Especial Sustentabilidade

“É muito difícil tomar decisões que sejam amigas do ambiente porque os sistemas que estão por detrás não o apoiam”

“É muito difícil tomar decisões que sejam amigas do ambiente porque os sistemas que estão por detrás não o apoiam”

Kari Herlevi, Diretor de Projeto para a Economia Circular do SITRA – The Finnish Innovation Fund, acredita que só em 2030 estaremos mais próximos de uma sociedade ambientalmente positiva, com a circularidade a contribuir para a diminuição do desperdício. À DISTRIBUIÇÃO HOJE explicou o que é que Portugal pode aprender com o modelo finlandês.

Uma melhor utilização dos materiais que já existem e a implementação de modelos de negócio circulares pode conduzir a indústria da União Europeia a um futuro de ‘emissões zero’. Kari Herlevi defende que uma Economia Circular cria oportunidades para a recirculação de materiais, redução de desperdício na produção e implementação de novos modelos de negócio assentes na partilha.

A Finlândia é vista como um dos maiores impulsionadores em questões da sustentabilidade e Economia Circular, na Europa, e como um caso de estudo. Quais foram os maiores avanços que já se fizerem no país?
Na Finlândia, começámos por criar o ‘National Roadmap for Circular Economy’ no fundo para percebermos para onde é que o país deveria ir e que passos é que seriam necessários para atingir mais circularidade na sociedade como um todo.

Se pensarmos nos consumidores, é muito difícil, hoje em dia, tomar decisões que sejam amigas do ambiente, porque os sistemas que estão por detrás não o apoiam. Foi também por isso que decidimos criar, por volta de 2015/2016, uma estratégia e mostrar algumas ações que o país já tinha implementado para mostrar aos finlandeses ‘É isto que já fazemos e podemos fazer muito melhor no futuro’.

Depois disso começámos a trabalhar ao nível das políticas nas cidades, junto dos municípios, mas também junto da indústria. Num país pequeno como a Finlândia, é fácil colocar estes agentes a trabalhar em conjunto, mas acredito que num país maior é difícil até estabelecer uma estratégia e perceber quais devem ser as áreas de foco.

Na Finlândia, começámos por nos focar num sistema alimentar sustentável e em questões como a bioeconomia e a economia circular na indústria [como a construção e a eletrónica, que são muito fortes no país], mas também nos transportes e na logística. Se pensarmos no dia a dia das pessoas, tem muito a ver com comida, espaços para viver e, claro, os transportes, que são uma parte muito importante na vida das pessoas. Foi sobretudo por isso que decidimos focar-nos nessas áreas.

Que conquistas já fizeram?
Quando se fala em Economia Circular, a reciclagem é, na minha opinião, aquilo em que as pessoas pensam em primeiro lugar e, sim, isso é importante, mas mais importante é focarmo-nos no lado do design, para que seja mais fácil fazer circular os materiais. Esse é o primeiro passo e pode ajudar a reciclagem.

Outro dos aspetos chave que fizemos ao nível do consumidor foram os testes de lifestyle para perceber se alguém é uma ameaça ou uma oportunidade para o ambiente. Fizemos cerca de 600.000 testes, o que mostra que nos países nórdicos as pessoas estão muito interessadas neste tipo de questões, mas ainda é preciso passar para a ação.

Quais são as maiores barreiras à adoção de estilos de vida mais sustentáveis, ou mais circulares, se lhe quisermos chamar assim?
Por um lado, hoje em dia ainda é muito difícil saber que produtos são sustentáveis porque ainda não existem métricas comuns na alimentação, por exemplo. Como é que se sabe o quão sustentável é determinado produto? Este é um problema estrutural que deve ser resolvido ao nível do sistema e das políticas e a investigação também poderá ajudar-nos a fazer escolhas mais fáceis.

Por outro lado, se calhar só cerca de 5% das pessoas é que são realmente ‘amigas do ambiente’. Como é que se abordam os restantes? Se calhar para os restantes o mais importante não é tanto o ambiente, mas o preço, o quão conveniente o produto é, a saúde…Tem de se pensar em todas estas ‘frações’. Mas é possível. Em Amesterdão, praticamente só vemos bicicletas a circular nas ruas…

 O SITRA identificou modelos de negócio que podem ser relevantes para a Economia Circular. Pode falar-me um pouco disso?
Percebemos que para mudar a forma de pensar das empresas temos de abordá-las com algumas soluções e por isso criámos cinco ‘visões’ para a Economia Circular e reunimos uma lista de 100 empresas finlandesas e fizemo-las olhar para modelos de negócios mais circulares com exemplos que poderiam implementar.

É possível as empresas continuarem a ser lucrativas mesmo com práticas mais sustentáveis?
Claro que é possível. Se pensarmos no IPCC Report [Relatório sobre o Aquecimento Global] e na regulação, vemos que estamos a chegar lá. Por isso, as empresas têm de começar a transformar-se o quanto antes, caso contrário terão dificuldades de transição mais tarde. É importante começarmos a usar energias renováveis, sermos inteligentes com os materiais, etc, etc, etc…