa tem marcado o crescimento do Retalho. A DISTRIBUIÇÃO HOJE visitou uma série de novas lojas da capital portuguesa e ficou a perceber que, em praticamente todas, os visitantes estrangeiros têm um papel importante nos números dos negócios.

Aqui Há Gato

 Situado no número 74A da Calçada da Estrela, o café e biblioteca Aqui Há Gato nasceu da inspiração que Catarina Mendes trouxe da Áustria. Foi lá que teve o primeiro contacto com o conceito de “cat cafés”, espaços que se foram tornando num fenómeno em expansão pela Europa entre 2012 e 2014, mas que ainda não tinham chegado a Portugal, onde se pode beber um café e comer qualquer coisa ao mesmo tempo que se pode conviver com gatos. Nesta altura, 50% dos clientes no Aqui Há Gato são turistas. Por questões de legalização, as áreas estão divididas: onde há comida a ser preparada não há gatos a passear, mas, do outro lado do vidro, numa sala decorada com objetos para a distração dos bichos, vivem seis gatos. “O maior respeito que tem de haver aqui é pelos gatos. O espaço é deles, o cliente é que tem de se adaptar e alguns chocam-se quando dizemos isso.”

loja Aqui há Gato - Distribuição Hoje
A gerente sente que o negócio tem tido um crescimento a par daquilo que era expectável, mas ainda não conseguiu atingir muitas dos objetivos a que se propôs. “Além dos gatos, gostava de poder desenvolver algumas atividades culturais, lançamentos de livros ou exposições. Ter uma agenda cultural.”
Com quase seis meses de existência, e por se tratar de um negócio inédito em Portugal, as adaptações têm sido uma constante, mas Catarina Mendes considera que já foi possível fixar alguma clientela. “Muitos são estrangeiros, que vêm viver para Portugal e que trabalham aqui o dia inteiro. Uma das coisas que conseguimos, e que não estávamos à espera, foi criar um espaço que, além de consumo, é de trabalho.”

Casa a Granel

No bairro de Campo de Ourique, está aberta há quase um ano a Casa a Granel. Este é um espaço gerido por um casal que encontrou numa loja com cerca de 40 metros quadrados o espaço ideal para arrancar com o negócio que recupera a tradição de se comprar produtos a granel. No número 6B da Rua Francisco Metrass, há cerca de 300 referências de produtos que vão do arroz, farinhas e feijões até produtos como as bagas goji, chia, granola, aveia ou frutos desidratados, tudo comprado ao peso, em embalagens próprias e, quando trazidas de casa pelo cliente, reutilizadas numa lógica de poupança de recursos. Rodrigo Soares é um consultor financeiro e desde os tempos de faculdade que estuda os temas de sustentabilidade e desperdício. A mulher, Marlene Garcia, é advogada e há muitos anos que, por opção e também por necessidade, tem o gosto pela alimentação saudável. Também a Casa a Granel nasceu de uma ideia que foi sendo maturada depois de viagens ao estrangeiro e da descoberta de lojas típicas no Brasil ou inovadoras em Espanha e na Alemanha, segundo novas regras comunitárias. Marlene explica que uma das vantagens de se terem instalado em Campo de Ourique é terem os clientes como catalisador de ideias para novos produtos. “As pessoas gostam de dar opiniões. São muito bairristas, recebem-nos e tomam a loja como sua. O crescimento da loja acaba por ser também um crescimento do bairro.”

Casa a Granel - loja - Distribuição Hoje
Volvidos quase 12 meses, Rodrigo Soares revela que tem sido um ano de flutuações, mas com números muito positivos. “Até agora é uma aposta ganha, mas é preciso solidificar. Queremos ter um período completo como indicador para só depois podermos extrapolar para outros projetos.” Tal como a loja, a ideia é fazer crescer o negócio com sustentabilidade. “Seria estar a ir contra o conceito da loja se estivéssemos a fazer um desperdício gigante para promover uma loja anti-desperdício através da publicidade ou da abertura de novos espaços no imediato.”

