Consumo

Marcas e insígnias apostam cada vez mais no segmento vegetariano

Marcas e insígnias apostam cada vez mais no segmento vegetariano

De acordo com o estudo mais recente da Nielsen para o Centro Vegetariano (setembro de 2017), “o número de vegetarianos quadruplicou em dez anos, com 1,2% dos portugueses a não consumirem carne nem peixe”. Insígnias e marcas destacam o crescimento e interesse deste segmento, sublinhando que vão apostar mais no mercado vegetariano e vegan. Mas o diretor de marketing do Celeiro salienta que “continua a ser ainda um mercado de nicho, muito longe ainda do resto da Europa”.

O estudo da AC Nielsen para o Centro Vegetariano refere que “95% dos portugueses mantêm o consumo de carne, peixe, laticínios e ovos na sua alimentação”, mas as conclusões deste inquérito, realizado em setembro de 2017, dez anos depois do primeiro, “mostram uma evolução muito surpreendente”. Porque “o número de vegetarianos quadruplicou em dez anos, com 1,2% dos portugueses a não consumirem carne nem peixe atualmente”, quando “em 2007 apenas 0,3% da população portuguesa se encontrava nesta categoria”, afirma o Centro Vegetariano.

Também as cadeias que contactámos (Continente, Pingo Doce, Auchan e El Corte Inglés) admitem que o mercado vegan tem crescido, como afirma Vera Fernandes, responsável de oferta e compra dietética da Auchan: “Sendo a Europa o maior mercado de substitutos da carne, declaradamente há um maior número de consumidores a optar por produtos alimentares vegan em Portugal (…) havendo, no entanto, uma tendência para a desaceleração do crescimento dos artigos à base de soja”.

Marcas e insígnias apostam cada vez mais no segmento vegetariano

Já o diretor de marketing do Celeiro, Tiago do Vale, salienta que “o consumo destes produtos continua a ser um consumo de nicho. Tem aumentado por razões de bem-estar animal e por razões de sustentabilidade do nosso meio ambiente (…), mas podemos afirmar que está muito longe ainda do resto da Europa. Continua a ser ainda um mercado de nicho”.

Jayant Sheth, diretor-geral da Evervegan, avança um dos motivos: “Nos outros países da União Europeia (UE), para incentivar o consumo dos produtos saudáveis, a maioria destes produtos tem taxa de IVA reduzida. Ao contrário, em Portugal quase todos os produtos têm a taxa máxima de IVA, o que faz com que os produtos se tornem bastante mais caros, desincentivando a compra pela maioria dos consumidores”.

Marcas e insígnias apostam cada vez mais no segmento vegetariano

Vegetarianos quadruplicam, vegans duplicam
Voltando ao estudo (ver caixa), o Centro Vegetariano afirma que “os resultados também sugerem que o consumo frequente de carne e peixe parece ter reduzido, ainda que ligeiramente, na última década (de 79% para 77% e de 76% para 70%, respetivamente), o que indica uma tendência de consumo mais ocasional”.

Além disso: “0,6 % da população segue alimentação vegan (não consome carne, peixe, ovos ou laticínios). Este número representa o dobro do número de vegetarianos aquando do estudo de 2007, o que sugere uma tendência notória da população portuguesa para dietas com base vegetal”.

E, “para todas as categorias de consumo (i.e. carne, peixe, ovos e laticínios), as mulheres (comparativamente com os homens) e os jovens entre os 25-34 anos de idade (comparativamente com outras faixas etárias) são os que têm maior percentagem de não consumo. Isto é, mulheres e jovens entre os 25-34 anos responderam mais vezes ‘nunca’ quando inquiridos acerca da frequência do consumo de carne, peixe, ovos e laticínios”.

A DISTRIBUIÇÃO HOJE decidiu avançar com este artigo a propósito da realização em Lisboa de um segundo Veggie World este ano, em novembro último (depois do primeiro em abril) e Tiago Silveira Machado, responsável de comunicação do evento, diz-nos que “as marcas e cadeias estão cada vez mais sensíveis a esta realidade e sentimos que da parte da indústria há um grande interesse” e “até vieram expositores de Espanha que querem entrar no nosso mercado”.

