Produção

Vinhos “frescos” e turistas impulsionam vendas e preço do vinho

Vinhos “frescos” e turistas impulsionam vendas de preço do vinho

Seguindo a tendência dos últimos anos, as expectativas para o mercado de vinho em Portugal são positivas, tanto dos produtores, das cadeias e de especialistas. Espera-se um aumento do consumo e do preço médio, não só por uma maior ‘cultura do vinho’, mas principalmente pela subida no número de estrangeiros e turistas, responsável também pela previsão de crescimento de vinhos rosés, espumantes e brancos.

Um consumidor mais interessado, informado e conhecedor, bem como o aumento de estrangeiros no país (residentes e turistas), são as principais razões apontadas para mais consumo de vinho e a expectativa de que esse consumo continue a crescer este ano e nos próximos. Esses atores contam também para a subida do preço médio, além de uma menor produção.

O aumento do reconhecimento e notoriedade dos vinhos portugueses no estrangeiro, levando a um aumento das exportações (ver caixa), a par do surgimento de uma ‘cultura’ em torno da gastronomia e do vinho, tem igualmente ajudado o setor. “Tal como no ano 2018, o turismo terá impacto significativo no total do consumo de vinho. As previsões de visitantes para 2019 são muito semelhantes ao ano transato. O surgir de novas unidades hoteleiras e restauração, os grandes eventos (congressos, summits, etc.), o turismo enófilo, novos residentes (brasileiros, franceses, nórdicos, britânicos, etc.), com maior poder de compra, estudantes estrangeiros a viver em Portugal, também contribuirão para eventual aumento de preço médio”, considera Manuel Moreira. O sommelier e wine educator salienta ainda outras razões para o crescimento do consumo e do preço: “As agências de DMC (Destination Management Company), que até pela minha própria experiência através das solicitações que recebo, cada vez mais incorporam o segmento vinho na sua oferta. O facto de a gastronomia portuguesa começar a ter mais visibilidade, gerando um visitante específico. O aumento do número de restaurantes galardoados com estrelas Michelin, que provoca aumento médio da sua ocupação. Também os espaços de duty-free, especialmente no aeroporto, porta de entrada de milhões de visitantes por ano, e a própria TAP, veículo desse fluxo, que ao servir vinhos portugueses a bordo, dará bom contributo”.

Cresce preferência para ‘vinhos frescos’
A diretora comercial do Continente afirma que “a democratização do acesso a vários perfis de vinhos e a diferenciação pela qualidade são dois fatores essenciais que contribuem para este crescimento e que dão resposta a consumidores cada vez mais esclarecidos e exigentes”. Paula Jordão adianta que “no que diz respeito a padrões de consumo, tem-se verificado que os brancos e rosés são tendências crescentes”.

O administrador da Casa Santos Lima, José Luís Santos Lima Oliveira da Silva, frisa que “o tinto é a referência de eleição, mas estamos a assistir a um crescimento do consumo de vinhos brancos, rosés, frisantes e leves”.

Fonte oficial do Pingo Doce diz à DISTRIBUIÇÃO HOJE, igualmente, que “numa ótica de tipos de vinhos, o consumidor tem vindo a demonstrar um crescente interesse em ‘vinhos frescos’ (rosés, brancos, espumantes), em parte explicado por um verão mais extenso, nomeadamente com setembro e outubro mais quentes do que nos anos anteriores. Mas também por estes vinhos estarem a conquistar novos momentos de consumo fora da refeição, tais como finais de tarde, aperitivos, entre outros”.

A mesma fonte refere que “o consumidor tem vindo a alterar o perfil de consumo, estando hoje mais informado e, por isso, mais recetivo a vinhos de maior qualidade”.

Uma opinião partilhada pelos vários responsáveis de cadeias e de produtores com quem falámos, como o administrador de marcas e mercados da Sogrape. João Gomes da Silva defende que “a perspetiva é de subida, seja pelo desenvolvimento de uma cultura de consumo mais cuidada e sofisticada, que privilegia produtos de maior valor, como pela subida do consumo resultante do aumento do turismo e de visitantes estrangeiros”.

