Produção

“O consumidor do futuro desejará conhecer o rosto de quem está por detrás dos produtos”

Rui_Rosa_Dias_IPAM

A incerteza em relação ao fim da pandemia de COVID-19 está a impedir as empresas de planear a médio e longo prazo. Mas uma coisa é certa: a forma como consumimos irá, necessariamente, mudar. O investigador e docente universitário do IPAM, Rui Rosa Dias, explica como vê o consumidor do futuro.

Que consumidor vamos ter depois desta crise?
Em tempos de crise, o consumidor pode, em geral, adotar comportamentos mais conscienciosos, mais prudentes, mais racionais. A compra joga-se, hoje em dia, em contextos emocionais, de grande envolvimento, de experiências, de compromisso. As marcas desejam falar olhos nos olhos com os consumidores, não obstante, algumas empresas não têm ADN empresarial para esse jogo da verdade do marketing agroalimentar. E é aqui precisamente que se levanta a necessidade de maiores níveis de transparência que façam credibilizar as mensagens comunicacionais das marcas.

Temos ainda muitas marcas sem rosto visível. O consumidor do futuro desejará conhecer o rosto de quem está por detrás dos produtos. Quererá ter contacto com a realidade tal e qual ela é. Deseja ter motivos reais de confiança nas marcas. É assim que se constroem as narrativas que levarão o consumidor a dar preferência por determinados produtos e empresas. Dar a conhecer a origem dos produtos, ao invés de a ocultar, é um caminho para reestabelecer a confiança do consumidor.

A origem vai assumir especial importância nesta crise?
Há felizmente casos de alguns players na Distribuição Moderna que já vão nesse sentido, pois fazem questão de mencionar nas categorias das suas marcas próprias quem é o fornecedor e qual é a origem do produto. Em tempos de crise severa, os consumidores podem inclusive adotar, naturalmente, comportamentos severos: açambarcar produtos (situação que se viveu recentemente), e aí passamos à fase pura e simplesmente irracional, em que o consumidor deixa de o ser, e passa a ser, ainda mais indivíduo, esquecendo-se do sentido universal que nos une. A consciência do consumidor vai ainda mais longe em tempos de crise. Consegue por via dos seus atos de compra, pressionar determinados negócios emergentes a demonstrarem o seu real valor de adaptação e de ciclos de resposta, como por exemplo as culturas de hortas em casa e as entregas ao domicílio por parte de associação comercial entre pequenos produtores.

A produção de pão em casa, o reaproveitamento de produtos, as práticas culinárias de poupança, entreajuda e partilha de alimentos de forma comunitária, são outros tantos fatores que sobressaem em tempos de crise. Por isso, apelar à importância da origem dos produtos e ao consumo de produtos nacionais como elementos a associar a um conjunto enorme de benefícios, uns diretos, outros indiretos, deve ser estudada, ponderada e colocada em prática. Todos esses benefícios, de forma complementar, contribuirão, sobremaneira, para um reforço positivo da nossa identidade nacional. Merecemos caminhar nesse sentido. Não somos melhores nem piores que os outros: somos nós próprios, temos a nossa identidade que é, muitas vezes elogiada e vista como exemplar por outros países, mais do que por nós próprios. Ainda temos um certo deficit sobre a importância transversal da marca Portugal agroalimentar para o contexto da nossa economia, sociedade e bem-estar. Temos vindo a melhorar, porém, no setor agro e alimentar ainda há um longo caminho a ser percorrido.

Os portugueses são sensíveis à necessidade de consumir produtos nacionais e locais para apoiar financeiramente os produtores em tempos de crise? Qual vai ser o papel dos produtores nessa sensibilização? Sabemos que para muitos pequenos produtores a comunicação ainda é uma espécie de ‘calcanhar de Aquiles’…
A economia e comércio internacional estão muito afetados. Diria mais: o atual modelo económico, que em menos de uma década volta a estar nitidamente em causa, necessitará de visão e horizontes de ideologia política moderna, que não se compadecem com cedências apenas e só assentes na filosofia económica neoliberal. A revolução industrial e a fonte de inspiração que foi Adam Smith, não poderão continuar a ser os únicos motores que uma determinada teimosia económica, por via das sucessivas cosméticas, acabam por empurrar o mundo para um beco sem saída. As fortes dependências das economias não produtivas, muito alavancadas na ‘produção’ de serviços, na especulação de matérias-primas e na compra por baixo custo, demonstram mais uma vez, que a Economia é muito frágil, pois a Economia são Pessoas e Confiança. Os circuitos e relações comerciais atuais, maioritariamente assentes na exportação e conquista de mercados a qualquer custo, terão de ser colocados em causa. As economias nacionais devem olhar para si mesmas. Devem promover e reestabelecer equilíbrios. As balanças comerciais terão de ser amplamente repensadas. No setor agroalimentar muito mais ainda.

Este contexto de incerteza, de crise sem fim à vista, é propício a uma maior predisposição do consumidor para ‘ouvir’. Este cenário pese embora tenha exigido (e continuará) um enorme esforço, político, económico e social, poderá ser o ideal para reforçar a mensagem de que consumir português, constitui uma ajuda direta à economia, à sociedade e ao próprio Estado, no fundo a todos nós. Esta consciência coletiva tem tendência a alastrar-se ao sentido ético da compra, à necessidade de ajudar efetivamente os produtores portugueses e a agricultura nacional. Mas isso é pouco para que os pequenos produtores sobrevivam.

Devem ser estimuladas, em simultâneo, políticas de apoio direto, na concentração de oferta, nas operações logísticas e na comercialização e marketing. Caso não se verifiquem estas políticas integradoras, apenas se conseguirá ter um efeito residual conjuntural no comportamento do consumidor. O papel dos produtores deve ser efetivamente a união. Ou seja, se há estruturas representativas dos produtores, está na hora de virem a terreno demonstrarem a sua valia, para salvarem as suas produções. A essas estruturas pede-se não só que cumpram a sua função institucional representativa, mas sim, e cada vez mais, a função organizativa e interventiva ao nível do apoio da comunicação e do marketing – leia-se marketing, como o sentido contínuo de leitura dos mercados. As cadeias de valor deverão ser trabalhadas num sentido estratégico integrado, sincronizado e colaborativo, não somente com os agentes de caráter económico, mas também, institucional, representativo e até público.