O evento é organizado por uma empresa alemã, que realiza estes certames em várias cidades europeias, “e que começou também recentemente a levar o evento para a Ásia”.

O responsável adianta-nos que “neste evento tivemos mais alguns expositores – 55 face aos 48 de abril – mas destaco principalmente a diversificação dos setores presentes”, e o maior número de visitantes nacionais, sendo que a terceira edição do Veggie World Lisboa está já marcada para 18 e 19 de maio de 2019.

A par dos expositores realizaram-se diversas palestras e showcookings que atraíram muito público, nomeadamente a palestra de lançamento do livro de Melanie Joy “Porque Gostamos de Cães, Comemos Porcos e Vestimos Vacas”, que foca o tema do Vegetarianismo versus o Carnismo, nome que a autora dá à ideologia e prática vigente na sociedade.

Preferidos são substitutos de proteína animal
Falámos com alguns dos expositores presentes no Veggie World e o diretor de marketing do Celeiro considera que “os produtos preferidos dos consumidores são os que, de uma forma geral, substituem as proteínas animais, principalmente aqueles que contêm mais aminoácidos essenciais, nomeadamente os derivados da soja, embora os que têm uma concentração proteica derivada de leguminosas ou cereais, sejam também muito procurados e, dentro destes, aqueles que têm um paladar ao gosto do consumidor”.

Sobre as marcas de produtos vegan que a cadeia comercializa, Tiago Vale afirma que “as marcas com mais destaque são a Provamel (alternativa aos produtos lácteos), a Natursoy (alternativa à carne) e a Tofutti (alternativa aos queijos)”.

Marcas e insígnias apostam cada vez mais no segmento vegetariano

Por seu lado, Jayant Sheth, diretor-geral da Evervegan, refere que os produtos preferidos são “pastas, jaca, quinoa, substitutos de carne e ovo, natas, maioneses e patês”. A Evervegan comercializa em diversas cadeias e lojas da especialidade várias marcas e produtos vegan, como Evervegan (minitostas, croutons e snacks); D’Angelo (massas & pastas pré-cozidas ‘bio’); Newfoods (burger, carne vegetal picada e substituto do ovo); Nature’s Charm (fruta jaca verde e jaca condimentos, flor de banana – substituto do peixe com alto valor proteico, derivados do coco); Quinola (refeições prontas a comer à base de quinoa); Schlagfix (natas diversas e maionese; e VeggiBel (patês, maioneses e molhos).

Já a Naturally Green, uma empresa de quatro jovens sócios, está no mercado há dois anos e Liliana Nicolau, responsável de comunicação, finanças e marketing, diz-nos que “pela nossa experiência nestes dois anos, podemos dizer que o consumo e interesse por produtos vegans tem crescido a um ritmo elevado. Sentimos isso pela procura que temos de lojas, mas também muito na restauração”.

A Naturally Green distribui diversas marcas vegans, como “a Abbot Kinney’s (alternativa biológica aos iogurtes), a Conscious Chocolates (tabletes de chocolate, feitas à mão, raw e biológicas), Florentin Organic Kitchen (snacks inspirados na dieta mediterrânea, como húmus, faláfel, entre outros), Heath & Heather (chás biológicos), Leafy (chips de couve kale), Nom Foods (snacks como barras e pipocas, biológicas e sem açúcares refinados), e a Violife (alternativas ao queijo de origem animal)”.

As marcas distribuídas pela Evervegan e pela Naturally Green estão em lojas da especialidade, como o Celeiro, mas também já em cadeias como o El Corte Inglés, e Liliana Nicolau frisa que “o interesse do cliente por produtos vegans origina que todo o retalho queira ter este tipo de produtos”.

Insígnias vão aumentar portefólio de produtos
As cadeias com que falámos destacam o crescimento do segmento de mercado vegetariano e vegan, a par do saudável e ‘bio’, e asseguram que vão aumentar o seu portefólio de produtos nesta área.