Vinhos “SOLA” deverão subir, mas pouco
Também o crítico de vinhos Rui Falcão considera que “provavelmente haverá um ligeiro aumento do consumo de vinhos brancos e de espumantes, que tem sido uma tendência mais ou menos marcada do mercado”, e adianta: “E depois em nichos – que não passam disso – como os vinhos biológicos e os ditos naturais (o que quer que isso signifique), mas que têm tido um aumento de consumo, não só nacional como internacionalmente, e isso vê-se principalmente quando começamos a ver grandes produtores a entrar também nesse segmento”. Mas a responsável do Continente frisa que “o crescimento dos vinhos SOLA (Sustainable, Organic and Lower-Alcohol) é, atualmente, mais evidente em países sem tradição vitivinícola, como a Suécia ou Finlândia” e Ana Sampaio, diretora de marketing da Aveleda, salienta que “a procura de vinhos com graduação alcoólica mais baixa é uma tendência global que se tem vindo a verificar ao longo dos últimos anos, mas que em Portugal ainda não é relevante. Existe essa oportunidade e potencial e o consumidor tem demonstrado um interesse crescente por vinhos mais descomplicados que possam estar presentes em diferentes momentos de consumo. Em termos de alternativas ‘Bio’ e Naturais, o consumidor nacional tem ainda alguma dificuldade em perceber a sua diferenciação, pelo que a tendência internacional ainda não é acompanhada em Portugal”.

Saudável e sustentável
Todos reconhecem, no entanto, que esta é uma categoria que irá certamente progredir no futuro, com José Luís Santos Silva a avançar que “a tendência irá também refletir as preocupações ambientais, tais como a agricultura sustentável e a procura pelos produtos autênticos, representativos de cada região”. O administrador da Casa Santos Lima defende que “o objetivo será sempre encontrar formas sustentáveis de cuidar da vinha, preservando o meio em que ela se insere e o futuro das atividades. Esse, acreditamos, será o futuro”.

Também João Gomes da Silva salienta que “o crescimento de hábitos de consumo que se identificam com estilos de vida mais saudáveis (menos calorias, menos açúcares, etc.) e o aumento (saudável) da consciência ambiental nas sociedades, levarão com certeza ao crescimento de segmentos que consigam construir uma identificação com essas mesmas tendências. Isso não significa forçosamente que estes segmentos se venham a tornar dominantes, ou mesmo mainstream”. E o administrador de marcas e mercados da Sogrape conclui: “Produtos com associação a práticas de sustentabilidade (proteção e produção integrada, biológicos, vinhos naturais) ou de menor conteúdo de álcool estarão neste grupo. De qualquer forma, a tendência de redução do nível alcoólico nos vinhos é uma tendência de há muito no setor, nomeadamente nos vinhos tintos”.

Lisboa e Setúbal em destaque
Sobre as regiões preferidas e se há algumas ‘estrelas’ em ascensão, Frederik Ehlert, diretor de compras do Lidl Portugal, considera que “todas aparentam ter uma evolução positiva, continuando a existir algum consumo local dos vinhos da respetiva região”, mas destaca que “existem, de qualquer forma, regiões que anteriormente eram pouco percecionadas como vinho de qualidade e que começam a ganhar nome (Lisboa, Tejo e mesmo o Algarve, onde já começam a surgir vinhos de qualidade e consumo sazonal ligado ao turismo)”.

Todavia, nas regiões referidas pelos responsáveis destacam-se Lisboa e a Península de Setúbal, seguidas pelo Tejo e pela região do Vinho Verde.

Vinhos “frescos” e turistas impulsionam vendas de preço do vinho Curiosamente, o El Corte Inglés, depois de afirmar: “Acreditamos (…) que as marcas e os produtores que continuem a apostar na qualidade, renovação e inovação, são os que terão um aumento mais acentuado de procura e que deverão destacar-se no mercado nacional”, salienta que “por regiões, acreditamos que os vinhos do Dão e do Douro são os que podem apresentar melhores características para solidificar o seu posicionamento no mercado”. O Douro foi também referido por Paula Jordão, diretora comercial do Continente.

Preço médio aumenta
Além do consumo, também o preço médio tem crescido, como aliás atestam os números da Nielsen (ver quadro) e referem os intervenientes neste artigo: “Aumento do preço médio, com certeza”, diz-nos o administrador de marcas e mercado da Sogrape, enquanto a diretora de marketing da Aveleda afirma que “o preço médio na categoria tem vindo a aumentar como resultado de uma maior sofisticação do consumidor português, que tem contribuído para um aumento da procura de produtos mais caros. Paralelamente, a aposta numa maior qualidade e diversidade, a par com uma quebra na produção, resultam naturalmente no aumento do preço médio”.

