Produção

Brieftime: “Queremos fechar este ano com uma faturação superior a dez milhões de euros”

Brieftime - pizza refrigerada - Distribuição Hoje

Pedro Teixeira, CEO da Brieftime, da Splendid Opportunity e da Dominant Slice, trabalhou durante quinze anos na Grande Distribuição até que decidiu lançar-se num negócio próprio. Juntamente com mais dois sócios, criou a Brieftime, em 2014, sob o lema “Portugal Food Makers”. Um ano depois, a empresa entrou no fundo de investimento, Capital Criativo. O que começou como uma startup numa categoria madura [de pizzas refrigeradas], rapidamente cresceu e ultrapassou as expetativas.

Como tem sido o crescimento da Brieftime deste a sua fundação?

A empresa é muito recente, foi criada em 2014. O ano seguinte foi dedicado a negociações de forma a dar corpo ao projeto. Submetemos o projeto ao QREN, começámos a negociação normal com banca e parceiros, tendo também a entrada de um fundo de investimento (Portugal 2020), o que nos permitiu dar uma dimensão diferente àquilo que inicialmente tínhamos projetado. Na altura, estávamos à procura de um armazém de 2 a três mil metros e acabámos num de 5 mil no sentido de poder aumentar e alargar uma segunda linha de produção. Fomos então para um armazém maior que é este onde estamos atualmente, em Porto Alto.

Em 2015, começámos os testes de produção, e em março de 2016, já estávamos a comercializar.

Qual o balanço que faz do primeiro ano de produção?

Em Março de 2017 comemorámos um ano de produção. Começámos a produzir duas pizzas da marca Sonae em Março, e em junho, passámos a 14, ficando com toda a gama de pizzas refrigeradas do grupo. Foi um salto quantitativo substancial. Passámos do fabrico e produção de cerca de 100 mil pizzas por mês para 500 mil.

Já estávamos na Grande Distribuição com o grupo DIA e com uma marca nossa com duas pizzas: a marca Slice me e a Bucca. Continuamos nesta marca com as duas referências. O Grupo Dia e a Sonae são os nossos principais clientes, o que coincide com o nosso objetivo de trabalhar o canal da Grande Distribuição.

Como é que tem assistido a este novo negócio numa fase algo conturbada da conjuntura económica do país?

Não havia nenhuma fábrica de pizzas em Portugal. No nosso país, este é um mercado que vale cerca de 30 a 35 milhões só no canal da Grande Distribuição. Esta é uma categoria madura no mercado (pizzas refrigeradas) e tínhamos dois grandes players espanhóis que quase bipolarizavam o mercado: dois grandes fornecedores, com um grande know how na elaboração de pizzas… Estamos em todas as lojas Dia, Continente e temos uma distribuição completa no mercado português.

O maior obstáculo foi entrar num mercado como uma start up para uma categoria tão madura pois tivemos de dar uma grande prova de confiança aos clientes, nomeadamente ao Grupo Sonae (ver caixa). Tínhamos planeado entrar no mercado com quatro grupos mais pequenos mas fomos confrontados, de um momento para o outro, com a possibilidade de entrar na Sonae. Tivemos de concentrar todos os esforços neste grande cliente e demorámos nove meses a fechar esta parceria. Foi um projeto feito desde raiz, desde a escolha da base, a procura de matérias-primas e a elaboração de receitas. Foi um processo longo que contou com a dedicação total da nossa parte.

Havia uma natural desconfiança por sermos uma empresa nova no mercado, que não tinha know how nesta área… O resultado final foi positivo e contámos com um grande apoio da Sonae que nos fez crescer enquanto empresa.

 Foi importante a troca de sinergias com um grande grupo como a Sonae?

Trabalhei muitos anos na Grande Distribuição e nunca assisti a uma parceria tão grande como esta. Fomos ganhando a confiança do grupo ao longo do tempo. Trabalhámos em conjunto e tivemos equipas ligadas às áreas de desenvolvimento de produto, comercial, de qualidade, que estiveram presentes na fábrica ao longo destes nove meses, todas as semanas, e que continuam ainda hoje a acompanhar o processo.

Este é um processo evolutivo que não terminou com a comercialização. Estamos agora a trabalhar no desenvolvimento de novos produtos e novas referências. Apostamos também no desenvolvimento de produtos com matérias-primas nacionais, como é o caso da pizza alentejana e da pizza transmontana, também com a marca “Fácil e Bom” da Sonae. Em seis, sete meses, conseguimos concluir o projeto. Ganhámos recentemente o prémio “Sabor do Ano” com todas as pizzas refrigeradas da Sonae.