A responsável de oferta e compra dietética da Auchan afirma que “é um segmento do mercado com cada vez mais consumidores, seja pelo aumento do número de vegetarianos em Portugal, seja pela tendência do flexitarianismo (cuja ideia é não eliminar de forma radical o consumo de carne e peixe, mantendo os benefícios de uma alimentação vegetariana) ou apenas pelo consumo mais esporádico desta tipologia de produtos como uma alternativa às refeições tradicionais, tendo por base tanto uma preocupação com a saúde pessoal como com a sustentabilidade ambiental”. Por tudo isto, salienta Vera Fernandes, “será uma forte aposta da área dietética da Auchan. O objetivo é ir cada vez mais ao encontro das necessidades e expectativas dos consumidores destes produtos, mas também do consumidor que pretende experimentar pela primeira vez”.

Marcas e insígnias apostam cada vez mais no segmento vegetariano

Também fonte oficial do Continente considera que “este é um segmento do consumo para o qual estamos muito atentos. Sabemos do potencial de crescimento que existe e procuramos estar preparados para dar resposta às necessidades dos nossos clientes, com uma proposta cada vez mais alargada de produtos vegans” e adianta: “Quer seja através dos produtos alternativos refrigerados ou não, como é o caso de produtos à base de tofu, seitan, soja, etc.; como na apresentação de produtos elaborados com recurso a ingredientes de origem vegetal em substituição de ingredientes de origem animal. Por estas razões, é expectável que o espaço em loja dedicado cresça nos próximos anos”.

Por seu lado, fonte do El Corte Inglés afirma que “o consumo de todos os produtos diferenciados tem aumentado bastante, sendo os produtos vegans uma destas categorias. Os consumidores estão cada vez mais atentos e exigentes e, respondendo a essa necessidade, a oferta tem, também ela, aumentado tanto na variedade, como na profundidade de propostas ao consumidor”, assim, “no El Corte Inglés procuramos sempre responder às necessidades dos nossos clientes através de uma oferta diversificada e, mais importante que tudo, com qualidade. É aliás a variedade do sortido que nos distingue, também, nesta área”.

Marcas e insígnias apostam cada vez mais no segmento vegetariano

Já fonte oficial da insígnia do grupo Jerónimo Martins diz-nos que “o Pingo Doce (PD) tem aumentado o número de referências nas suas lojas e espaço para venda destes produtos. Tem também aproveitado campanhas temáticas para destacar esta gama num conjunto mais alargado de lojas (que por limitação de espaço não os têm à venda em permanência)”. A mesma fonte acrescenta que “neste momento já temos alguns artigos vegans com marca Pingo Doce Pura Vida na área de congelados. Sendo uma área em crescimento, o PD tem para 2019 um plano de desenvolvimento de Marca Própria neste segmento”.

Uma intenção também avançada por Vera Fernandes: “A Auchan já comercializa produtos mais clássicos dirigidos ao público vegan, seja através de bebidas vegetais biológicas, seja através de soja texturizada. No próximo ano aumentará o seu portfólio com uma gama de produtos vegans, nomeadamente apostando em refeições prontas, atendendo também à tendência da conveniência”.

Enquanto a fonte oficial do Continente refere que “não temos uma marca específica para produtos vegans, mas temos procurado acompanhar as tendências de consumo, incorporando na nossa gama, particularmente na gama de produtos biológicos, da marca Continente Bio, referências 100% vegans. Exemplos disso são as nossas bebidas vegetais biológicas, as pastas de frutos secos e manteigas de amendoim biológicas, etc.”.

Estudo Nielsen para o Centro Vegetariano
O mais recente estudo do Centro Vegetariano, realizado em setembro 2017 pela AC Nielsen, permitiu também analisar a perceção dos portugueses em relação ao vegetarianismo. Quando questionados acerca do valor nutricional de uma alimentação com base vegetal, 42% dos portugueses concorda que fornece todos os nutrientes essenciais à saúde. Dos inquiridos, 39% indicou ainda conhecer pelo menos uma pessoa que segue uma alimentação exclusivamente vegetal.

