Cruzo-me com frequência com business plans e avaliações de empresas que assumem pressupostos de crescimento perpétuo (perpetuidades) próximas ou superiores a 10%. Sendo esta a taxa de crescimento composta, i.e. aplicada sobre uma base de incidência crescente, o pressuposto implícito à sua utilização é que uma empresa pode crescer exponencialmente para sempre, conseguindo todos os anos desenvolver novas fontes de receita, encontrar novos consumidores ou aumentar os seus preços acima da inflação.
Para melhor se perceber a premissa do perpétuo crescimento considere-se que uma empresa que, mantendo constante a sua rentabilidade, cresce a uma taxa anual média de 8% (valor próximo, por exemplo, do crescimento médio anual da economia chinesa durante a década de 2000) duplicará o seu valor em 10 anos.
Abundam obviamente as empresas que atingiram esse objectivo, inclusive em muito menos tempo. Mas, por cada empresa que cresce de forma espectacular, muitas mais crescem a taxas modestas, nulas ou mesmo negativas.
Portugal e a comunidade de países desenvolvidos, representada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), deparam-se hoje com uma generalizada desaceleração ou mesmo estagnação do crescimento: menos de 25% do crescimento mundial é hoje realizado nas economias maduras e abertas da OCDE.
Esta assimetria de crescimento é expectável e, numa perspectiva global da condição humana, bem-vinda. A redução de barreiras – físicas, linguísticas, processuais, fiscais, etc. – à transmissão de bens e serviços favorece os países com menor custo de mão-de-obra e, consequentemente, menor rendimento económico, fazendo a riqueza fluir para onde é mais necessária e onde tem maior impacto na criação de bem-estar.
Mais que no crescimento económico, é no aumento desta condição – o bem-estar – que devemos priorizar a nossa acção. Foi com esse intuito que, por iniciativa do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), foi criado o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), indicador composto pelos principais factores considerados pelos autores como mais importantes para o bem-estar humano: longevidade, educação e sim, também rendimento económico.
Nas três décadas decorridas entre 1980 e 2010 o nosso principal indicador de rendimento – PIB per capita medido a preços correntes e ajustado ao poder de compra – evoluiu de 63 para 75% da média da OCDE. No mesmo período o nosso IDH convergiu de 85 para 93% da média daquela organização.
Não somos, e provavelmente nunca seremos, o campeão do crescimento económico. Mas, com o foco certo e as prioridades alinhadas, continuaremos seguramente a ser um país desenvolvido, onde a condição humana prospera. Quem conhece um pouco o mundo concordará que isso vale muito mais que crescer 10% por ano.
“Human development, as an approach, is concerned with what I take to be the basic development idea: namely, advancing the richness of human life, rather than the richness of the economy in which human beings live, which is only a part of it.”
Amartya Sen, Prémio Nobel da Economia em 1998 e co-criador do IDH
A ausência de crescimento é, apesar de tudo, melhor processada a nível macro-económico do que a nível empresarial. Muito poucas organizações (e respectivos investidores) estão hoje preparadas para viver um período prolongado sem crescimento. No próximo artigo procurarei abordar o impacto organizacional da ausência de crescimento e discutir formas de o gerir.