A aposta em matérias-primas nacionais é uma realidade?

Infelizmente temos poucas matérias-primas nacionais e é algo que não está de acordo com aquilo que projetámos inicialmente. Os consumidores valorizam muito os produtos nacionais mas temos imensa dificuldade em arranjar fornecedores portugueses para este tipo de mercado. Como não há muita indústria de pizzas refrigeradas em Portugal, mesmo as multinacionais que temos em Portugal não dão resposta por estarem mais vocacionadas para o retalho. Os fornecedores espanhóis são muito competitivos e não gostam de perder qualquer tipo de negócio.

Brieftime - produção - Distribuição Hoje

Ainda há espaço para inovar neste mercado?

A pizza é um produto muito versátil e flexível de trabalhar. Conseguimos fazer pizzas de todos os sabores, com ou sem regionalismos. Quisemos dar uma vertente nacional, até porque o cliente valoriza e as vendas refletem isso. As pizzas alentejana e transmontana estão a ter uma enorme aceitação e estamos a pensar lançar pizzas de outras regiões, como por exemplo, os Açores.

O limite é a nossa imaginação: a combinação de sabores é enorme. Além dos sabores, queremos também inovar noutro tipo de pizzas: mais rústicas, com uma massa mais fina ou mais alta. A pizza é um mundo e consumida por toda a família. Segundo os dados que temos da Sonae, o perfil de consumidor é genérico.

Estamos a pensar produzir uma pizza mais juvenil que já está aprovada a nível interno e que gostaríamos de lançar no mercado.

Quantos colaboradores tem a empresa atualmente?

Neste momento, temos 60 colaboradores, entre os que trabalham na área administrativa, financeira, comercial e os que estão na fábrica. Começámos com cerca de 20, passámos a 60 e esperamos finalizar o ano com cerca de 80 colaboradores porque estamos prestes a finalizar mais um cliente espanhol pertencente à Grande Distribuição.

Um dos objetivos da fábrica e do próprio QREN é a exportação. Este produto tem algumas limitações a esta nível sobretudo pela questão do tempo de validade do produto que ronda os 30 dias. No entanto, estamos prestes a fechar com este fornecedor com quem vamos fazer uma pizza de presunto ibérico. Espanha é o país que mais consome pizzas refrigeradas. Este novo cliente pode acrescentar quatro milhões de pizzas à nossa produção. Vamos passar a ter três turnos de produção. Atualmente, temos dois turnos móveis não completos incluindo alguns Sábados. Os Domingos são obrigatoriamente reservados para limpezas da fábrica.

Quais os principais objetivos deste ano?

O primeiro grande objetivo é consolidar aquilo que temos principalmente com o Grupo Sonae. Estamos a falar de seis a sete milhões de pizzas anuais. Vamos começar também a produzir a marca própria do Intermarché.

Temos duas marcas nossas mas só uma delas está no mercado: a Slice me. É uma entrada de gama que dá resposta a algumas necessidades na Grande Distribuição. Temos também a marca Bucca que está reservada para um projeto de desenvolvimento que será uma novidade, não só ao nível de ingredientes mas também de processo. Já criámos uma equipa de desenvolvimento de produto e vamos tentar lançar algo completamente inovador no mercado: desde como fazer a pizza, aos ingredientes e à forma como vamos confecioná-la. Será uma pizza muito mais rústica e menos industrial.

Qual foi a faturação da empresa no ano de 2016 e quais as metas para o presente ano?

Fechámos o ano de 2016 com quatro milhões de euros, o correspondente a uma faturação de oito meses uma vez que iniciámos a produção apenas em março. Queremos fechar este ano com uma faturação superior a dez milhões de euros. Ou seja, queremos fabricar dez milhões de pizzas.

Atualmente, produzimos entre 500 a 550 mil pizzas mês. A partir do segundo semestre, vamos tentar duplicar a produção e fabricar cerca de um milhão de pizzas mensalmente.

Como avalia a concorrência direta?

Dentro da concorrência direta, temos as pizzas refrigeradas e as pizzas congeladas. Na Europa, as congeladas são as mais consumidas, mas em Portugal e em Espanha, dividem o peso em 50% com as refrigeradas. Nas pizzas congeladas, as marcas de fornecedor implementadas no mercado são muito mais fortes. O mercado das pizzas refrigeradas surgiu um pouco mais tarde. Em Portugal, as marcas próprias valem cerca de 98% das vendas totais das pizzas refrigeradas. É por isso que vamos lançar a marca Bucca para tentar dar um pouco mais de peso às marcas de fornecedor.