“Estes são resultados importantes e mostram uma abertura da população portuguesa a este tipo de alimentação. Isto é consistente com a cada vez mais frequente recomendação da redução de consumo de carne por várias organizações internacionais. Por exemplo, recentemente, a Organização Mundial de Saúde anunciou que o consumo de carnes processadas e vermelhas está associado a um maior risco de vários cancros[1]. A nova pirâmide alimentar Belga também reflete a defesa de maior consumo de vegetais[2] e equipara o valor nutritivo de certo tipo de carne com o de junk food como pizza, bolachas e outros”, refere o Centro Vegetariano.

Classes mais elevadas consomem menos produtos animais
Segundo o mesmo estudo, é nas classes sociais mais elevadas (AB) que se encontram as menores frequências de consumo de carne, peixe e ovos. No âmbito do estudo, foi perguntado aos respondentes com que frequência consumiam carne, peixe, leite e ovos e, das quatro classes sociais consideradas pela Nielsen, verifica-se que é na classe mais elevada que se encontram as menores percentagens de pessoas que afirmam consumir produtos de origem animal com frequência. Por exemplo, no que toca a consumir carne ou derivados frequentemente, são menos de 70% nesta classe, ao passo que nas outras classes a percentagem é sempre superior a 75%. No que toca ao peixe, ovos, laticínios e derivados, o cenário é parecido, com uma diferença sempre superior a 10% da classe AB para as restantes.

As mulheres do sul conhecem mais vegetarianos
Foram mais as mulheres, das classes sociais mais elevadas, e no sul do país, que responderam afirmativamente à pergunta “Conhece pelo menos uma pessoa que siga uma alimentação exclusivamente vegetal?”.

Dos inquiridos, 39% indicou conhecer pelo menos uma pessoa que segue uma alimentação exclusivamente vegetal. Mas o valor é significativamente diferente consoante o género. Enquanto 34% dos homens respondem afirmativamente, são 43% as mulheres que respondem que sim.

Em termos de faixa etária, nota-se uma predominância clara da faixa entre os 25 e os 34 anos, onde quase metade dos respondentes deram resposta positiva. Este valor vai descendo, e para menos de um terço nos 55-64 anos, indicando uma clara tendência crescente para as camadas mais jovens.

Quanto à distribuição geográfica, é interessante notar que no sul mais de metade dos inquiridos indica conhecer pelo menos uma pessoa que segue alimentação vegetariana.

Em termos de classes sociais, nota-se também uma maior popularidade entre as classes mais elevadas, de onde se caminha dos 23% da base para mais de metade das respostas afirmativas nas classes mais elevadas.

Questões relativas a dieta alimentar
À semelhança do estudo de 2007, os participantes foram inquiridos relativamente à frequência com que consomem: Carne ou produtos derivados (Fiambre, Hambúrgueres, Mortadela, Chouriços, Patês,…); Peixe ou produtos derivados (Filetes, Marisco, Patês,…); Leite ou outros laticínios como queijo, manteiga, iogurtes ou outros; Ovos ou produtos com ovos como bolos, doçaria, etc.

Para cada uma das categorias acima, as alternativas de resposta eram “nunca”, “ocasionalmente” e “frequentemente”.

Considera-se que seguem alimentação vegetariana os que responderam “nunca” às duas primeiras perguntas e alimentação vegan os que responderam “nunca” às quatro.

Amostra e metodologia
O estudo da Nielsen para o Centro Vegetariano utilizou uma amostra aleatória e estratificada. Foram realizadas 2000 entrevistas domiciliárias a indivíduos de ambos os sexos, residentes em Portugal Continental e com idades compreendidas entre os 15 e os 65 anos, tendo um erro máximo esperado de +/- 2,2 para um grau de confiança de 95%. As entrevistas foram efetuadas em setembro de 2017.