Economia

Banco de Portugal troca cenário de mau para péssimo

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As projeções apresentadas no mais recente Boletim Económico do Banco de Portugal (BdP) estão fortemente condicionadas pelos efeitos económicos muito adversos da pandemia COVID-19. Em 2020, a economia portuguesa deverá contrair-se de forma muito acentuada, num contexto de reduções do PIB mundial e do comércio internacional apenas comparáveis às registadas na Grande Depressão de 1929. As projeções apontam para uma diminuição do Produto Interno Bruto (PIB) de 9,5% em 2020, refletindo um impacto negativo muito acentuado da pandemia durante o primeiro semestre.

Num quadro de relativo controlo da epidemia e de progressivo levantamento das medidas de contenção adotadas para lhe fazer face, perspetiva-se que a atividade económica comece a recuperar a partir do terceiro trimestre de 2020. Projeta-se que o PIB cresça 5,2% em 2021 e 3,8% em 2022. No final do horizonte de projeção, a atividade deverá situar-se num nível próximo do observado em 2019, mas consideravelmente abaixo do esperado antes da pandemia.

Para o consumo privado, projeta-se uma redução de 8,9% em 2020, mais acentuada do que a quebra do rendimento disponível real, e à qual deverão seguir-se crescimentos de 7,7% em 2021 e de 3% em 2022. A taxa de poupança deverá aumentar substancialmente em 2020, refletindo a dificuldade de consumir alguns bens e serviços durante o estado de emergência e a elevada incerteza prevalecente.

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Estima-se que o consumo público aumente 0,6% em termos reais em 2020, em resultado do efeito conjugado de uma maior despesa em saúde pública no contexto da crise pandémica e da diminuição da atividade das administrações públicas, relacionada com uma redução do número de horas trabalhadas. Após a reversão destes efeitos pontuais e na ausência de medidas de política adicionais, prevê-se que o consumo público mantenha, ao longo do horizonte de projeção, uma evolução similar à projetada para o ano em curso.

O investimento deverá recuperar mais rapidamente do que em ciclos anteriores, após uma queda significativa em 2020, embora seja esperado que, em 2022, permaneça aquém dos níveis registados em 2019. A Formação Bruta De Capital Fixo (FBCF) deverá reduzir-se 11,1% em 2020, refletindo a queda acentuada da componente empresarial, e crescer 5% em 2021 e 4,5% em 2022. A expectativa é que o impacto negativo sobre a FBCF residencial seja relativamente limitado e que a FCBF pública apresente um crescimento superior ao do PIB ao longo de todo o horizonte de projeção.

Perspetiva-se uma queda das exportações de bens e serviços de 25,3% em 2020, seguida por crescimentos de 11,5% em 2021 e de 11,2% em 2022, que serão insuficientes para recuperar o nível registado em 2019. A queda nas exportações reflete, sobretudo, uma descida muito acentuada das exportações de serviços associados ao turismo, com efeitos persistentes até ao final do horizonte de projeção. As importações de bens e serviços deverão apresentar uma trajetória relativamente similar à das exportações. A capacidade de financiamento da economia, medida pelo saldo conjunto da balança corrente e de capital, deverá reduzir-se para 0,3% do PIB em 2020 e assim permanecer nos dois anos seguintes. Em 2020, a balança de bens e serviços deverá ser deficitária, o que acontece pela primeira vez desde 2011, refletindo uma redução do excedente da balança de serviços, associada sobretudo à queda das exportações de turismo.

No mercado de trabalho, as projeções apontam para uma queda expressiva do emprego em 2020, de 4,5%, e para um aumento significativo da taxa de desemprego, para 10,1%, evoluções que dependem criticamente das políticas adotadas que visam preservar o emprego e a liquidez das empresas. Em 2021 e em 2022, deverão registar-se melhorias quer no emprego quer na taxa de desemprego, mas não suficientes para retomar os valores observados em 2019.

Já no que respeita aos preços, projeta-se, para 2020, uma virtual estabilização, resultante de uma diminuição dos preços dos bens energéticos e de um crescimento contido nos restantes bens e serviços. Nos dois anos seguintes, a inflação, medida pelo índice harmonizado de preços no consumidor, deverá permanecer baixa, aumentando para 0,8% em 2021 e para 1,1% em 2022.

A evolução do PIB em 2020 foi revista em baixa relativamente à projetada no cenário adverso divulgado no Boletim Económico de março. Para os dois anos seguintes, projeta-se um crescimento mais robusto do que o considerado nesse Boletim.

As atuais projeções mantêm-se, no entanto, condicionadas por uma elevada incerteza quanto à evolução da pandemia, à duração e ao impacto das medidas de contenção e ao efeito das medidas de política adotadas. No Boletim Económico, são identificados riscos de revisão em baixa das projeções para a atividade económica em Portugal, sobretudo relacionados com a possibilidade de uma evolução mais adversa da pandemia. O Boletim engloba, por essa razão, um cenário alternativo mais severo para a economia portuguesa e mundial, no qual se assume uma nova vaga de infeções e consequente reintrodução de medidas de contenção rigorosas, com efeitos mais severos e persistentes sobre a atividade e sobre o mercado de trabalho.

“Num contexto de globalização e de forte integração das economias, a resposta à crise pandémica exige uma coordenação supranacional das políticas económicas e pressupõe uma reconfiguração das cadeias de produção por parte das empresas, mas evitando a adoção de medidas protecionistas redutoras dos ganhos de bem-estar inerentes ao comércio internacional de bens e serviços”, refere o BdP.

No que respeita ao enquadramento económico europeu, a entidade supervisora da banca admite que “é importante limitar os potenciais impactos negativos sobre a convergência real associados a uma recuperação que se espera assimétrica, refletindo as estruturas produtivas dos países e os desequilíbrios estruturais pré-existentes”.

Para além dos esforços de investimento anunciados e que se mantêm enquadrados com as preocupações de sustentabilidade, o BdP salienta que “o processo de recuperação da crise deverá resultar num reforço dos mecanismos institucionais indispensáveis ao aprofundamento da União Económica e Monetária”.

E conclui que “a economia portuguesa está plenamente inserida neste contexto europeu e internacional, mantendo-se, porém, a necessidade de ajustar as opções de política às especificidades do tecido produtivo e às escolhas coletivas”.

Economia mundial em queda
Segundo as hipóteses do Eurosistema que enquadram as projeções para a economia portuguesa apresentadas no Boletim do Banco de Portugal – com data de fecho a 18 de maio – o PIB mundial deverá registar uma queda de aproximadamente 4,5% em 2020, o que constitui a recessão mais profunda desde a Grande Depressão em 1929-32.

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A recuperação prevista para 2021 e 2022 será relativamente robusta (6% e 3,8%, respetivamente), mas insuficiente para alcançar no final do horizonte de projeção o nível de atividade que era projetado antes da crise pandémica. Em 2022, o PIB mundial deverá situar–se ainda 4% abaixo do antecipado no exercício de projeção de dezembro de 2019, que serve como referência para um cenário contra factual sem pandemia.

Em relação ao comércio mundial, projeta-se uma contração em volume de 12,7% em 2020, refletindo o impacto especialmente negativo da crise nas cadeias de valor globais de bens e no comércio de serviços. Os serviços de transportes e de turismo são particularmente afetados pelas restrições à circulação e pelo distanciamento social. Nos anos seguintes, antecipa-se uma recuperação dos fluxos de comércio internacional a um ritmo apenas ligeiramente superior ao projetado para o PIB mundial.