Especial Sustentabilidade

“Se toda a arquitetura dos negócios mudar para que sejam sustentáveis, os consumidores não terão outra opção que não ser sustentáveis”

“Se toda a arquitetura dos negócios mudar para que sejam sustentáveis, os consumidores não terão outra opção que não ser sustentáveis”

É Diretor de Consumo e Produção Sustentáveis no The Institute for Global Environment Strategies, e como co-líder representante do Japão para o programa de 10 anos da ONU sobre estilos de vida sustentáveis, Lewis Akenji quer provar que todos podemos contribuir.

Defende que a possibilidade de reciclar ‘distrai’ os consumidores de estratégias mais ‘verdes’ na gestão de desperdício, levando-nos a consumir mais. Na sua opinião, a única forma de termos um mundo mais sustentável é através da transformação do nosso estilo de vida.

Quer que adotemos todos um estilo de vida mais sustentável…mas como é que se define o que é um estilo de vida sustentável?
Essa é uma pergunta muito relevante, porque muito frequentemente, quando pensamos em pessoas, pensamos nelas enquanto consumidores, mas existem muitos outros prismas pelos quais podemos olhar para as pessoas. Podemos pensar nas pessoas como cidadãos, vizinhos, amigos e por aí fora. E o mais interessante é que, talvez nas últimas décadas, o papel do consumidor tornou-se mais relevante e mais forte. E por isso, se queremos começar a definir o que um estilo de vida sustentável é, temos de começar a olhar para o que são os hábitos e as práticas que cada cidadão pode ter que permitem que tenham respeito pelo ambiente ao mesmo tempo que garantem o seu bem-estar.

Este é um conceito que está no centro de como devemos atuar para responder às nossas necessidades na sociedade e como podemos participar como membros da sociedade, mas sem prejudicar o ambiente.

E é possível respondermos a todas as nossas necessidades e ao mesmo tempo protegermos o ambiente?
É completamente possível. Somos parte da Natureza, e sempre fomos, mas o problema é que as nossas práticas económicas têm vindo a afastar-nos da natureza. Na verdade, não há outra escolha senão fazê-lo.

E qual é o papel das empresas? É que muitas continuam com medo das implicações que esta transição pode ter, nomeadamente perda de lucratividade…
Essa é uma parte fundamental da discussão: as empresas têm um papel a desempenhar na sociedade. O contributo de dar opções às pessoas, de responder às suas necessidades…

Na verdade, tem havido um mal-entendido acerca da sustentabilidade nos últimos anos: é a ideia de que este conceito vai contra a lucratividade do negócio. Isto é completamente mentira. Temos de corrigir esta ideia e temos de o fazer rapidamente, o que me leva à sua questão. A resposta é categoricamente, sim! E sim, acho que há razões para preocupação. A sustentabilidade vem com restrições na utilização de recursos e no tipo de produtos que podem ser colocados no mercado. Por isso, sim, eu diria que as empresas devem estar preocupadas, contudo, temos de operar dentro de limites ecológicos.

Não temos recursos infinitos. A questão para as empresas deve ser: como é que criamos modelos no futuro que nos permitam responder às necessidades da sociedade, mas sem ultrapassar as barreiras ambientais. Esta é uma conversa que as empresas precisam de começar a ter.

Existe uma visão genuína de que, a curto prazo, as empresas que produzam de forma mais sustentável possam correr maior risco, mas existem evidências suficientes de que a longo prazo serão estas as empresas a sobreviver.  As empresas devem começar esta transição muito rapidamente antes que esse espaço seja ocupado.

E quem deve dar o primeiro passo nesta transição: as empresas ou aqueles que são responsáveis pelo desenvolvimento de políticas [Governos]?
Ambos! Claro que antes os decisores políticos devem garantir que as empresas que já estão a adotar estas preocupações na sua forma de atuar não estão em desvantagem em relação às outras. Estas empresas devem ter uma oportunidade justa, porque se a sustentabilidade for um elemento de desvantagem para estes negócios, isso é um problema.

Para além disso, temos de perceber que as empresas não respondem apenas a necessidades, também ‘constroem’ necessidades e desejos. Por isso, desempenham um papel fundamental no que diz respeito a dar este ‘empurrão’ para que a sociedade adote práticas mais ecológicas e sustentáveis. Isto quer também dizer que as empresas podem liderar esta ‘arquitetura de escolha’. Esta arquitetura é extremamente importante, porque está nas mãos das empresas e dos seus investidores reconfigurar o sistema. A sociedade irá atrás. Por outro lado, não podemos ser um negócio se não tivermos consumidores. Temos de obrigar os consumidores a pensarem com muito cuidado as decisões que fazem.

Como podemos levar os consumidores a viver uma vida mais sustentável?
Tem muito a ver com consciencialização, mas isso não é suficiente! Implica uma mudança de estilo de vida, mas a questão é: ‘O que é que pode ser um catalisador dessa mudança?’. Alguém disse um dia, acho que num filme: ‘If you build it, they will come’.

Claro que se toda a arquitetura de todos os negócios mudar para que todos os negócios sejam sustentáveis, os consumidores não terão outra opção que não ser sustentáveis. Certo? As empresas podem tomar a dianteira. E, já agora, é bom para as empresas assumirem essa liderança. Se não o fizerem, os consumidores vão preferir aquelas que o estão a fazer. Existem evidências suficientes de que as pessoas estão a fazer essa transição e existe tanta inquietação entre consumidores, cidadãos, sociedade à volta destas questões… As empresas não podem ser ‘surdas’ em relação a estes temas.

Quando é que acha que esta mudança vai mesmo acontecer?
Eu acho que a questão é mais se queremos ser forçados a fazer essa transição ou se queremos liderar essa transição. Existem evidências de que se não baixarmos as emissões causadas pelo nosso consumo alimentar de forma substancial, até 2050, teremos de enfrentar o aumento de temperatura, etc. Queremos, ou não, uma transição bem planeada para passarmos do sítio onde estamos atualmente para uma realidade mais sustentável e que nos permita garantir o futuro das próximas gerações?