Retalho

Nuno Luz, Managing Director da FNAC Portugal: “as vendas online nunca substituirão o que perdemos no físico”

FNAC_Amoreiras

Fechadas que foram as lojas FNAC a partir do dia 19 de março de 2020, devido à pandemia de COVID-19, a média de dias em que os diversos pontos de venda da insígnia tiveram fechados ultrapassa os 30 dias, uma vez que as lojas não fecharam e abriram todas ao mesmo tempo.

Nuno Luz, managing director da FNAC Portugal, admite um tráfego muito baixo em loja, significa, “uma quebra superior a metade do tráfego em loja no mês de maio e até ao dia, face ao mesmo período do ano passado”. Ou seja, espera-se “uma reanimação”.

Essa reanimação do tráfego em loja tem, contudo, um forte concorrente que, nos últimos três meses, ganhou terreno como nunca antes visto. Na realidade, o e-commerce da FNAC, neste período COVID, “cresceu três vezes mais do que em período homólogo de 2019”, revela o responsável pela operação da FNAC em Portugal, salientando, contudo, que “as vendas online nunca substituirão as vendas que perdemos ao nível do retalho físico”.

Reconhecendo-se que a experiência de compra é diferente, Nuno Luz explica que, no caso da FNAC, essa experiência ainda é mais acentuada, já que “na FNAC a experiência de compra é a base. É muito de passear na loja, ver o produto, ver as novidades, tocar e sentir os artigos”.

Por isso, Nuno Luz refere, neste dia de reabertura dos Centros Comerciais na Área Metropolitana de Lisboa (AML), que “o online nunca substitui a experiência em loja”, admitindo, contudo, que “as vendas no online continuarão a crescer significativamente”. Assim, tudo passa por uma questão de “confiança”, acredita Nuno Luz, explicando que “vai ainda demorar algum tempo até o nosso cliente e o cliente do shopping ter a confiança para passear dentro do local, embora estejam criadas todas as condições de segurança”.

Ou seja, tal como o administrador da Mundicenter, proprietário e gestora do Amoreiras Shopping Center, referia neste primeiro dia de reabertura total, Nuno Luz acredita que “o conceito de passeio que existia, vai demorar ainda algum tempo a ressurgir”.

Sem um forte pendor turístico, ao contrário das lojas do Chiado (Lisboa) e Santa Catarina (Porto), o responsável pela FNAC admite, tal como recém-criada Associação de Marcas de Retalho e Restauração (AMRR), as quebras nas vendas possam ser superior a 50%, embora refira que “é preciso ter cuidado com vendas e margens, já que vender um PC e/ou um livro tem receitas e margens diferentes”.

Quanto à “vaticinada” segunda vaga, Nuno Luz explica que “todos aprendemos com esta realidade. Todos fomos apanhados de surpresa e desprevenidos”. Por isso, o primeiro a fazer é “saber o que se fez bem e o que se fez mal e agir de forma equilibrado, refere o responsável da FNAC, admitindo que neste primeiro surto, “possivelmente, houve uma reação demasiado rígida e direta. Pode ter faltado algum equilíbrio, mas aprendemos”, diz.

Certo é que uma segunda vaga terá um impacto “brutal. Não sei se, acontecendo tal situação, teremos capacidade para encerrar completamente todas as lojas”, justifica Nuno Luz.

Quanto aos produtos mais vendidos durante este período de confinamento, destaque para os portáteis e impressoras, mas também, e curiosamente, para os instrumentos musicais.

Uma expectativa de sobrevivência

Além do administrador da Mundicenter, Fernando Oliveira, e managing director da FNAC, Nuno Luz, a DISTRIBUIÇÃO HOJE falou ainda com outros dois lojistas presentes no Amoreiras Shopping Center. Se do lado da restauração, João Oliveira, sócio-gerente da Sociedade Café da Ponte, que detém a Praça Central, a expectativa futura é de “tentar sobreviver”, do lado da moda, Diogo Proença, gerente de loja da Timberland, é mais “otimista”, baseando-se nas outras lojas da marca que já abriram, admitindo, no entanto, que “depois de tanto tempo de confinamento, há que esperar que as coisas aconteçam passo a passo e não de forma de repente”.

Voltando ao universo Horeca, João Oliveira diz que “ao fim de 90 dias fechados, ou seja, um quarto do ano perdido, o objetivo é chegarmos, pelo menos, ao final do ano vivos para depois eventualmente recuperarmos”. Essa recuperação acontecerá, segundo o mesmo João Oliveira, somente “no final da Primavera de 2021”, isto, “se tudo correr bem e se se criar um clima de confiança”.

Num espaço que, por dia, vendia cerca de 700 cafés, mais 40 almoços, mais lanches e pequenos snacks, o facto do espaço estar inserido numa zona de serviços e as empresas se encontrarem, a maior parte em teletrabalho e em véspera de férias, não são esperados tempos fáceis. “Neste momento, sei tanto quanto sabia há 35 anos quando me iniciei neste negócio”, admite João Oliveira, destacando, no entanto, os apoios prestados pela entidade promotora e proprietária do shopping. “Sem esse apoio não teríamos qualquer hipótese, já que, além dos três meses de encerramento, sem receitas, os custos não pararam”.

Assim, tratando-se de “uma parceria, tal como no casamento, ou ambas as partes estão bem ou a coisa não funciona”; conclui João Oliveira.

Já Diogo Proença refere que o tão falado “boom” do e-commerce poderá ter acontecido e manter-se, mas acredita que, em marcas como a Timberland, “o cliente que nos visita procura o atendimento personalizado, de exclusividade, do toque com os artigos, de experimentar. O online é muito impessoal e acho que, neste caso, se trata também de relações humanas”.