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Insetos vão chegar aos nossos pratos

Insetos vão chegar aos nossos pratos

2019 poderá ser o ano em que os insetos vão chegar aos nossos pratos. A aprovação do uso da proteína de inseto na alimentação humana na UE deve avançar no segundo semestre deste ano. Em Portugal já há várias empresas a testar a produção de insetos e farinha de inseto, bem como produtos finais – barras proteicas, massas, etc. – e há também interesse da indústria alimentar nesta proteína altamente nutritiva e mais sustentável.

A sustentabilidade é mesmo o fator-chave para a aposta na proteína de inseto na alimentação humana (e animal). Sabemos que em Portugal e nas restantes sociedades ocidentais não há tradição de comer insetos, mas a necessidade de proteína alternativa e mais sustentável para alimentar uma população mundial crescente impõe-se. E “sentimos que o consumidor está cada vez mais recetivo”, afirma Guilherme Pereira, fundador e CEO da Portugal Bugs.

Mas, “de momento não existe nenhuma espécie de inseto aprovada pela União Europeia (UE) para ser utilizada para alimentação humana”, afirma José Gonçalves, fundador da Nutrix e vice-presidente da Associação Portuguesa de Produtores e Transformadores de Insetos (APPTI), com o pelouro da alimentação humana. Mas o responsável refere que há seis países – Bélgica, Holanda, Finlândia, Dinamarca, Áustria e Reino Unido – que conseguiram ter um período de transição, até 31 de dezembro de 2019, para que “as empresas que já operavam no mercado a 1 de janeiro de 2018 (quando entrou em vigor o novo Regulamento Europeu dos Novos Alimentos) pudessem continuar a fazê-lo, com a obrigatoriedade de apresentarem dossiers de pedido de autorização à Comissão Europeia (CE) até final de 2018”.

Assim, há dossiers submetidos envolvendo cinco espécies de insetos para alimentação humana: Acheta domesticus, Gryllodes sigillatus, Alphitobius diaperinus, Tenebrio molitor, Locusta migratoria”.

Em todos os outros países, inclusive Portugal, não se podem comercializar produtos com insetos para alimentação humana, “com algumas exceções em França e na Alemanha, devido a produtos específicos, por particularidades da legislação destes países”, diz José Gonçalves. De qualquer forma, este período de transição criou uma situação de desigualdade: “Neste momento temos uma Europa a duas velocidades”, refere o vice-presidente da Portugal Insect, “criando uma situação de concorrência desleal”.

Uma situação que a Associação está a tentar pressionar para ser alterada, em conjunto com outras congéneres e a International Platform of Insects for Food and Feed (IPIFF).

Uma produção sustentável
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), cerca de 2.000 milhões de pessoas consomem insetos regularmente, mas na Europa não há histórico de consumo, por isso são considerados Novos Alimentos e requerem parecer da Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA), antes da aprovação (ou não) da CE.

Insetos vão chegar aos nossos pratosO fundador da Nutrix, que está a trabalhar na produção do grilo doméstico para transformação em farinha a ser introduzida como fonte proteica alternativa e sustentável em alimentos tradicionais como bolachas ou pão, frisa que “a sua produção provoca um menor impacto ao nível do consumo de água, utilização de solo arável e emissões para a atmosfera, quando comparada com a produção de outras proteínas animais, como a carne”.

A sustentabilidade e aumento da autossuficiência da Europa em termos de proteína são dois dos grandes argumentos para a produção de insetos para a alimentação animal e humana, que além disso, aposta igualmente na Economia Circular. Isto porque, a par da produção de insetos, várias empresas (como a Portugal Bugs e EntoGreen – que está a produzir mosca soldado negro para transformar em farinha e óleo e posterior incorporação em rações para animais) vão também produzir fertilizante orgânico que resulta da bioconversão que as larvas fazem dos subprodutos agroalimentares de que necessitam para se alimentarem e crescerem.

Indústria atenta ao setor
Tanto a Portugal Bugs como a Nutrix referem que têm sentido interesse da indústria agroalimentar principalmente na farinha de inseto, “uma vez que, tudo indica, que será a melhor forma de introduzir os insetos na alimentação humana, de uma forma disfarçada”, diz-nos Guilherme Pereira, mas salienta: “Estão à espera de sermos nós a entrar no mercado para ver a reação dos consumidores”.

Por seu lado, Pedro Queiroz, diretor-geral da Federação das Indústrias Portuguesas Agroalimentares (FIPA) adianta à DISTRIBUIÇÃO HOJE: “Naturalmente que a indústria está atenta e pesará sempre os eventuais benefícios da incorporação desta proteína, desde que haja a garantia de segurança alimentar, o devido enquadramento legal e a boa aceitação por parte dos consumidores”.

Guilherme Pereira considera “um exagero” as questões de segurança alimentar que têm vindo a ser levantadas pela UE, salientando que “a produção é o ponto crítico, o que lhes damos de comer, o meio ambiente onde crescem e a forma como fazemos a transformação”, acrescentando que as principais empresas nacionais que estão a produzir insetos têm já sistemas de HACCP, como qualquer outra produção pecuária.

