Vinhos

“A qualidade por si só não chega para uma marca ter sucesso”

“A qualidade por si só não chega para uma marca ter sucesso”

O enólogo e produtor defende que para este sucesso, “tem de haver um elemento diferenciador” nos vinhos que atraia o consumidor. Uma estratégia em que tem apostado ao longo dos anos nas cinco regiões em que o grupo produz, com destaque para Alentejo, Douro e Vinhos Verdes. 

João Portugal Ramos foi um dos pioneiros dos modernos vinhos do Alentejo, e não só. Depois de vários anos como enólogo consultor de diversos produtores decidiu avançar com o seu próprio projeto em Estremoz, em 1981, cujas vinhas na encosta da entrada da cidade se tornaram um ex-libris da sua imagem, com a torre do castelo e a pousada ao cimo. “Começámos a produzir em 1992 e a adega foi inaugurada em 1997”, explica-nos o produtor.

Datas que marcam também o lançamento dos vinhos mais emblemáticos do grupo: embora o Vila Santa tivesse sido o primeiro, em 1992, a marca Marquês de Borba, que surgiu em 1997, “é hoje a que tem maior notoriedade e da qual produzimos maior quantidade”, conta João Portugal Ramos à DISTRIBUIÇÃO HOJE.

“O Marquês de Borba tem uma estratégia muito bem delineada em termos de distribuição”, sendo comercializado, tal como todas as outras marcas, através da Active Brands (empresa do grupo dedicada à distribuição de vinhos e bebidas espirituosas em Portugal), adianta o enólogo principal da João Portugal Ramos Vinhos.

“A qualidade por si só não chega para uma marca ter sucesso, tem de haver um elemento diferenciador” nos vinhos que atraia o consumidor, e é isso que “sempre temos procurado em todas as regiões em que produzimos”. O empresário adianta que o grupo está “a crescer mais do que o mercado, nos vinhos mais do que 5% ao ano”.

Espumantes são aposta

O produtor diz ainda que “a produção do Marquês de Borba ronda um milhão de garrafas, ou seja cerca de dois terços dos nossos vinhos do Alentejo”. Foi precisamente nesta marca que João Portugal Ramos apostou para lançar o seu primeiro Espumante na região, no final da primavera do ano passado. Um Espumante Rosé DOC Premium num blend que combina as castas Pinot Noir, Touriga Nacional e Aragonez. E que “foi um sucesso, porque as 6.000 garrafas que fizemos esgotaram em cerca de três meses”, pelo que a próxima edição já está em estágio.

Também nos Espumantes são as novidades para o verão deste ano, neste caso da região dos Vinhos Verdes. Nesse projeto, o grupo não tem vinhas próprias comprando uva a vários produtores selecionados, com quem tem contratos de longa duração mas possui uma adega em Monção (inaugurada em 2013 e com capacidade para receber 300.000 kg de uva) e o enólogo trabalha a par de Antonina Barbosa, que já dirigia também a enologia e a produção na Falua, a empresa do grupo na região do Tejo.

Consolidação de olhos postos no crescimento

Bem recente é a aquisição pelo grupo João Portugal Ramos da CR&F, no final de 2016, que assim volta a mãos portuguesas, depois de nos anos 90 ter passado para o controlo de uma multinacional e agora pertencia agora à Beam Suntory, a terceira maior empresa de bebidas do mundo.

O investimento foi de cerca de quatro milhões de euros, diz-nos o empresário, para adquirir a Carvalho Ribeiro & Ferreira, fundada em 1895, que tem hoje um volume de negócios de cerca de cinco milhões euros, e como produto mais representativo a Aguardente Reserva CR&F, líder em Portugal, com uma quota de mercado de 64%.

João Portugal Ramos assegura que o grupo está “numa fase de consolidação, de arrumar a casa” porque “já investimos muito”, mas vai referindo: “sempre com perspetiva de crescimento”, não fechando a porta à possibilidade de compra de vinhas (como referiu especificamente para os Vinhos Verdes, mas não só), “temos cerca de um terço de vinhas próprias, um terço de vinhas arrendadas e um terço em contratos de longa duração com produtores para a compra de uva”.

O grupo exporta cerca de 60% da sua produção, sendo os principais países de destino o Norte da Europa, os EUA, o Canadá, a Ásia, o Brasil, Angola e o Reino Unido. E o enólogo refere que “o grupo está a procurar entrar em novos mercados específicos, como a China” e sublinha que “o Alentejo, o Douro e os Vinhos Verdes estão a ter um sucesso enorme e quanto ao Tejo, estamos preparados para crescer assim que a região cresça”.

Em Portugal, a distribuição dos vinhos, azeite, vinagre e aguardente do grupo são da responsabilidade da Active Brands, que “tem uma administração autónoma e cuja estratégia para cada marca é definida em conjunto com o seu proprietário”, explica o produtor. As vendas distribuem-se em 40% na distribuição moderna e 60% no canal HoReCa. Lá fora “é difícil estar no HoReCa mas tentamos apostar nos dois canais”. A venda está a cargo de distribuidores em cada mercado e a expedição está concentrada no Alentejo (para os vinhos da região) e no Tejo (para todos os outros).

