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inRetail em tempos de “reset da sociedade” 

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No ano em que o InRetail chega à sua 10ª edição e com a pandemia de Covid-19 a trazer novos desafios numa segunda vaga que exige novas restrições e medidas, a organização do evento composta pela Distribuição Hoje e pela IFE Abilways optou por um formato 100% digital. No primeiro dia, foram debatidos temas como a sustentabilidade, o e-commerce, as tendências e as novas verdades que as organizações têm de enfrentar neste “never” normal.

Em segurança, apresentadores, moderadores e oradores estiveram à distância mas conseguiram reunir a atenção de cerca de 170 pessoas que acederam ao live streaming deste primeiro meio dia de conferência.

 

A sessão de abertura contou com João Torres, secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor que realçou dois grandes desafios com que nos confrontamos a nível nacional: a inovação e a sustentabilidade e essa já era uma realidade antes da pandemia trocar as voltas ao País e ao mundo. “Deixo uma mensagem de confiança e de esperança e de disponibilidade do governo para ser um agente proativo daquela que é inovação que vemos acontecer neste setor”, afirmou.

Seguiu-se a apresentação de Ricardo Monteiro da Silva, group director da Fjord Trends Lisboa que começou por abordar a forma como as organizações devem responder a este “never normal” que vivemos atualmente. Referindo-se a estes tempos como a era da incerteza, o orador sublinhou que aquilo que conhecíamos até esta pandemia deixará de ser igual e as experiências vão passar a ser diferentes. “Vivemos o ‘nunca normal’ e existem algumas tensões que estão a emergir: nesta luta entre o nós e o eu, o que é que irá ganhar? O global versus o local? A ideia de um mercado liberalizado ou um Estado que intervenciona mais?”, questionou.

O orador apontou cinco grandes tendências para o comportamento das pessoas, desde logo, o custo da confiança (quanto maior é a decisão a tomar, maior é a confiança que vamos necessitar e as marcas bem estabelecidas têm mais impacto nas pessoas); o século virtual, uma vez que todos os negócios tiveram de tornar-se mais digitais de um dia para o outro e houve um crescimento do e-commerce que foi acelerado pela Covid-19 com uma tendência atual e futura dos consumidores comprarem online e o facto de todos os negócios serem atualmente negócios de saúde. “De repente, ficámos todos um pouco mais hipocondríacos do que éramos. Não podemos só contar com o Estado para nos proteger, as experiências de saúde vão ganhar uma maior dinâmica e todos os negócios têm de pensar na mesma”, referiu.

As duas últimas tendências desta era da incerteza são o Cocooning e a reinvenção da autoridade. “Com o vírus a espalhar-se globalmente, o lar é o epicentro das nossas vidas e experiências. A casa é o nosso local seguro. Tem existido um aumento dramático dos gastos domésticos (eletricidade, internet, água) que antes não estavam na fatura mensal”, explicou Ricardo Monteiro da Silva em relação ao Cocooning. Por outro lado, a autoridade está a ser reinventada ainda que esteja associada a um papel de maior destaque com o Estado a ganhar mais importância, mas as pessoas mais insatisfeitas. Em resumo, o orador afirmou: “Este é o momento de viragem, do grande reset da sociedade mas uma oportunidade para perceber como interagimos, consumimos, socializamos, trabalhamos e vivemos”.

Online e offline: um equilíbrio cada vez mais necessário

Com a moderação de Gonçalo Lobo Xavier, diretor geral da APED, os convidados Paulo Borges, managing director da Flying Tiger; Juan Miguel del Águila, CEO da Kiabi; José Miguel Marcelino, district manager da C&A Portugal e Inês Drummond Borges, diretora de marketing da Worten partilharam a sua experiência com as pessoas que estavam a assistir em live streaming. O setor está a reinventar-se diariamente e tem demonstrando uma enorme resiliência, elogiou Gonçalo Lobo Xavier.

Paulo Borges começou por explicar que a realidade do e-commerce começou no início do ano na casa mãe da Flying Tiger, na Dinamarca. Por sua vez, em Portugal, marca optou pelo marketplace para que os clientes possam aceder aos produtos sem sair de casa. “Torna-se difícil replicar o contacto e a experiência que conseguimos passar aos clientes e que são menos impessoais no online. As lojas físicas são o nosso core business e têm sofrido bastante com as restrições da pandemia”, sublinhou. A solução apressada, apesar de não ser ideal para os responsáveis, cumpre a expetativa dos clientes, missão mais importante do que qualquer motivação financeira. “Mas estamos a trabalhar numa plataforma devidamente direcionada para o cliente”, avançou Paulo Borges.

Inês Drummond Borges assinalou o crescimento por sete vezes superior no volume de vendas através do online, quando comparado com o período homólogo. “Duplicámos a nossa quota de mercado no primeiro semestre, o online continuou a crescer muito mas desceu no período do desconfinamento porque os clientes voltaram mais às lojas”, salientou, sublinhando que 85% das encomendas online foram entregues antes do previsto aos clientes. “Temos de tirar partido dos benefícios do online e do offline sendo que o equilíbrio entre ambos muda consoante as necessidades dos clientes que também são alteradas”, explicou a diretora de marketing.

