Tendências

As tendências que vão marcar o retalho em 2017

tendências do retalho

Otimismo, mais confiança, diferenciação e crescimento. Eis alguns dos pilares que caracterizam o setor do Retalho e da Distribuição moderna no começo do ano. Que tendências marcarão 2017? Quais as categorias e segmentos com mais probabilidade de sucesso? Com a ajuda de especialistas, membros do Conselho Editorial e representantes do setor, traçamos uma perspetiva atual e futura, sem esquecer o impacto do Orçamento de Estado para este ano.

As notícias são boas e nós queremos partilhá-las consigo. Senão veja-se: os dados mais recentes sobre o consumo em Portugal revelam um maior otimismo e confiança por parte dos consumidores. “Os bens de Grande Consumo cresceram 2,2% até final de novembro de 2016, com especial destaque para os períodos mais recentes (agosto-novembro) que foram muito dinâmicos. Em volume, o 3ª trimestre do ano registou um crescimento de 2,7%, valor que se destaca face à maioria dos países europeus. No mesmo período, verifica-se uma inversão no cenário de deflação, o que é uma boa notícia para todas as empresas que operam neste setor”, começa por explicar Ana Paula Barbosa, Retailer Services Director da consultora. Os dados levam a responsável a antecipar “um contexto propício ao consumo no retalho alimentar” para o presente ano.

Ana Paula Barbosa - Nielsen - Distribuição Hoje

Ana Paula Barbosa, Retailer Services Director da Nielsen

No que respeita ao Retalho Não Alimentar, a visão também é animadora e os resultados estão em conformidade. “Notamos um ligeiro crescimento dos mercados não alimentares que seguimos. Temos um perspetiva tendencialmente otimista para 2017”, explica António Salvador, diretor geral da Gfk Portugal. O responsável é, no entanto, ponderado ao afirmar que não é possível “avançar com previsões objetivas” e justifica: “O crescimento previsto do PIB pelo Banco de Portugal para 2017, que se cifra em +1,4%, suporta-se bastante no crescimento previsto do consumo privado (em +1,5%) e ainda – mas não apenas – no decrescimento do desemprego (-1 pp). São fatores que – a verificarem-se – devem corresponder a um impulso positivo para o consumo”. A consultora Gfk não faz previsões gerais sobre o desenvolvimento do consumo para este ano. “No entanto, para algumas categorias do ramo ‘não alimentar’, temos um serviço de forecasting, que dá indicações específicas para esses mercados. Por fim, e em resumo, alertamos que tudo depende muito dos índices de confiança do consumidor. Veremos como se inicia o ano”, afirma.

António Salvador, diretor-geral GfK Portugal

António Salvador, diretor-geral GfK Portugal

Maior confiança, novos desafios

Os últimos anos foram desafiantes para o setor do Retalho e da Grande Distribuição. Foram tempos de mudança, de habituação a uma nova realidade, de conjuntura económica frágil. “Apesar do panorama, as empresas da distribuição souberam dar as adequadas respostas e alcançar os objetivos a que se propuseram, nomeadamente no que concerne ao serviço prestado ao consumidor”, explica Ana Isabel Trigo Morais, diretora geral da APED. A capacidade de resiliência, na opinião da responsável, irá continuar “e dar os seus frutos, com as empresas a apostarem, cada vez mais, na renovação de estratégias, na reinvenção de modelos de negócio e na inovação em benefício dos seus clientes. Em 2017, embora com algumas oscilações menos positivas em algumas categorias, acreditamos que o empenho do setor e o comportamento do consumidor serão sinónimos de resultados positivos”, defende.

Ainda no que se refere a dados positivos, Pedro Pimentel, diretor-geral da Centromarca considera que o 2º semestre do ano revelou “uma aceleração do consumo, a um ritmo que não era visível desde o início da presente década”. No entanto, na sua opinião, parte do crescimento, continua a ser influenciado “pelo fenómeno promocional”. Este facto lança um desafio que se prende com a forma como se conseguirá garantir “a sustentabilidade desse crescimento e como será ultrapassada a euforia do pós-crise”. Também a Nielsen alerta para a questão das promoções aliando essa realidade àquele que lhe parece ser o maior desafio para 2017: “fidelizar o shopper, que continua a fazer muitas das suas escolhas sob a influência promocional. Por isso, é expectável que as insígnias desenvolvam estratégias de diferenciação e fidelização. Nesse sentido, a marca própria poderá voltar a ganhar relevância. No mês de novembro passado, o crescimento das marcas próprias já estava ao mesmo nível do das marcas de fabricante, situação que não acontecia desde 2013”, explica Ana Paula Barbosa.