Insetos vão chegar aos nossos pratosJá José Gonçalves declara que “nos contactos com potenciais clientes, temos tido reações mistas. Quando em 2016 fizemos as abordagens iniciais, a reação era geralmente adversa, claramente por desconhecimento do movimento que estava na altura a gerar-se no mundo ocidental, na sequência do paper publicado pela FAO em 2013”, mas “atualmente, o retorno que recebemos é claramente diferente, pois as notícias sobre a reintrodução dos insetos na alimentação humana ocidental têm aumentado exponencialmente e é visível que a maioria dos decisores nas empresas já consegue analisar a questão de um ponto de vista absolutamente racional. E quando se ultrapassa o nível mais básico de avaliação e se consegue racionalizar, rapidamente compreendemos que os insetos fazem todo o sentido na alimentação humana”.

Manual de Boas Práticas
Para esclarecer muitas dúvidas sobre a produção e comercialização de insetos para alimentação animal e humana a Portugal Insect criou uma página de questões frequentes muito completa, onde se explica também que a produção de insetos é uma atividade pecuária que se enquadra no Novo Regime do Exercício da Atividade Pecuária (NREAP). Por isso, a EntoGreen, em conjunto com a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) criou um Manual de Boas Práticas para a Produção, Processamento e Utilização de Insetos em Alimentação Animal, também acessível através da mesma página, ou diretamente no site da DGAV.

O fundador da Nutrix adianta que “a criação de uma associação nacional do setor, o facto de a DGAV ter publicado um manual de boas práticas para produção, processamento e utilização de insetos na alimentação animal ou o de, pela primeira vez, ter sido assinalado o Dia Mundial do Inseto Comestível em Portugal, são dados que revelam bem a atenção que o tema tem recebido. E tudo isto aconteceu no ano de 2018, pelo que é de antever que este movimento seja já imparável”.

Farinha de inseto e produtos finais
As duas empresas que contactámos têm já produção de insetos a funcionar e também produtos finais que, assim que a legislação for desbloqueada em Bruxelas, podem entrar imediatamente no mercado. “Temos três barras proteicas diferentes, massas e insetos desidratados, simples e temperados com três sabores”, explica-nos o CEO da Portugal Bugs. “Estamos também a preparar a plataforma online para poder entrar em funcionamento quando for permitido vender, mas também já tivemos várias superfícies comerciais interessadas, pequenas e grandes”, adianta Guilherme Pereira. A empresa produz larvas de tenebrio molitor e trabalha também com grilos.

Insetos vão chegar aos nossos pratosO CEO salienta que “neste momento, o grande entrave é mesmo a legislação porque temos muitos contactos, mesmo de particulares que querem comprar, por isso há interesse do mercado”. E dá o exemplo de uma empresa em Espanha que vende online barras proteicas com insetos (embora no país vizinho também ainda não seja permitido…) e que numa notícia publicada recentemente, afirmava que vendiam 13.000 barras por mês.

O projeto da Nutrix no domínio dos insetos comestíveis “assenta na produção de grilos da espécie acheta domestica como fonte de proteína para alimentação humana, pela sua elevada sustentabilidade e valioso perfil nutricional. Prevemos que o nosso produto final seja uma farinha obtida por moagem dos grilos após desidratação, pelo que os nossos clientes – uma vez aberto o mercado – serão previsivelmente empresas do setor alimentar que enriquecerão os seus produtos de consumo com essa farinha”, conta José Gonçalves.” Estamos, no entanto, e em paralelo, a desenvolver também um produto para testar num mercado fora da União Europeia. Contamos ainda no primeiro trimestre ter mais novidades para anunciar”, refere o responsável.

Os três desafios
O vice-presidente da Portugal Insect considera que “este setor tem três grandes desafios que terá de resolver, para se afirmar definitivamente no cenário agroalimentar mundial: (…) a primeira barreira a quebrar é a da reação adversa dos consumidores finais, educados e habituados durante séculos a considerar os insetos como algo indesejado na alimentação e não como a riquíssima fonte nutricional e altamente sustentável que na realidade são. Com efeito, os insetos quando produzidos especificamente para alimentação humana (e não simplesmente recolhidos na natureza), são tão ou mais seguros que a generalidade dos alimentos que habitualmente comemos”. Por isso, refere José Gonçalves, “a conversão dos insetos em farinha, para que o inseto inteiro não seja visível ao consumidor, é a principal estratégia que está a ser adotada pelos produtores para contornar esta barreira”, mas “estudos recentes de perceção dos consumidores confirmam já uma progressiva aceitação dos insetos”, uma indicação que também Guilherme Pereira deu À DISTRIBUIÇÃO HOJE.

O segundo desafio, adianta o CEO da Nutrix, “pelo menos no que à União Europeia diz respeito, é o regulamentar. Contrariamente a outros países desenvolvidos onde os insetos já são permitidos em alimentação humana, como, por exemplo, EUA, Canadá ou Austrália, o regulamento dos novos alimentos (Reg. EU 2015/2283), está ainda a vedar o acesso ao mercado à maioria dos produtores instalados na UE”.

A Nutrix integra um consórcio de produtores europeus que submeteu um dossier à Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA) e que está em análise, informa o responsável, “esperando nós que seja emitido o parecer positivo dentro dos prazos estipulados, para permitir que até final de 2019 fique claro o que é ou não possível colocar legalmente no mercado”.

Por último, o terceiro desafio é que “no longo prazo, teremos que automatizar, escalar e ganhar dimensão, pois só dessa forma será possível baixar custos e transferir o foco deste setor, do nicho – onde está atualmente – para o mainstream”.

*este artigo foi orginalmente publicado na edição 472 da revista DISTRIBUIÇÃO HOJE