Todavia, o crítico Rui Falcão defende: “Tenho sérias dúvidas de que o consumidor comece a valorizar mais os vinhos e a pagar mais, porque, quando se habitua um consumidor a ter vinhos baratos, é muito difícil aumentar os preços, sobretudo porque há sempre alguém que está disposto a manter os preços baixos para ganhar quota de mercado. É um mercado muito indisciplinado e não me parece que as expectativas sejam de grandes aumentos”. E frisa ainda que “além disso, os aumentos de preço têm sido ao consumidor, não ao produtor, para eles tem havido uma manutenção ou mesmo uma quebra de preços. E as grandes superfícies também têm diminuído o cardex, ou seja, o número de referências listadas, o que é um drama se pensarmos que mais de 70% do vinho em Portugal é vendido na distribuição moderna”.

Aconselhar o consumidor
Prova do peso e da preocupação que a distribuição moderna tem com este setor é o facto de várias cadeias terem especialistas e/ou enólogos a trabalharem com elas para melhor chegar ao consumidor, oferecendo também conselhos e guias que ajudam o consumidor na escolha do vinho certo para cada ocasião.

O diretor de compras do Lidl explica-nos que “no decorrer do ano de 2018, demos especial atenção a esta área estratégica, não só através da colaboração com a especialista de vinhos Maria João de Almeida, como também com o regresso à organização de feiras de vinhos bastante abrangentes nas nossas lojas. Estas semanas temáticas de vinhos trazem às lojas Lidl vinhos, de marca própria e de fabricante, de qualidade e a preços imbatíveis”. Frederik Ehlert adianta que “além disso, e de forma a facilitar a vida aos nossos consumidores, optámos também por uma estratégia de repartição dos vinhos por momentos de consumo, assumindo a função de conselheiro, com a ajuda da Maria João de Almeida. Explicámos também as características e a origem dos vinhos, de forma a contribuirmos para um consumidor cada vez mais informado”.

Já a fonte oficial do Pingo Doce refere que a insígnia vai continuar “a tentar simplificar o processo de decisão no ato de escolha. Desenvolvemos o programa ‘Qualidade a Toda a Prova’, em conjunto com o nosso enólogo Frederico Vilar Gomes, para ajudar os consumidores a fazer a escolha perfeita dos vinhos em cada momento de consumo “e, já em janeiro, lançámos “um ‘Guia para Bem Escolher e Melhor Comprar’, que desmistifica em cinco passos a complexidade que existe na escolha do vinho perfeito para a ocasião perfeita”.

 

Portugal detém 1% das exportações mundiais de vinho

Os vinhos portugueses cresceram em qualidade (indiscutível!) e em vendas no mercado da exportação nos últimos anos, revelando a evolução muito positiva de um setor tradicional – e desde sempre um importante ativo para a economia nacional –, mas que tem vindo a ganhar progressivo reconhecimento internacional. A diversidade de castas autóctones tem permitido produzir vinhos únicos e distintos e hoje os vinhos portugueses rivalizam com os melhores do mundo em termos de qualidade”, escrevia, em maio do ano passado, o presidente do conselho de administração da AICEP, Luís Castro Henriques, no editorial da revista PortugalGlobal, dedicada aos vinhos nacionais numa entrevista a Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal. E acrescentava: “É de sublinhar que Portugal é hoje o 11.º produtor mundial de vinho e o 8.º maior exportador!”.

De facto, a exportação nacional de vinhos tem vindo a crescer em volume e valor. Em 2018, terá crescido 6,5%, para 830 milhões de euros, um novo recorde, seguindo uma década de crescimento sustentado, segundo declarações do presidente da ViniPortugal, citado pelo Expresso já este ano.

A ambição do setor “é atingir a barreira simbólica dos mil milhões de exportações em 2022”, diz Jorge Monteiro, acrescentando que a articulação “entre empresas, comissões vitivinícolas regionais e a ViniPortugal” e “ações de promoção concertadas” suportam “a forte convicção, que o objetivo dos 1000 milhões será alcançado”.

O crescimento das exportações de vinho tem lugar, principalmente, nos vinhos de mesa e em mercados não tradicionais, como os Estados Unidos, Canadá, China ou o Japão. Também lá fora o preço médio tem subido, mantendo a tendência dos anos anteriores de um ligeiro aumento.

Ainda segundo Jorge Monteiro, este ano, os operadores portugueses irão apostar em mercados maduros e tradicionais com emergentes.

Do lado da ViniPortugal, a prioridade de promoção centra-se na Dinamarca, México, Brasil, Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Suíça, mercados que têm tido um desempenho favorável nos últimos anos.