Uma coisa parece ser certa: as promoções são importantes e devem continuar. No entanto, a tendência poderá passar por “uma forma de compra cada vez mais informada”, explica o responsável da Gfk. “Neste momento há cerca de metade dos compradores portugueses que já fazem pesquisa online sobre preços, mesmo que comprem offline. Esperamos que isto se intensifique em 2017. Ao mesmo tempo a ‘conveniência’ continuará a ser outro vetor importante”, sublinha. Como decorre então o processo de compra em Portugal por parte do shopper? “Está claramente num sentido de maior inteligência e otimização, por parte do shopper. Quer em termos de escolha de produtos, quer em termos de shopper journey”. A omnicanalidade é uma realidade já em muitas áreas e deverá intensificar-se, integrando canais e permitindo uma experiência de compra mais fácil, fluida e informada. O aparecimento de novas gerações enquanto compradores (gerações Z e Y) será outro dos desafios a ter em consideração, integrando o que chamamos de connect consumers. Ou seja, o consumidor com constante informação e ligação à internet. Estamos a ajudar os nossos clientes a entender este segmento, que é afinal, já, o consumidor mais dinâmico, hoje e nos próximos anos”, acrescenta.

Ana Isabel Trigo Morais, diretora-geral da APED

Ana Isabel Trigo Morais, diretora-geral da APED

Tem sido notória a aposta no digital e no mobile que começam a ganhar mais força. “Por parte das empresas, em termos práticos, há já muito que esta aposta tem vindo a ser feita. O setor do retalho e da distribuição português está mesmo num lugar de destaque em termos de inovação nesta área. Carecia, no entanto, de uma real adesão por parte dos clientes e, face a esta lacuna, o setor tem vindo a saber cativá-los para o uso destas tecnologias”, explica a diretora-geral da APED. Este ano será então “de solidificação da adesão dos clientes ao comércio online e, até mesmo, aos métodos de pagamento por via mobile. Mais de metade dos portugueses que optam por fazer compras online fazem-nas por esta via, revelam dados de um estudo realizado pela Nielsen. 70% dos inquiridos afirma utilizar os dispositivos móveis para procurar informação ou comparar preços durante a compra e 68% admite utilizar estes aparelhos para pagamentos, sendo estes resultados superiores aos da média europeia”, afirma Ana Isabel Trigo Morais.

Já se pode falar em pós-crise?

Segundo o estudo referido anteriormente, e desenvolvido pela Nielsen, 1/3 dos portugueses consideram que a sua situação financeira melhorou nos últimos 5 anos. “Trata-se obviamente uma boa notícia, com implicações positivas no consumo dos portugueses”, revela Ana Paula Barbosa.

Mas, quando comparada a evolução da situação económica nos últimos anos com a evolução das vendas do retalho alimentar, a Nielsen conclui que não existe uma correlação direta porque “a melhoria da situação financeira dos portugueses leva-os a consumir de uma forma diferente e nem sempre vantajosa para o retalho alimentar. Um bom exemplo disso é a retoma que se verifica no setor da restauração. O maior consumo fora de casa está a fazer com que as categorias de bens essenciais estejam em decréscimo, pois preparam-se menos refeições em casa. Apesar disso, surgem inúmeras oportunidades novas relacionadas com as tendências já referidas. Na atual conjuntura, há que apostar em novas estratégias de crescimento: sair da lógica de guerra de preços, diferenciar-se e inovar”, sustenta a responsável.

José António Rousseau, presidente do Fórum do Consumo

José António Rousseau, presidente do Fórum do Consumo

Os dados apresentados aparentam um certo alívio comparativamente a anos anteriores. No entanto, tanto o país, como a Europa, continuam a viver uma conjuntura económica difícil. “Estamos muito dependentes da conjuntura económica europeia e até mundial. E deste ponto de vista, as ameaças são diversas e de previsibilidade difícil, nomeadamente as diversas eleições na zona euro (Holanda, Alemanha, França); as consequências do Brexit; o início da administração Trump e a incerteza sobre o pacote de medidas que irão ser tomadas e os seus impactos nos mercados financeiros e no comércio internacional; a própria evolução do euro assim como o possível atingimento do limite de compras de dívida pública do BCE para Portugal”, afirma José António Rousseau, presidente do Fórum do Consumo.