O território está completamente conquistado pelas marcas de fornecedor comparativamente às marcas de distribuição. Em Espanha, o mercado está mais equilibrado entre marcas de distribuição e marcas de fornecedor.

Na sua opinião, quais as vantagens diferenciadoras das pizzas refrigeradas?

Uma das grandes vantagens é a frescura. Este é um produto mais fresco e mais saboroso, o que nos limita um pouco ao nível de ingredientes. Por exemplo, não podemos usar marisco nas pizzas refrigeradas. No entanto, não deixa de ser um produto que se pode congelar. O contrário não é possível: não se pode passar uma pizza congelada para refrigerada.

Existe uma equipa específica para a criação de novas pizzas?

Vamos criar uma equipa de inovação, desenvolvimento e de investigação porque estamos a abrir uma nova fábrica e queremos ter uma equipa comum para as duas fábricas. O papel dessa equipa passará por acompanhar e, se possível, ultrapassar as tendências atuais no mercado. Queremos apostar em produtos mais saudáveis e biológicos. Vamos tentar desmistificar a ideia de que a pizza não pode ser um produto saudável.

Por outro lado, podemos utilizar ingredientes mais saudáveis, logo ao nível da pizza, desde a farinha até à própria matéria-prima. Existem algumas tendências que gostaríamos de acompanhar. Queremos tentar descobrir uma fórmula para confecionar e comercializar pizzas mais equilibrada a nível nutritivo sem perder textura e sabor. Este é o futuro.

A pizza é um produto de partilha, que se consome em qualquer local e que acompanha bem algumas situações da nossa vida: jogos de futebol, um filme, etc.

Este tem sido um desafio brutal mas sentimos que temos a responsabilidade de fazer algo mais. Já que conseguimos dar resposta ao Grupo Sonae e as coisas correram bem, não podemos perder a oportunidade de ser um pouco mais ambiciosos. Passo a passo, com tranquilidade, temos de chegar ao objetivo das dez milhões de pizzas e entrar no mercado espanhol.

Vão abrir uma nova fábrica este ano? Será mais um passo para a consolidação?

Sim, vamos abrir a “Splendid Opportunity”, em junho deste ano. Vamos começar os testes de produção em março. Vamos ter duas linhas de produção: massas frescas simples e recheadas e pratos confecionados italianos refrigerados cujos testes vão durar cerca de dois meses. Estamos a começar a comercializar em junho / julho deste ano.

Brieftime - unidade de produção

Diria que este é um projeto a cinco anos que não acaba nesta nova fábrica. Estamos a dar passos consolidados. Vamos consolidar os resultados em 2017 na Brieftime, tentar arrancar e consolidar a produção na Splendid também este ano e certamente temos outros projetos para arrancar a nível industrial neste grupo de empresas.

Temos um quadro de apoio importante (Portugal 2020) que vamos aproveitar da melhor forma possível.

Estas duas empresas e fábricas irão trabalhar em sinergia?

Sim. São duas empresas diferentes. São ambas startups. Os clientes são os mesmos, os fornecedores também na maior parte dos casos, a logística e o transporte também são partilhados. Temos sinergias comuns às duas empresas que trazem a vantagem de oferecer um leque de produtos alargado aos clientes.

A nova fábrica vai avançar com cerca de 20 pessoas e queremos faturar até ao final deste ano 1,5 milhão de euros, e em 2018, quatro milhões de euros.

Já sentem necessidade de estar presentes nos meios digitais?

Estamos à espera que a nossa marca ganhe outra dimensão. Estamos a tentar consolidar este canal mas sabemos que chegará a altura em que teremos de dar o passo para outros canais. É importante perceber como conseguiremos encaixar estas gamas em novos canais mas atualmente estamos focados na consolidação ao nível da nossa presença da Grande Distribuição.

As duas fábricas irão permitir ganhar mais recursos para apostar em novos canais e noutro tipo de sinergias. Ainda publicitamos muito pouco, tanto a empresa, como a nossa marca. A nossa marca tem um peso de 5% das nossas vendas, é praticamente residual. Queremos aumentar esta percentagem para 20 a 25%, ganhar uma nova dimensão, e passar a publicitar mais a nossa marca.