Juan Miguel del Águila reforçou que a Kobi foi uma das primeiras empresas a enfrentar o desafio do online. “O futuro passa pelo equilíbrio entre o digital e o mundo físico. Estamos conscientes de que temos de aumentar a notoriedade da marca em Portugal e isso passa por continuar a melhorar as suas coleções e por ter mais lojas físicas. Temos a ambição de dobrar o total de lojas no mercado português nos próximos anos”, assinalou.

A loja online da C&A Portugal foi lançada há cerca de três anos e a empresa tem vindo a verificar o crescimento do e-commerce atendendo à pandemia. “Duplicámos os acessos ao site e triplicámos as vendas neste canal e tem sido uma oportunidade de negócio de nos reinventarmos”, explicou José Miguel Marcelino, district manager. Durante estes meses de confinamento, a C&A Portugal ganhou 30% de novos clientes que nunca tinham contactado com a marca. “Acreditamos que o consumidor está cada vez mais à vontade para utilizar o comércio online e tem ganho confiança”, disse.

Nesta mesa redonda, foi ainda referida a necessidade de ser realizada uma campanha de incentivo às compras de Natal antecipadas e do esforço das empresas do retalho para prolongarem o período de trocas e de devoluções.

Green table

A mesa redonda que fechou o primeiro dia do InRetail, dedicado ao tema da sustentabilidade, reuniu Plácido Albuquerque, diretor Meio Ambiente da Mercadona, Ludovic Reysset, country manager da Danone, Elke Muranyi, corporate responsability director do Aldi, Ana Barbosa, sustainability manager da IKEA e José Oliveira, country sales director da DS Smith.

A IKEA tem-se debatido com várias questões para debater, como as crescentes desigualdades na sociedade, emergência climática e maiores exigências dos consumidores nesta área. “A sustentabilidade não é algo novo na IKEA, está no nosso ADN e código de conduta. Estamos investidos em atingir metas até 2030 com uma estratégia bastante clara e uma estrutura baseada em três pilares: uma vida saudável e sustentável, negócio circular e positivo para o clima e um negócio justo e igualitário que pretende ter um impacto positivo nas pessoas que tocamos, desde os nossos colaboradores, fornecedores, comunidades em que estamos inseridos e grupos vulneráveis dentro das mesmas”, referiu Ana Barbosa.

O Aldi, enquanto retalhista alimentar, assumiu a responsabilidade de ser um exemplo para consumidores atuais e gerações futuras. “Sentimo-nos na obrigação de impulsionar novos e melhores produtos e isso passa pela sensibilização do consumidor no que respeita a escolhas de consumo mais saudáveis”, referiu Elke Muranyi.

José Oliveira adiantou que o propósito da DS Smith é redefinir o packaging para um mundo em constante mudança. “Conseguimos reduzir 200 milhões de embalagens do mercado. A embalagem é a primeira imagem de marca para o cliente e a trabalhamos afincadamente para que as embalagens demonstrem a sua solidez e sustentabilidade.”

Ludovic Reyseet referiu que a Danone segue a missão: “one planet, one health” e que anunciou a nível mundial o investimento de dois milhões de euros para mudar todas as fábricas da empresa. Considerando que o consumidor “não está disposto a pagar mais por produtos mais sustentáveis”, deu o exemplo da decisão difícil de retirar a tampa de plástico das embalagens de iogurtes líquidos, o que representou 150 milhões de tampas de plástico a menos em Portugal que foi “muito criticada pelos consumidores e que até teve impacto nas vendas apesar do claro benefício para o planeta”.

A estratégia 6.25 da Mercadona reúne seis ações para atingir um triplo objetivo até 2025: diminuir em 25% o plástico das embalagens, promover o desenvolvimento de embalagens recicláveis / compostáveis; reciclar os resíduos de plástico gerados nas lojas e formar e informar os clientes de como se deve efetuar a separação correta dos resíduos. Plácido Albuquerque explicou que o retalhista aposta na prevenção do desperdício alimentar e que faz o seguimento dos pedidos em tempo real nas suas lojas de forma a apostar na prevenção dos stocks em excesso. “Temos também uma política de doações e de preços baixos”, acrescentou.

Ana Barbosa acrescentou que a IKEA assume a responsabilidade de querer democratizar a sustentabilidade e, para isso, pretende desenvolver a cadeia de valor no sentido de não aumentar os preços dos produtos mais sustentáveis. “A IKEA estima que um casal possa poupar 500 euros por ano no consumo de água, de eletricidade e ao evitar desperdício alimentar, valor que consideramos muito significativo”, afirmou, adiantando que a marca tem conselhos práticos para os clientes no seu site. A oradora considera que nem sempre é possível para os consumidores pagar por produtos sustentáveis mais caros e, por sua vez, Ludovic Reyseet assinalou que “ainda há um gap enorme entre a intenção de cada um em salvar o planeta e a realidade do consumidor quando está em frente ao linear”.

Os oradores confirmaram que a pandemia de Covid-19 antecipou algumas estratégias na área de sustentabilidade nas suas empresas e lançou novos desafios aos consumidores que se mostram mais preocupados com os temas ligados ao retalho sustentável. No final deste primeiro dia, Victor Jorge, Editor-in-Chief da Distribuição Hoje anunciou e apresentou um vídeo promocional referente ao lançamento da Revista Sustentável, a nova publicação especializada da IFE by Abilways que chega esta semana às bancas. Visite www.revistasustentavel.pt e fique atento às novidades.

* Leia a reportagem alargada sobre a 10ª edição do InRetail na próxima edição da DISTRIBUIÇÃO HOJE