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Retalho

Produtos biológicos “são mais caros e têm que ser!”

Villa Bio destaque Distribuição Hoje
A necessidade aguça o engenho e no caso de Sandra Perestrello e Nuno Heleno foi o suficiente para concretizar uma vontade antiga. Ambos apaixonados por ‘biológicos’, decidiram apostar num negócio “com potencial” e em março abriram no Restelo o VillaBio, um supermercado de produtos biológicos com uma missão.

Depois de vários anos a trabalhar na área da comunicação e do marketing, os responsáveis pelo novo supermercado de produtos biológicos do Restelo, viram-se obrigados a procurar uma alternativa profissional depois da multinacional onde trabalhavam ter decido fechar portas na Europa.

“Trabalhámos os dois durante muitos anos na área da comunicação e do marketing e entretanto a empresa onde nós estávamos decidiu fechar portas. Por isso, tivemos necessidades de procurar um novo caminho, um novo projeto”, conta Nuno Heleno.

Ambos consumidores de biológicos há muitos anos, decidiram unir esforços e juntar-se na estreia neste setor de negócio, uma “corrente nova na qual acreditamos”, contam-nos. Mas para além da necessidade de criar uma alternativa de emprego, e da paixão associada ao negócio, o terceiro ponto, e talvez o mais importante para a criação do negócio, foi o “potencial”.

“É um mercado que está a crescer e faz todo o sentido apostar nesta fase, porque é uma oportunidade que está ter um crescimento grande a há cada vez mais gente adepta deste conceito”, refere Nuno Heleno.

Sem nunca terem tido um negócio próprio, a preparação para serem empresários foi grande. Sandra Perestrello revela-nos que “tivemos muita ajuda. Para já, somos pessoas de uma geração em que o comum era tirarmos cursos, encontrar um emprego… Fazer a passagem desse tipo de vida para a abertura de um negócio próprio exige todo um ajuste e adaptação, nomeadamente do ponto de vista pessoal e familiar, que não é fácil. E tivemos que procurar ajuda, não só para a parte do negócio em si, do ponto de vista da gestão, mas em específico também para aprendermos mais sobre o mercado dos biológicos, ao nível dos fornecedores, para perceber que produtos iriam ter, o que funciona melhor. No fundo para perceber que ‘fórmula’ poderia funcionar. Pedimos ajuda a lojas que já existiam em Lisboa e procurámos ajuda junto de empresas para a parte da apresentação do projeto e viabilidade económica.”

A procura de fornecedores

O processo de procura de fornecedores foi uma das partes mais trabalhosas e ainda não está concluído. “Os fornecedores ainda estão a aparecer, porque isto depois acaba por ser um pouco uma ‘pescadinha de rabo na boca’: nós vamos atrás dos fornecedores e damos privilégio à produção nacional, portanto tudo o que é produção nacional andamos a ver o que é que existe e qual é a viabilidade de termos aqui à venda. Claro que também há produtores que vêm ter connosco. Sabem que nós abrimos, que existimos, e já estão noutras lojas, e vêm apresentar os seus produtos e as mais-valias que nos podem oferecer. Depois temos esse jogo normal de apresentação das condições comerciais da marca. Depois temos também como um dos nossos objetivos dar a conhecer marcas novas, que estejam a surgir no mercado. Queremos ser um sítio onde uma marca nacional pode chegar e lançar o seu produto. Já tivemos aqui a apresentação de um chocolate produzido artesanalmente cá em Portugal, de um senhor que construir uma ‘fábrica’ em casa…Esse tipo de lançamentos é uma coisa que nos agrada apoiar.”

Villa Bio - fotos Bruno Veiga - Distribuição Hoje
Nuno Heleno, sócio da Villa Bio, refere que é de salutar as relações que tem sido possível criar no mercado dos produtos biológicos. “Há um aspeto que é interessante, que é a relação saudável, digamos assim, que eu acho que se consegue estabelecer neste mercado do biológico com os fornecedores e entre as outras lojas que estão neste mercado. Existe uma entreajuda muito grande. Os fornecedores, por perceberem que é um projeto novo, querem estar presentes. É um meio mais pequeno do que no convencional e por isso funciona de uma maneira um bocadinho diferente. As pessoas ajudam-se mais, nitidamente, e nós percebemos isso.”

E apesar da forte concorrência no setor dos produtos biológicos, com novos conceitos a surgirem frequentemente, Nuno Heleno e Sandra Perestrello acreditam que “a nossa loja é diferente das outras. O nosso projeto, do ponto de vista comercial, nasceu como uma mercearia, mas pretende relacionar-se com uma determinada postura de vida. Nós estamos nisto, os dois, por convicção. Não somos empresários que abrem um negócio conforme aquilo que está a dar, e que está na moda. Somos consumidores de biológicos, quando dizemos a alguém para comer determinado produto biológico é porque já o fizemos também, porque damos aos nossos filhos. É uma convicção nossa e nós de facto criámos todo este projeto como uma postura de vida e nós, nesta missão, queremos informar ao máximo as pessoas, queremos levar este estilo de vida ao maior número de pessoas possível porque acreditamos que isto é uma mais-valia e que é um investimento na nossa saúde e uma forma de prevenir certas doenças que possam vir a aparecer.”

“A postura de vida que queremos promover aqui não tem só a ver com a alimentação. Temos disponíveis consultas de nutrição, para que as pessoas possam aprender a alimentar-se, quer queiram perder peso ou passar a ser vegetarianos.  Essa é também uma das coisas que é preciso perceber-se: ser vegetariano é uma coisa que também tem que se aprender. Seja ser vegetariano ou vegan, ou não comer alimentos com glúten. Há certas dietas hoje em dia muito faladas e muito na moda, mas é importante aprender a eliminar esses alimentos. Não é só tirar! É preciso saber gerir isso e estar acompanhados por alguém que sabe. É para isso que temos as consultas de nutrição”, acrescenta Sandra Perestrello.

