Favaios, o sinónimo de moscatel

Ricardo Martins 6 de Abril - 2011

Em Favaios “moram” as principais marcas de moscatel de Portugal, pelo menos a acreditar nas quotas de mercado que detêm as marcas Favaios e Favaíto. Fomos visitar as instalações desta adega que, apesar de ter existir desde 1952, não quer ficar parada no tempo.

Com cerca de 1500 habitantes, a aldeia de Favaios, no concelho de Alijó, distrito de Vila Real, é a sede de uma das maiores adegas cooperativas de Portugal. Falamos da Adega Cooperativa de Favaios, mais conhecida dentro e fora de portas como sendo a casa do moscatel Favaios (garrafas de 75 cl.) e Favaíto (garrafas de 75 cl. e miniaturas de 6cl.).

Criada em 1952, a Cooperativa tem atualmente qualquer coisa como 550 sócios, proprietários de, no total, uma extensão de 1100 hectares de vinha. Com uma capacidade máxima produtiva de sete milhões de litros, normalmente coloca no mercado, entre moscatel e outros vinhos, cerca de seis milhões de litros, o que lhe dá o “título” de segunda maior adega da região do Douro.

Em 2004 foi realizado um investimento de 7,5 milhões de euros nas instalações da adega, juntamente também com a adoção de uma nova forma de encarar o negócio, com uma equipa de gestão profissional, para cimentar ainda mais a evolução da marca. Segundo José Gradim, diretor comercial, «se não o tivéssemos feito provavelmente não estaríamos aqui». Como nos revelou o responsável, é no moscatel que têm o maior peso de vendas, seja através de Favaíto (43%), seja através da marca Favaios (24%). No entanto, há ainda assim espaço para o vinho do Porto (14%), vinho regional (11%), DOC (2%) e outras bebidas, com uma percentagem de 6%.

Demonstrativo do peso que tem no segmento dos moscatéis é o facto de a adega deter uma quota de 60% nesse campo. Já no campo dos aperitivos, apresenta uma quota de cerca de 22%, o que lhe vale a segunda posição, sendo que o primeiro classificado se encontra com pouco mais de 50%. No entanto, têm o orgulho de serem a primeira marca portuguesa. José Gradim afirma que «somos como o Obélix e Astérix a lutar contra os romanos. Temos uma pequena aldeia que luta contra um gigante, mas que tem resistido imenso». E a evidência disso é que a sua quota de mercado tem vindo a aumentar, enquanto a do primeiro tem diminuído. No entanto, «chegar a primeiro é difícil», uma vez que se luta com uma multinacional que, segundo o responsável, oferece uma marca similar de moscatel na compra de determinadas quantidades do principal produto.

As imitações fazem mossa

Apesar das boas perspetivas dos últimos anos, recentemente a quota de mercado diminuiu um pouco. A culpa, pelo que afirma José Gradim, está nas imitações do Favaios e Favaíto, que lhes retiraram quota. Sendo na mesma moscatel, diversas marcas adotaram uma imagem visual e uma fonética idêntica, afirma o responsável. Não será tanto o consumidor final que se “engana” na compra, porque pelo que nos foi dito, quando quer comprar fá-lo sem errar na marca. O problema para a adega está no consumo no canal Horeca (que absorve 63% do produto), onde as imitações entram com um custo bastante inferior, sendo vendidas pelo comerciante ao mesmo preço final. Ou seja, proporcionam uma margem maior. Daí os responsáveis da adega apelarem, sempre, a que se o consumidor pretender um dos seus produtos, verifique, de facto, se assim é. E não algo idêntico e que se aproveita da notoriedade alheia.

A Adega Cooperativa de Favaios apresenta uma faturação média anual de 12 milhões de euros, sendo que cerca de 15% desse valor é resultado da exportação. Na saída para o estrangeiro o rei continua a ser o moscatel, com um peso de 58% no total das exportações, mas o vinho do Porto assume também um importante papel, com 35%, praticamente todo para a Holanda. Nos outros países, dos mais de 20, para onde exportam encontramos França, Alemanha, Suíça, Luxemburgo, Bélgica, Angola e Polónia. Neste último a presença está a ser feita através da cadeia Biedronka, da Jerónimo Martins.

Planos para um moscatel menos doce

Segundo Miguel Ferreira, enólogo da Adega Cooperativa de Favaios, existem três fatores que tornam este moscatel diferente dos demais: «o planalto de Favaios, cujo solo e clima influenciam muito o vinho final; a casta Moscatel Galego, que tem características únicas; e a tecnologia / tradição, a forma como é feito e envelhecido, vinificado, ao longo dos anos. Os três aspetos fazem do vinho o que ele é».

O processo de fabrico, como costuma o responsável revelar aos mais leigos no assunto, é «semelhante ao Porto: vinho em fermentação alcoólica em maceração pelicular, onde ao final de três ou quatro dias interrompemos a fermentação adicionando aguardente vínica», facto que permite ficar com um vinho «naturalmente doce e rico a nível alcoólico».

O envelhecimento é decidido conforme o destino: «se é para o Favaios e para o Favaíto têm cerca de três anos de envelhecimento, normalmente 100% em depósitos de aço inox. Se temos um vinho especial, de qualidade superior, então o envelhecimento é todo em madeira de carvalho americano e francês». De referir que os cascos antigos são utilizados continuamente – «temos barricas com mais de 30 anos» -, uma vez que «não queremos marcar o vinho com madeira».

As linhas de enchimento situam-se na própria adega, e a principal é a do Favaíto, que trabalha todos os dias do ano, por vezes por turnos. Com cerca de 16 mil garrafas de 6 cl por hora, produz qualquer coisa como 25 milhões de miniaturas anualmente. Existem também mais duas outras linhas, ambas com níveis de produção de três mil garrafas hora: uma para Favaios clássico (produz 1,5 milhão por ano), e outra para os restantes vinhos de consumo.

Em termos de prémios conquistados o enólogo destaca o Special Prize, no concurso "Citadelles du Vin", que decorreu em Bordeús em 2009, conquistado pelo Favaíto. Isto porque «estamos a falar de um vinho que vende mais de um milhão de litros por ano. É diferente do reconhecimento de um vinho que faz, por exemplo, 3 mil litros por ano».

Para o futuro, talvez ainda em 2011, está a ser estudado o lançamento de um moscatel com «mais características de aperitivo, e portanto menos doce». Será outra marca «para tentar atrair os consumidores que não gostam tanto dos moscatéis doces», bem como a franja mais jovem da população. 

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