Inovar mantendo a tradição

Sempre à procura do tal “elemento diferenciador”, em cerca de 300 barricas da adega Vila Santa em Estremoz (que tem cerca de 2000 barricas onde envelhecem os topos de gama do grupo), João Portugal Ramos conta-nos que “temos alguns brancos e tintos a fermentar em barrica, com batonnage uma vez por dia, porque os vinhos ficam com uma boca mais complexa e taninos mais suaves”.

A par destes novos métodos, alguns dos vinhos topos de gama e dos monocastas ainda são feitos pelo sistema tradicional de pisa a pé, uma vez que “no lagar há mais contacto entre as massas sólidas e o líquido e, uma vez que o fazemos sem recurso a bomba, é mais suave para o vinho”, explica o filho, João Maria Ramos, há três anos a trabalhar no grupo como enólogo assistente, salientando que “também usamos leveduras autóctones”.

Muitas das uvas ainda são também vindimadas à mão, sendo que o produtor faz uma parte de vindima noturna para fugir ao calor do Alentejo, mas cerca de 50% das uvas já são vindimadas mecanicamente.

Voltando ao percurso do grupo João Portugal Ramos, a marca Loios, entrada de gama do produtor no Alentejo, surgiu em 2002 e apresenta as referências Tinto e Branco. A marca foi alvo de um restyling de imagem na colheita de 2016, lançada no início da primavera deste ano, apostando num look mais límpido e elegante, dando destaque central à rosácea que representa os vitrais de uma igreja, que anteriormente se encontrava na lateral do rótulo. O empresário diz-nos que a produção anual do Loios se situa entre as 360 000 a 400 000 garrafas.

A irreverência do Pouca Roupa

Continuando no Alentejo, em 2015 João Portugal Ramos lança o projeto Pouca Roupa, na prática liderada pelo filho, João Maria Ramos, que delineou este vinho com um posicionamento jovem e informal, “destinado à geração que vive online e constantemente ligados, que cria e vive experiências”, explicava a marca em comunicado, afirmando que é “ideal para os encontros de amigos”.

Estes são os primeiros vinhos que João Portugal Ramos desenvolveu com o seu filho salientando que “é um desafio e um privilégio poder partilhar esta experiência com o meu filho. O primeiro projeto profissional que abraça aqui na adega não deixa de ser interessante participar comigo na criação de vinhos destinados a jovens da sua idade”.

O nome da marca é também o nome do monte alentejano, onde está a vinha que dá origem a este vinho, sendo ainda um “apelido comum no Alentejo”. O nome foi atribuído depois de um estudo de mercado, junto dos consumidores. A marca tem três referências: Tinto, Branco e Rosé.

Douro e Vinhos Verdes são grandes desafios

Falando agora dos vários projetos fora do Alentejo, na década de 80 (ainda antes de iniciar a produção em Estremoz) João Portugal Ramos torna-se consultor e enólogo da Quinta de Foz de Arouce, na Lousã, Beira Baixa, ao casar com a filha dos proprietários. Introduz maior rigor na condução das vinhas com mais de 40 anos, tratamento vitícola e maior controlo na vinificação. Inicia a fermentação de brancos em barricas e estágio também em barricas, dos vinhos tintos e em 1987 engarrafa e comercializa-se o primeiro Quinta de Foz de Arouce. “A Quinta está na família da minha mulher há cerca de 400 anos e hoje produzimos cerca de 40 000 garrafas das três referências da marca”, adianta o empresário.

Em 2004 nasce a Falua, com uma adega em Almeirim, tendo como objetivo prioritário engrandecer os vinhos da região Tejo, com a marca Conde de Vimioso, e torná-los mais conhecidos no mundo. Mas, lamenta João Portugal Ramos, “o Tejo é uma região difícil de entender pelo consumidor, que não a valoriza muito”. Por isso, os investimentos na região são para manter mas não para crescer, pelo menos enquanto o Tejo não conseguir maior notoriedade e, consequentemente, uma melhor valorização dos vinhos.

Grandes apostas continuarão a ser o projeto Duorum, que surgiu em 2007, e os Vinhos Verdes, em 2013 (como já explicámos em cima).

O projeto Duorum nasce das mãos de dois enólogos que marcam a história do vinho em Portugal nas últimas décadas – João Portugal Ramos e José Maria Soares Franco. Um projeto pensado para o Douro, nas regiões do Cima Corgo e Douro Superior, terroirs excecionais, com ambição e dimensão para se afirmar no mercado português e internacional. “Plantámos 60 hectares de vinhas novas e alugámos cerca de 70 hectares de vinhas velhas”, conta João Portugal Ramos, adiantando que “sempre quisemos apostar nos vinhos tranquilos, mas com as vinhas velhas acabámos por começar também a produzir algumas categorias especiais, como o LBV e o Vintage”. O enólogo afirma ainda: “estamos muito satisfeitos com a qualidade” e a aceitação do mercado tem sido muito boa.

Deste “projeto extraordinário, mas muito arrojado, que exigiu muito tempo e trabalho” o grupo tem duas marcas – Duorum e Tons de Duorom (gama de entrada) – com diversas referências.

Sobre o projeto nos Vinhos Verdes o enólogo conta tê-lo lançado “porque um agente nosso nos Estados Unidos pediu se não podíamos ter Vinhos Verdes”, acrescentando que “por agora, na região, temos contratos de longa duração para a compra de uva, mas podemos vir a comprar vinhas”.

Ler artigo na íntegra na edição de junho de 2017 da revista DISTRIBUIÇÃO HOJE