Entre as categorias de produtos já disponíveis na loja estão os frescos, com vários legumes e frutas, produtos a granel, azeites, vinagres, compotas, bolachas, tostas, leguminosas, sumos, batatas fritas, pipocas, gomas, chocolates, vinhos, queijos, laticínios, congelados, cosmética, bebidas vegetais, pensos higiénicos, detergentes e papel. E muitos deles, diz Sandra, já são nacionais. “Já existem bastantes produtores nacionais de produtos biológicos. De acordo com os últimos dados eram, há dois anos, já cerca de 2000 produtores em Portugal. A maioria de frescos obviamente”, refere.

Um dos problemas que querem agora combater é a falta de informação que ainda existe sobre os produtos biológicos. “As pessoas ainda duvidam da veracidade de ser biológico e é importante que se entenda que a produção biológica é muito controlada. As pessoas quando têm uma produção biológica certificada são alvo de um controlo muito grande das empresas certificadoras que estão muito atentas a qualquer indício que possa indicar alguma dúvida. E há uma série de regras que este tipo de produtores têm que forçosamente cumprir. Os produtores têm um certificado e como é óbvio nós confiamos neles. Depois quando estamos a falar de produtos biológicos temos também que perceber que só podemos vender produtos da época, por isso, quando não há peras é porque não há peras. A alternativa é irmos buscar a um produtor internacional ou então simplesmente não vendemos. E as pessoas que consomem este tipo de produtos também já estão consciencializadas para isso”, acrescenta Sandra Perestrello.

O bio é caro?

Outra das ideias pré-concebidas que querem combater é a questão do preço dos produtos. Nuno Heleno defende que os produtos biológicos “são de facto mais caros e têm que ser”, mas Sandra Perestrello acredita que estão a conseguir desmistificar a ideia de que são todos mais caros, porque “nem sempre são”. “As pessoas muitas vezes chegam aqui e veem o preço de um creme, por exemplo, e acham até que é mais barato do que aquele da marca XPTO que costumam comprar. E eu explico ‘Está a ver? E estes não têm os químicos e coisas que são nocivas à nossa pele’. E a verdade é que nós conseguimos às vezes ter aqui produtos, como os frutos secos, a preços mais baratos do que na sua versão convencional. Há coisas que são realmente mais caras. Não há dúvida, é como irmos a uma loja gourmet, é óbvio que vamos gastar mais, mas depois também sabemos de onde vêm. Temos por exemplo uma produtora de bolachas que faz tudo artesanalmente, sozinha, e isso tem que se pagar. E quando se explica, as pessoas entendem. Começam a entender que é diferente de comprar um pacote de bolacha Maria no Continente. Daqui levam um pacote com menos quantidade, é um facto, mas que foi preparado com outro cuidado, que não tem adição de açúcares nem nada refinado nem nada que se pareça”, refere.

Nuno Heleno reforça ainda que no que diz respeito ao preço “há uma questão que eu acho importante, sobretudo no que diz respeito aos frescos, e aos hortofrutícolas a nível nacional. Se forem biológicos são mais caros de facto, mas têm que ser mais caros, nem que seja por uma questão de respeito pelo produtor. É completamente diferente produzir um hectare de laranjeiras em biológico e produzir esse mesmo hectare no convencional. No convencional o produtor numa manhã vai com um trator e fertiliza aquilo tudo e está feito. No biológico existe outro tipo de acompanhamento da produção, mais tempo gasto, mais mão-de-obra e obviamente que o produto final tem que ser mais caro. E nunca se consegue obter uma produção tão grande como no convencional. Se olharmos para aquilo que se paga ao produtor no convencional e aquilo que se paga ao produtor no biológico é mais justo aquilo que se paga ao produtor no biológico e isso tem que se refletir no preço do consumidor final, porque chega a ser perverso o preço que se paga no convencional pela produção. É uma coisa absolutamente incrível.”

Quanto à concorrência, que continua a aumentar com cada vez mais empreendedores e até grandes cadeias de distribuição a apostarem em conceitos dedicados aos produtos biológicos, Sandra Perestrello admite não temer o aumento da oferta.

“Isto no fundo é como quando começaram a abrir as grandes superfícies, os grandes supermercados e hipermercados. É verdade que deitou abaixo muito comércio de rua, é um facto, mas neste mercado não sei se será assim. E também acho que existe agora um recuperar das tradições. Aliás nós na nossa comunicação, o Villa foi precisamente pensado para transmitir essa ideia de ir à vila, porque antigamente íamos à vila comprar o pão e as coisas que precisávamos e é precisamente para nos remeter para esse modo de vida antigo. O nosso claim também aponta para isso, ‘Com os pés na terra’, para o recuperar desse conceito. Não sei se será uma ameaça, até porque também existem produtos biológicos no Jumbo, no Continente, no Pingo Doce. Acho que nós temos um fator que essas cadeias não têm: as pessoas que moram aqui têm a mercearia mesmo aqui ao lado, que tem um bocadinho de tudo, podem comprar aqui tudo o que precisam, sem ter que estar a ir mais longe. Todas essas superfícies que têm também produtos biológicos já existiam antes de nós abrirmos e, no entanto, isto está a correr bem e as pessoas dizem-nos que gostam de ter aqui a loja”, conclui.

Artigo publicado na edição de julho/agosto de 2016 da revista DISTRIBUIÇÃO HOJE

 

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