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“O setor agroalimentar trabalha cada vez mais com tecnologias de impacto”

Sublinhando que a volatilidade se intensificou entre duas e seis vezes nos últimos dois anos, o executive director da Entrepreneurship and Innovation Center da IESE Business School, Josemaria Siota, afirma que existem cada vez mais empresas do setor agroalimentar que inovam com empreendedores que trabalham com tecnologias de impacto emergentes, como inteligência artificial, robótica e blockchain.

Que mudanças podem ser previstas globalmente no setor da distribuição e retalho alimentar? Que tendências destaca, entre novos hábitos de consumo, alimentos do futuro, inovação e transformação digital, sustentabilidade e economia circular e novos modelos de negócios?

 

Além das tendências que se comentam no setor como as mais relevantes, como sustentabilidade, circularidade ou flutuações nas cadeias de valor, entre outras, há uma tendência crescente: pequenos grupos de empresas que trabalham em conjunto para inovar com start-ups.

E porquê? As empresas estão sob uma pressão adicional para inovar mais rapidamente com orçamentos apertados. Além disso, a volatilidade intensificou-se entre duas e seis vezes nos últimos dois anos (segundo indicadores como o Índice de Volatilidade do CBOE – Chicago Board Options Exchange), pelo que uma oportunidade ou recurso empresarial hoje pode já não estar disponível em trinta a sessenta dias. Por outro lado, as empresas enfrentam cada vez mais concorrentes que procuram os mesmos empreendedores de primeiro nível que elas próprias necessitam, uma vez que o número de empresas que inovam com start-ups (o chamado corporate venturing) continua a aumentar.

 

Por isso, um caminho é criar esquadrões de corporate venturing, pequenos grupos de empresas que unem forças para colaborar com uma ou mais start-ups, seja em diferentes setores, seja em diferentes partes da cadeia de valor de um mesmo setor. Tal como fizeram, por exemplo, as empresas Migros, Bühler e Givaudan, que lançaram uma colaboração no campo da carne cultivada, em The Valley Kemptthal, Zurique. Nessa iniciativa, as empresas oferecem às start-ups um laboratório de desenvolvimento de produtos, e também capacidades de cultivo de células e bio fermentação, para ajudá-las a desenvolver [o seu negócio] e a entrar no mercado com um produto acabado.

Por um lado, isso melhora a proposta de valor corporativo oferecida ao empreendedor, agregando valor (por exemplo, fornecendo conhecimentos complementares em diferentes partes da cadeia de valor). Por outro lado, permite partilhar o custo de possíveis testes ao conceito entre os membros da equipa, ao mesmo tempo que fortalece a identificação de start-ups, aproveitando as capacidades de investigação de cada empresa.

 

Focou a sua intervenção na Alimentaria em inovação aberta, corporate venture e tech transfer. Com base na sua vasta experiência em investigação nestas áreas, qual é a relevância, no atual contexto socioeconómico, da aplicação de novas tecnologias e ferramentas inovadoras na indústria agroalimentar, para garantir a sua competitividade sustentável?

Como referi, existem cada vez mais empresas, também do setor agroalimentar, que inovam com empreendedores que trabalham com tecnologias de impacto emergentes, como inteligência artificial (por exemplo, para o cuidado otimizado das culturas), robótica (por exemplo, nas cadeias de tratamento), ou blockchain (por exemplo, para rastreabilidade de alimentos).

 

No entanto, de acordo com estudos recentes do IESE, apesar de a Europa abrigar 21% das cem principais instituições de investigação de todo o mundo, cerca de 95% das patentes europeias estão inativas. Enquanto os restantes 5% impactam em cerca de 40% no PIB europeu.

Algumas das razões subjacentes para estes 95% adormecidos: os investidores privados tendem a não querer envolver-se em projetos de investigação devido ao seu alto risco, elevado custo e longo período de gestação. Portanto, esses empreendedores científicos (com tecnologias emergentes impactantes) muitas vezes carecem dos recursos necessários para localizar e validar o mercado adequado para as suas descobertas.

Enquanto isso, o número de empresas que inova com start-ups continua a crescer: o investimento empresarial em start-ups a nível mundial quadruplicou desde 2013, alcançando um recorde histórico de 73,1 mil milhões de dólares em 2020.

Analisando o setor agroalimentar, uma forma de estimular a inovação pode ser combinar a falta de financiamento para esses projetos inovadores de base científica com o desejo empresarial de inovar com tecnologias através de mecanismos como aceleradores de negócio, venture builders, testes ao conceito conjuntos, e outros.

A Nestlé, por exemplo, anunciou recentemente a colaboração com a start-up Future Meat Technologies para explorar o potencial dos componentes da carne cultivada e incorporá-los em futuros produtos da marca.

No atual contexto de pandemia e crise energética devido à guerra na Ucrânia, quais são os principais desafios enfrentados pelas empresas fabricantes e de distribuição alimentar?

De acordo com os últimos estudos do IESE, as empresas do setor agroalimentar – entre outros setores – que querem inovar com start-ups ligadas a tecnologias de impacto emergentes (também chamadas deep tech), enfrentam estes quatro desafios, por ordem de prioridade:

– Avaliação de tecnologia. Quem e como deve ser feita? As start-ups deep tech têm maior complexidade.

– Visão a curto prazo. Como alinhar os horizontes temporais entre as equipas de corporate venturing, as unidades de negócios e a equipa de direção? As start-ups de deep tech têm períodos de gestação mais longos.

– Alinhamento interno de indicadores de desempenho. Como se podem gerir as expectativas? As start-ups de deep tech podem não ser uma prioridade – à primeira vista – para as unidades de negócios.

– Regulamento. Como se podem abordar as barreiras regulatórias? As start-ups de deep tech geralmente enfrentam desafios relacionados com a gestão e proteção de sua propriedade intelectual.