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Mais transparência e segurança: as promessas do Blockchain no retalho

Mais transparência e segurança: as promessas do Blockchain no retalho

Mercado português ainda está em fase incipiente, mas já há provas de conceito em operação.

Quando David Katz e Shaun Frankson criaram o Plastic Bank, uma empresa que transforma lixo plástico em moeda de troca de bens, esbarraram com um dilema: como ultrapassar os riscos e desconfianças de um sistema baseado em numerário? A organização tem supermercados em regiões com grandes lixeiras ao ar livre, como o Haiti, em que os consumidores pagam com pedaços de lixo em vez de dinheiro. Esse lixo é depois reciclado e vendido a grandes empresas europeias, que o reutilizam nos mais variados produtos. O modelo de negócio é tão inusual que os dois fundadores canadianos decidiram recorrer a uma tecnologia cuja principal característica é produzir registos invioláveis. Foi assim que surgiram os ‘tokens’ digitais baseados em blockchain que os utilizadores dos supermercados Plastic Bank recebem quando entregam lixo recolhido das ruas e usam para “pagar” bens.

Esta solução da empresa canadiana é um bom exemplo da aplicação de blockchain para resolver problemas no retalho, um mercado que está apenas a começar e envolve diversas vertentes. Rui Serapicos, presidente da direção da Aliança Portuguesa de Blockchain, explica à Distribuição Hoje que, a par dos serviços financeiros e sector público, “o retalho é o sector que está a olhar com uma maior atenção para o que é blockchain e para o que é possível fazer com esta tecnologia.”

No caso do Plastic Bank, é uma questão de segurança, confiança e transparência num negócio novo. Mas há muito mais áreas de aplicação. Alguns dos projetos mais sonantes estão a ser desenvolvidos por grandes cadeias, como a Wal-Mart nos Estados Unidos e a Carrefour em França.

O primeiro caso é emblemático, pela dimensão deste grupo de retalho e pela importância do segmento de aplicação. A Wal-Mart tem em produção um sistema baseado em blockchain que permite o rastreamento dos alimentos desde os agricultores até às prateleiras do supermercado, o que implica que os seus fornecedores contribuam para os registos. É um mega projeto de segurança alimentar, impulsionado por diversos casos de contaminação que obrigaram esta e outras cadeias a retirarem produtos até se descobrir a origem do problema. No ano passado, um surto de salmonella em papaias nos Estados Unidos matou duas pessoas e infetou centenas de outras em mais de metade do país, mas as autoridades demoraram cerca de dois meses a descobrir o foco de contaminação. Nesse período, as cadeias de supermercado tiveram que retirar todas as papaias de circulação.

São casos como este, onerosos para as empresas e perigosos para o público, que a Wal-Mart quer evitar com a utilização de blockchain para rastrear os alimentos e aumentar o grau de confiança nos seus fornecedores. A Food Safety Network foi desenhada e está a ser operada em conjunto com a IBM, talvez a tecnológica que mais tem investido na área.

Também a cadeia francesa Carrefour está a usar blockchain para assegurar a rastreabilidade de alguns produtos – começou com frango e alargou para o tomate, sendo expectável a sua extensão a outros alimentos.

E em Portugal?

A Aliança Portuguesa de Blockchain admite que o estado do mercado português ainda está “naturalmente menos evoluído”, mas frisa que a tendência é de crescimento. “As retalhistas portuguesas ou a operar em Portugal estão a olhar para blockchain e a tentar perceber o que podem fazer com esta tecnologia e como a podem aplicar para benefício tanto das operações da empresa como para os consumidores”, afirma. “Quando estas soluções forem aplicadas, todos os pontos da cadeia de valor de um determinado produto, desde o produtor ao consumidor, passando naturalmente pelos vendedores, vão beneficiar e muito de blockchain.”

A proposta da empresa portuguesa BitCliq segue precisamente este conceito, aplicado à cadeia de fornecimento do peixe – desde o mar até à mesa. A startup criou a uma solução para a pesca, denominada Big Eye Smart Fishing, que ajuda à sustentabilidade da atividade e permite rastrear o peixe a partir do momento da captura até chegar ao retalho. Uma das componentes da plataforma da BitCliq é um sistema de procurement B2B baseado em Public Ledger, garantindo um nível de confiança nos fornecedores que até aqui era difícil de atingir. “A Big Eye é uma solução que permite que o consumidor saiba que o peixe que está a comer foi pescado de uma forma sustentável e que não coloca em perigo o ecossistema”, acrescenta o presidente da Aliança Portuguesa de Blockchain.

Paulo Rodrigues da Silva, executivo de vendas e entrega para IBM Global Markets, sublinha que as principais cadeias de retalho em Portugal “estão atentas a estes desenvolvimentos” e “tem havido diálogo” com a tecnológica “no sentido de encontrar casos de uso tendo em conta as necessidades específicas do nosso mercado e das cadeias que nele operam.”