Under The Cover

Foi há quase um ano que Luís Cunha e Arturas Slidziauskas abriram a Under The Cover, uma loja de revistas, maioritariamente internacionais e quase todas independentes. Luís, português, e Arturas, lituano, tinham o sonho de “fazer alguma coisa em conjunto”. Ambos na casa dos 30 anos e a trabalhar na área da medicina – animal e humana – definiram que o projeto tinha de ser algo muito pessoal. “Sempre gostámos de revistas enquanto objeto. E achámos que havia esta necessidade em Lisboa: não era possível encontrar no mesmo espaço revistas contemporâneas e independentes”, conta Luís Cunha.
Arturas e Luís instalaram a Under The Cover numa pequena loja da rua Rua Marquês Sá da Bandeira, no número 88B. “Adorámos o espaço, apesar de ser pequeno. Está muito perto da Gulbenkian e cria-se uma relação boa com as pessoas que frequentam os jardins.” São cerca de 170 títulos disponíveis, revistas de todo o mundo que abordam um sem número de temas – desde desporto, erotismo, literatura, tecnologia, fotografia, design, gastronomia, viagens, música ou cinema.
Luís Cunha recorda que o grande desafio da abertura foi a inexperiência de ambos enquanto empreendedores. Mas o facto de este ser um negócio de nicho e não haver “muitos mais espaços como este no País”, fez com que os próprios editores das revistas tivessem interesse em vender na Under The Cover. “No início foi difícil reunir todo o portfólio, mas vamos construindo com a ajuda e o contacto com os clientes”. Quanto a balanços, Luís Cunha ri-se e diz que o aspeto financeiro “é com o contabilista”. Já no lado do crescimento do nome da loja e na relação com os clientes “tem sido muito bom”. “Não é uma loja para massas, mas sim para os clientes que gostam e percebem o papel e as publicações independentes de qualidade.” No que toca a projetos de futuro, e antes de se pensar em expandir a loja para outros espaços físicos, os sócios pretendem, facilitar a venda de revistas através do site underthecover.pt,algo que agora só é possível por e-mail, mas que vai passar a ser, em breve, “um processo automático para que seja mais fácil para quem compra poder receber as revistas em dois dias.”

Pop Cereal Café

Foi na Rua do Norte, no número 64, que Tiago Silva, Marco Silva e Filipe Vicente abriram, em julho, o Pop Cereal Café, um espaço dedicado a fãs de cereais inspirado na loja londrina Cereal Killer. “Somos três sócios: eu e o Marco decidimos avançar, largar as nossas vidas profissionais – eu como engenheiro mecânico e o Marco com o curso de Gestão e ex-consultor de Recursos Humanos. O Tiago ainda tem o trabalho dele e dá-nos algum apoio”, explica Filipe Vicente.
No Pop Cereal Café encontram-se mais de 100 marcas de cereais. “Mas até podíamos ter 500. Os nossos importadores têm capacidade para isso”, sublinha Filipe Vicente. As embalagens estão aos olhos de todos e ajudam a dar o colorido à casa. O responsável sublinha que não se trata de ir, apenas, comer cereais como se come em casa: há um convite à ousadia. “Porque é que comer cereais tem de ser só uma mistura com leite? Aqui podem misturar-se três ou cinco cereais em leites de vários sabores e complementá-los com toppings: marshmallows, gelado, gomas, chantili, bolachas, pudim…”.

Pop Cereal Café - Distribuição Hoje
Este é um espaço de tributo à cultura pop. Colorido, com paredes decoradas com pósteres ao estilo pop art, televisões antigas, telefonias ou ardósias riscadas. Filipe Vicente assume mesmo que trabalha aqui uma equipa “completamente louca por cereais”. A criação dos menus, original, é prova disso: “Fomos ao supermercado, trouxemos todos os cereais que lá estavam. Gastámos mais de 300 euros em cereais e em toppings que achávamos que fariam sentido. Espalhámos tudo na sala e pusemos as nossas mulheres a avaliar cada uma das misturas que íamos fazendo.” A loja abriu no dia 13 de julho e os primeiros meses têm sido de uma recetividade muito grande. E estar no Bairro Alto ajuda: “Funcionamos todos os dias das 10h à meia-noite. Pensávamos que à noite ninguém comia cereais, mas entre as 22h e as 00h é o nosso melhor período – e se tivéssemos licença, ao fim de semana ficávamos até às 2h!”
“Há planos de expansão”, diz o proprietário. “Mas não vamos fazer nada antes deste inverno, que vai ser o nosso stress test. Pode ser a expansão ou até o franchising. Temos muitas ideias, mas também não queremos dar passos maiores que a perna.”