Sendo uma fábrica mais pequena do que as restantes, tomamos decisões mais rápidas, temos equipas mais pequenas e uma flexibilidade maior em algumas situações. Temos uma relação saudável e muito correta com a Grande Distribuição.

Foi assustador entrar com um novo negócio numa categoria já consolidada?

Sim, foi. Esta foi uma categoria que cresceu imenso antes de 2015, ao nível de dois dígitos. Atualmente, é uma categoria mais estagnada embora continue a crescer. No entanto, anos houve em que decresceu ao nível de consumo. É um enorme desafio entrar numa categoria que já estava conquistada.

Temos de oferecer preço, serviço, qualidade. Se não oferecermos tudo isto, ninguém está disponível para mudar de fornecedor quando já se criaram relações de confiança.

Têm também parcerias na área logística…

Tentamos concentrar e estreitar parcerias muito fortes ao nível de fornecedores. Só trabalhamos com uma empresa de transportes – a Marecos&Florindo – que é relativamente pequena. Tentamos ir buscar parcerias fortes, fornecedores que trabalhem com as exigências que somos obrigados a ter e que estejam dispostos a crescer connosco.

Pedro Teixeira, CEO da Brieftime

Pedro Teixeira, CEO da Brieftime

Tem 44 anos, é casado e tem um filho. Natural do Porto, licenciou-se em gestão e pós graduação em gestão da distribuição e logística no ISEG.

Trabalhou no Aprovisionamento do Intermarché, foi gestor de produto no Grupo Auchan, onde também foi responsável pelas marcas próprias da insígnia e diretor de loja. Foi ainda diretor comercial na Coutinho&Alexandre. Atualmente, é CEO e administrador da Brieftime, da Splendid Opportunity e da Dominant Slice.

 

 

“Tanto a Brieftime, como o Continente saem reforçados desta viagem conjunta”

Qual o balanço que faz da parceria com a Brieftime?

A parceria entre o Continente e a Brieftime, que se materializou em 2016, mas que já estava a ser trabalhada desde o final de 2014, revela que a decisão de entregar uma categoria, com a importância da das pizzas refrigeradas, a esta empresa foi a correta. Recordo-me que, na altura da apresentação inicial  do projeto, a Brieftime tinha apenas uma ideia e um terreno com mato, onde atualmente está estabelecida a fábrica. Hoje, temos as melhores pizzas, o que se reflete no volume de vendas e no valor.

Estamos também mais competitivos, o que nos permite apresentar melhores produtos, a preços ainda mais baixos. Somos também o único operador em Portugal a ter o fornecimento de pizzas refrigeradas de marca própria assegurado por uma empresa nacional, o que é algo muito importante e gratificante para o Continente,  já que, para além de todos os benefícios que advêm da proximidade, estamos, de facto, a desenvolver e promover o que é nosso.

O facto de criarem receitas originais e dedicada às regiões portuguesas é diferenciador e importante?

Todas as receitas foram desenvolvidas em total parceria. Só a Brieftime é que nos permitiria trabalhar com tão elevado nível de proximidade, detalhe e alinhamento e até de palato. Hoje, temos no nosso sortido pizzas com ingredientes como alheira e farinheira, o que seria difícil de conseguir com um fornecedor estrangeiro.

Em 2016, apresentámos também um segmento superior de pizzas, algo absolutamente inédito neste negócio. Com isto, conseguimos captar novos clientes, que se sentiram atraídos por esta nova proposta e, como tal, enriquecemos o mercado como um todo.

Sendo esta uma relação verdadeiramente  win win, obviamente que, tanto a Brieftime, como o Continente saem reforçados desta viagem conjunta.

Como antevê o futuro desta categoria para a Sonae MC?

O caminho é longo e ainda há muito por fazer. A proposta atual vai ser reforçada, tanto ao nível da largura como de profundidade. Há espaço para novos segmentos, formatos e receitas. Paralelamente, o consumidor mudou e, como tal, também aqui há uma série de janelas de oportunidade, relacionadas com as novas tendências healthy, intolerâncias, veggi, entre outras, que podem e devem ser exploradas. É já nisto que estamos a trabalhar atualmente.

O objetivo nos próximos anos é robustecer a categoria com uma proposta de valor vasta e alinhada com as tendências de consumo e necessidades do consumidor português. Queremos estar cada vez mais próximos dos nossos clientes e acredito que estamos no caminho certo.