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Produção

AgriTech e transição ecológica aceleram inovação agroalimentar

Num contexto desafiante a nível de sustentabilidade e digitalização, o AgriTech é o driver que orienta a inovação na indústria agroalimentar. Em Barcelona, centenas de especialistas que acorreram à Alimentaria 2022 concluíram que as empresas do setor estão focadas no desenvolvimento de produtos sustentáveis e funcionais, trabalhando cada vez mais com tecnologias de impacto emergentes.

O setor da alimentação enfrenta dois grandes desafios – sustentabilidade e transformação digital. O consenso reunido entre os mais de duzentos especialistas que dinamizaram o Alimentaria Hub da mais recente edição da Alimentaria & Horexpo, feira de referência do setor realizada no recinto Gran Vía da Fira de Barcelona, entre 4 e 7 de abril, não deixa margem para dúvidas no que respeita às tendências emergentes desta indústria: inovação digital e tecnológica, sustentabilidade e economia circular, novos hábitos de consumo no retalho alimentar, nutrição saudável, alimentação do futuro e segmentos em expansão (como o da proteína alternativa, alimentos funcionais ou produtos halal).

 

Ao longo de quatro dias, e em dezenas de conferências, apresentações e fast talks, os especialistas do setor concluíram que a indústria alimentar terá de ser capaz de se adaptar às circunstâncias adversas, como a subida dos preços da energia e das matérias-primas, segundo explica, em entrevista à DISTRIBUIÇÃO HOJE, Céline Perez, project director na Alimentaria Exhibitions, S.L.U. (Fira Barcelona).

Na sua opinião, e face aos “níveis de volatilidade e incerteza atualmente muito elevados”, assiste-se já “a uma enorme pressão sobre os preços dos alimentos”. Como afirma, para combater a escassez de matérias-primas essenciais, como cereais provenientes da Ucrânia, “é preciso procurar alternativas em outros mercados mundiais”, as quais “já se estão a encontrar em países produtores da América do Sul, por exemplo”.

 

Internacionalização estratégica

Depois de um intervalo de quatro anos devido ao cancelamento da edição de 2020, provocado pela pandemia, a recente edição da plataforma líder para a indústria alimentar, foodservice, restauração e equipamento hoteleiro, marca uma viragem na recuperação do setor. Mais de três mil empresas expositoras, de 52 países, participaram na Alimentaria 2022 com o objetivo de incentivar os negócios e acelerar a internacionalização e a reativação de setores estratégicos da indústria alimentar.

 

Segundo a organização, um total de 100 mil visitantes (23% dos quais internacionais, de 149 países) “revalidaram a liderança da feira” (que gerou um impacto económico estimado de 180 milhões de euros) “como um evento global estratégico”, através da complementaridade dos muitos setores representados (carne, laticínios, produtos foodservice, aperitivos e sobremesas, conservas, alimentos ecológicos e produtos de  dieta mediterrânea), bem como dos 1.400 grandes compradores convidados de mercados promissores para a exportação de equipamentos de alimentação e catering, como União Europeia, EUA e América Latina.

Defendendo que estes contatos contribuem para “impulsionar as vendas da indústria alimentar no exterior”, o diretor da Alimentaria, J. Antonio Valls, sublinhou, no encerramento da Alimentaria 2022, que “a intensa dinâmica vivida nesta edição reforça o caráter do evento como parceiro estratégico do setor no seu imparável processo de internacionalização”.

 

A inovação e o networking deram as mãos no Alimentaria Hub, que acolheu congressos, seminários, conferências, entrega de prémios e apresentações de estudos em torno de seis eixos principais: Investigação & Desenvolvimento e Marcas; Nutrição, saúde e bem-estar; Internacionalização e globalização; Distribuição e retalho; Marketing e comunicação; e Responsabilidade Social Corporativa. O espaço afirmou-se como o centro nevrálgico da feira, concentrando conhecimento, tendências, inovação e negócios para a indústria, distribuição e retalho em diversas zonas de networking, assessoria de exportação, parceiros com experiência em diferentes áreas da cadeia de valor da indústria e uma área para profissionais e investidores descobrirem start-ups com projetos que visam revolucionar a alimentação, a agricultura e a gastronomia, a partir da tecnologia.

Entre um programa de atividades repleto de iniciativas, e que permitiu apresentar mais de trezentas inovações, destaque para os Prémios Innoval, que reconhecem os produtos mais inovadores do setor agroalimentar espanhol. Duas bebidas benéficas para a saúde da Vicky Foods ganharam cinco dos 16 prémios a concurso, sendo ainda distinguidos os lançamentos de azeitonas verdes líquidas para usar como condimento, leitão de Segóvia para levar, tortilha de batata enlatada e atum plant-based da Future Tune.

Outra iniciativa que ganhou visibilidade na Alimentaria foi o Olive Oil Bar, um espaço de degustação autoguiada com a ajuda de fichas descritivas, que resultou em uma exposição de mais de cem azeites virgem extra, numa zona que concentrou “inovação contínua e as últimas tendências no segmento do azeite gourmet” (com uma crescente oferta no segmento Premium), e que, segundo a organização, se converteu numa ação “muito apreciada por compradores nacionais e internacionais, profissionais da distribuição especializada, retalho, gastronomia e canal Horeca.

De resto, o azeite é um produto essencial na comida mediterrânica, que mereceu também, e como seria de esperar, destaque na edição de 2022 da Alimentaria. O evento acolheu o XIII Congresso Internacional da Dieta Mediterrânica, que confirmou esta dieta como um dos estilos de vida mais saudáveis e sustentáveis que preservam a cultura e o património mundiais, defendendo que os seus valores devem ser renovados com base nos desenvolvimentos científicos e tecnológicos do setor agroalimentar.

Lugar ainda para o III Congresso Internacional de Alimentos Halal (produtos que obedecem a um código ético e moral na religião islâmica, e que não podem conter carne bovina ou álcool), onde se discutiu o potencial de mercado entre um segmento crescente de consumidores muçulmanos e não muçulmanos, bem como a adaptação de produtos e serviços aos consumidores muçulmanos no mercado global.

* A jornalista viajou a convite da Alimentaria & Horexpo