Cantê

A poucos metros do Bairro Alto, e na zona nobre do comércio da capital, no Chiado, Mariana Delgado e Rita Soares abriram, no ano passado, a loja da Cantê, dedicada à criação e venda de fatos-de-banho, biquínis e triquínis. A marca foi criada em 2010 depois de uma viagem de finalistas das duas amigas ao Brasil. “Durante a viagem fomos recebendo pedidos de biquínis das nossas amigas e decidimos criar uma marca Portuguesa porque percebemos que havia muito pouca oferta em Portugal”, recorda Mariana. De arquitetas a designers de moda. Mariana e Rita instalaram-se num ateliê em Belém e começaram o processo de criação, sempre com um conceito de exclusividade à mistura. “A mulher Cantê é uma mulher com classe, que gosta da sua individualidade. Tudo é pensado ao pormenor e tentamos dar um atendimento personalizado a todas as clientes.”

Cantê - Distribuição Hoje
Foi a pensar nesse contacto próximo com as clientes que, cinco anos após a viagem ao Brasil, nasceu a primeira loja física da Cantê, depois das vendas exclusivas online. “Com a procura que tivemos, sentimos necessidade de evoluir. Este ano criámos produtos novos, como as capas para os telefones e os quimonos.”
A localização da Cantê também permite chegar aos turistas. “Como está num ponto muito turístico, temos muitos estrangeiros a passar na loja. Alguns só entram para ficar a conhecer, mas há outros que acabam por se render e levar um modelo. Há também os que pedem o nosso cartão para depois visitar a loja online. A verdade é que temos tido encomendas do mundo inteiro.”

4Run

No Parque das Nações visitámos uma loja dedicada à corrida. E quando entrámos na 4Run, a loja ainda nem tinha sequer sido oficialmente inaugurada. A abertura aconteceu no dia 1 de setembro, mas só na última semana do mês é que Ricardo Sá e António Vale fizeram a inauguração. A 4Run nasceu da identificação de uma lacuna por parte dos sócios, amigos e companheiros de treinos e competições há mais de 20 anos: a inexistência de uma loja que vendesse material técnico de corrida. “Atualmente, em Portugal, existe mais de meio milhão de corredores”, explica Ricardo Sá, que largou o seu trabalho de fato e gravata numa multinacional para se dedicar àquilo de que verdadeiramente gosta e pratica há mais de duas décadas. Por esta loja acabada de estrear ainda se encontram marcas como Salomon, Saucony, Brooks, Hoka One One, Lurbel, New Balance, Buff, Compressport, Suunto ou Garmin, com equipamento que tanto pode ser para uma caminhada de três quilómetros como para uma ultramaratona por trilhos e vales nos Alpes Suíços.

4Run - Parque das Nações - Distribuição Hoje
Apesar de se direcionar a um nicho de clientes que procura produtos muito específicos para melhorar a performance, na 4Run há à venda material para todos os tipos de corredores. Desde as sapatilhas, passando por vestuário, acessórios, tecnologia e nutrição. São quase dezena e meia de marcas que aqui estão à venda, algumas que se estreiam a vender em Portugal nesta loja instalada no Jardim dos Jacarandás – Passeio Júlio Verne. “No caso da Brooks, teve de vir um diretor geral da empresa na Europa para perceber como é que nós pretendíamos vender os ténis, como os íamos apresentar aos clientes.”
A 4Run está ainda a dar os passos de bebé, mas a ambição é grande. Além da loja física, está também prevista a abertura da loja online em 4Run.pt. O objetivo é tornar-se numa referência não só para comprar equipamento, mas também para quem quer aprender ou melhorar a sua corrida. “Queremos fidelizar as pessoas, convidá-las a passar por cá, a conversar, partilhar experiências. Não queremos, apenas, estar a vender material”, explica Ricardo Sá.

Artigo publicado na edição de outubro de 2015 da revista DISTRIBUIÇÃO HOJE