Angola

2 de Junho - 2010

Por Pedro Miguel Silva, senior manager de consultoria da Deloitte

O elevado crescimento económico e a afinidade cultural e linguística com Portugal tornaram Angola, nos últimos anos, um dos destinos preferenciais para a internacionalização de empresas portuguesas. Sectores como construção, banca, telecomunicações e, mais recentemente, a Distribuição tentam encontrar neste país as oportunidades de crescimento que escasseiam mais próximo de casa.

Tentarei por isso partilhar, em seguida, algumas impressões gerais sobre o sector da distribuição em Angola, que me ficaram das prolongadas estadias que tenho tido neste país.

Procura

Angola possui um segmento afluente de consumidores que é constituído, essencialmente, por trabalhadores expatriados, empresários e quadros médios ou de topo dos sectores público e privado angolano. Este segmento é efectivamente o actual mercado das cadeias de distribuição presentes no país e encontra-se, quase na sua totalidade, concentrado em Luanda.

Apesar de ter uma população estimada entre 14 e 18 milhões, apenas uma minoria tem hoje o rendimento disponível para aceder a artigos importados, os quais representam mais de 60% do consumo de bens alimentares e a quase totalidade de outros bens de consumo. A restante população vive ainda em regime de subsistência: segundo estimativas de 2007 das Nações Unidas, cerca de 70% da população vive abaixo do limiar da pobreza e com um rendimento inferior a $2 por dia.

O surgimento futuro de uma, muito aguardada, classe média encontra-se dependente da ocorrência de dois factores estruturais:

• O crescimento dos sectores secundário e terciário, os quais geram emprego em quantidade e diversidade superior às indústrias extractivas, que são muito localizadas, especializadas e pouco consumidoras de mão-de-obra.

• A massificação do acesso da generalidade da população a serviços essenciais de habitação, transportes, saúde e educação que lhes permita libertar o rendimento necessário para acederem aos mercados de consumo.

Oferta actual

A generalidade dos bens embalados consumidos no país é importada via Brasil, Portugal e África do Sul. As cadeias de distribuição estão concentradas na cidade e arredores de Luanda, com algumas excepções:

• As cadeias Nosso Super, Poupa lá e Nossa Casa, criadas no âmbito do PRESILD (Programa de Reestruturação do Sistema de Logística e de Distribuição de Produtos Essenciais à População) e com o objectivo de servir todo o território angolano.

• Grandes armazenistas e grossistas alimentares como a Golfrate, Arosfran, Atlas Group e Angoalissar.

• Algumas cadeias de retalho especializado como a Sistec e a Medtech.

Cada categoria tem o seu estabelecimento de referência em Luanda, como a Casa dos Frescos para bens alimentares premium, as Pedras Negras para TV, vídeo e electrodomésticos ou a NCR e a Sistec para equipamentos informáticos.

A população com menos recursos abastece-se junto de armazenistas, mercados e cantinas (minimercados) mas também no mercado informal, que é constituído por estabelecimentos não licenciados e vendedores de rua.

Rede logística

A recuperação das vias de acesso, em particular à volta da capital, tem sido um dos alvos prioritários do investimento público. Luanda consegue ser hoje abastecida regularmente por via terrestre, marítima e aérea, com tempos de espera e processamento significativamente inferiores aos registados no passado. As taxas de importação podem variar entre 2%, taxa aplicada a alimentos essenciais como arroz, aveia, milho e trigo, e 30%.

A distribuição posterior da mercadoria sofre contudo de grandes dificuldades: o espaço de armazenagem é escasso e caro e o transporte é pouco fiável e muito exposto a perdas. As poucas localizações atraentes para novas lojas têm rendas muito elevadas, atingindo valores superiores a 100 dólares por metro quadrado.

Oportunidades e desafios

Acredito que, com a redução das barreiras anteriormente referidas e que impedem o acesso da grande parte da população aos mercados de consumo, possa existir espaço para a entrada de novos conceitos e operadores capazes de endereçar os seguintes factores críticos de sucesso:

• Investimento em activos como armazéns e frota de distribuição necessários à criação de uma rede logística fiável e eficiente.

• Redução progressiva da dependência de bens importados através do apoio ao desenvolvimento da produção local.

• Desenvolvimento e retenção de mão-de-obra qualificada angolana, condição essencial para a sustentabilidade de qualquer empresa de serviços.

• Participação nos grandes projectos imobiliários planeados ou em curso, nomeadamente em zonas residenciais (e.g. Kilamba Kiaxi) e centros comerciais (e.g. Comandante Gika, Kinanixe), onde nascem hoje as futuras localizações prime de retalho.

Destaque

Apesar de ter uma população estimada entre 14 e 18 milhões, apenas uma minoria tem hoje o rendimento disponível para aceder a artigos importados, os quais representam mais de 60% do consumo de bens alimentares e a quase totalidade de outros bens de consumo.

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