O responsável acrescenta que estão a ser feitos estudos nos departamentos de inovação das grandes cadeias portuguesas para avaliar os casos de uso apresentados pela IBM. No entanto, isto não se limita ao uso do blockchain, mas também abrange a aplicação de outras inovações, como automação de processos, chatbots e inteligência artificial. “A priorização dos projetos piloto aponta algumas das outras áreas como tendo maior impacto a curto prazo”, reconhece Paulo Rodrigues da Silva, “pelo que a expectativa é que o blockchain ganhe maior relevância uma vez testadas e aplicadas um conjunto de outras inovações.” A boa notícia é que a IBM Portugal criou uma nova prática de blockchain na sua divisão de consultoria e tem a expectativa de que “algumas implementações possam avançar a médio-prazo, possivelmente ainda em 2019.”

Mais hype que sucesso?

É precisamente sobre o impacto do blockchain a curto prazo que a Gartner se debruça num relatório recente. Apesar da explosão de soluções baseadas em blockchain para diversos sectores, a consultora avisa que a tecnologia está numa fase crítica de expectativas inflacionadas e que a taxa de implementações de sucesso ainda é muito baixa. “É fundamental compreender o que é o blockchain e do que é capaz hoje, comparado com a forma como irá transformar empresas, indústrias e a sociedade amanhã”, explica David Furlonger, vice presidente e fellow da Gartner. O analista avisa mesmo que a adoção de blockchain está a passar por um “hype” massivo e que apressar projetos de implementação poderá levar a “problemas significativos” de investimento desperdiçado, inovação falhada, decisões imponderadas e rejeição de uma tecnologia que será muito disruptiva no futuro.

Compreender estas diferenças será importante no médio e longo prazo, em que se prevê um crescimento muito acelerado das aplicações baseadas na tecnologia. As estimativas das consultoras para os próximos anos variam muito em termos de volume – vão dos 7 aos 60 mil milhões de dólares em 2024 – mas todas antecipam crescimentos anuais na ordem dos 50%. A lista de players também continua a alargar, com IBM, Microsoft, Deloitte Touche, Intel, Ripple e outros à cabeça.

“A tecnologia blockchain tem alcance para penetrar em todas as grandes indústrias verticais que incluem banca, serviços financeiros e seguros, informação e comunicação, governo e sector público, saúde, logística, cadeia de fornecimento e transporte, e-commerce e retalho”, escreveu a consultora IndustryARC num relatório recente.

Obstáculos no caminho

No CIO Survey de 2018, a Gartner descobriu que apenas 1% dos diretores de sistemas de informação têm em curso projetos de blockchain, e que só 8% planeiam fazê-lo no curto prazo. O número mais impressionante da pesquisa foi, no entanto, que 77% dos CIO não tem qualquer interesse na tecnologia. Porquê? O problema mais citado é o dos recursos humanos especializados. A implementação de blockchain requer profissionais com capacidades específicas, num mercado de trabalho que já se depara com escassez crónica de recursos. Depois, há também a mudança de cultura no departamento de TI. “O desafio para os CIO não é só não encontrar e reter os engenheiros qualificados, mas encontrá-los em número suficiente para acomodar o crescimento de recursos à medida que crescem as implementações de blockchain”, afirma Furlonger.

Isso ajuda a explicar porque é que a maioria dos projetos de implementação no retalho está a ser feita por cadeias gigantescas e poderosas, com flexibilidade orçamental e atratividade suficiente para recursos especializados. Rui Serapicos adianta que já existem provas de conceito a serem feitas no retalho em Portugal, mas os operadores “ainda não estão a disponibilizar informações sobre a aplicação de blockchain nas suas atividades.” É possível, no entanto, encontrar exemplos mais concretos noutros sectores, com projetos conhecidos em empresas como a Fidelidade, Almedina, REN, Abreu Advogados, EMEL, Associação Portuguesa de Seguradores e BCSD Portugal. A nova prática que a IBM Portugal desenvolveu para blockchain vai ter um foco inicial na área financeira, mas irá apoiar-se nos centros de inovação da empresa com a expectativa de desenvolver iniciativas para áreas como a logística, transportes e sector público, tendo em conta necessidades manifestadas por clientes da tecnológica.

“As empresas portuguesas têm no seu ADN a necessidade de inovação e seria de estranhar que o interesse em blockchain não aumentasse com o passar do tempo”, afirma Rui Serapicos. “Os benefícios são notórios e é uma questão de tempo até que as empresas, sejam ou não do sector do retalho, comecem a utilizar as suas soluções de Blockchain ou as comecem a testar através de projetos-piloto ou provas de conceito.”