Para o Administrador da Sonae MC, José Fortunato, ainda não se pode falar de um período pós-crise em Portugal. “Verificaram-se importantes progressos ao nível económico, mas existe ainda alguma instabilidade. Estamos cautelosos, mas otimistas de que, se não existirem perturbações externas, o setor pode desenvolver-se de forma favorável. Por isso, é necessário prosseguir com o esforço de consolidação, criando um ambiente propício ao desenvolvimento dos negócios”, defende.

Do lado das marcas de retalho alimentar, fomos ouvir a opinião de representantes da Delta, da Licor Beirão, da Gelpeixe e da Central de Cervejas. Rui Miguel Nabeiro, administrador do Grupo Nabeiro – Delta Cafés, considera que as melhorias nos dois canais mais relevantes da atividade onde atua a empresa são notórias depois de anos mais difíceis “aliadas a uma maior confiança nos consumidores. A crise também trouxe renovação e inovação e isso tem-se feito sentir, sendo que nalguns casos teve de se reinventar.  O Grupo tem procurado reforçar a sua posição através da apresentação de novos produtos, para novas ocasiões de consumo. De sublinhar ainda a procura por construir um portfólio diferenciado que responda, em ambos os canais, às necessidades dos nossos consumidores e clientes”.

José Fortunato, administrador da Sonae MC

José Fortunato, administrador da Sonae MC

Também a Central de Cervejas mantém algum positivismo: “ Se se mantiver o aumento, verificado este ano, do nível de confiança e otimismo dos consumidores, o crescimento sustentado  do turismo e as boas condições climatéricas, podemos perspetivar um ano em linha com o de 2016, apesar de não termos ainda verificado a alteração do IVA da restauração para as cervejas”, salienta Nuno Pinto Magalhães, Provedor and Head of Corporate Affairs da empresa.

Ânsia de consumo

A pressão do acréscimo de impostos indiretos é também uma preocupação para a empresa que comercializa a conhecida bebida Licor Beirão, sobretudo pelo impacto “direto e de forma não equitativa, que penaliza o crescimento do setor de bebidas espirituosas versus setor de vinhos e cervejas”, explica Daniel Redondo, diretor geral da J. Carranca Redondo, empresa produtora do Licor Beirão e administrador executivo da Meiral – Companhia Espirituosa. Por outro lado, considera que o rendimento disponível nas famílias ainda é reduzido quando comparado com os anos anteriores à crise económica, o que tem impacto no setor e provoca “sazonalidades fortes, com tendência para compra e consumo concentrado em alturas festivas e de férias”, sublinha.

Lídia Tarré, administradora da Gelpeixe, acredita que 2017 será um ano de “estabilização e de algum crescimento económico. A economia tem começado a crescer com índices de positivismo imprescindíveis”. A responsável chama ainda à atenção para a maior importância que os portugueses passaram a dar às marcas nacionais colocando-as na lista das suas preferências nas compras para o lar. “É importante que cada português promova Portugal, temos de ser mais embaixadores do nosso próprio país, dos nossos produtos, da nossa cultura, da nossa história e da nossa gastronomia! Queremos cada vez mais levar ‘Portugal à mesa’ para os mercados onde estamos e para outros onde acreditamos vir a estar num futuro próximo”, sublinha.

Lídia Tarré, administradora da Gelpeixe

Lídia Tarré, administradora da Gelpeixe

Do lado das empresas, há que ser cauteloso. “Acreditamos que apesar dos sinais positivos dados pela economia, quer empresas, quer famílias, continuarão a agir com prudência e os gastos/investimentos serão ainda comedidos. O setor da distribuição e retalho continuará a estar atento a todas estas oscilações. Teremos de acompanhar o comportamento do consumidor, de forma a conseguirmos dar resposta às suas exigências e apresentar-lhe os produtos e serviços com as melhores propostas de valor. Enquanto empresas, deveremos continuar a olhar com toda a atenção e pormenor para os contextos económico e fiscal para concebermos estratégias de mercado eficazes e adequadas à realidade, capazes de prever crescimentos, quebras e redirecionamentos de consumo”, defende Ana Isabel Trigo Morais.

2016 foi um ano “atípico”, na opinião de Pedro Pimentel, que encontra a justificação para a evolução do consumo a fenómenos concretos e bem delimitados no tempo, bem como, a um comportamento que considera que se pode enquadrar no pós-crise: “alguma ânsia consumista, apesar de tudo natural, depois de um período longo de restrições económicas e de rigorosa racionalidade no consumo. Esse comportamento foi alimentado, por um lado, por um cenário sociopolítico que favoreceu alguma indulgência económica, e por outro, pela continuidade da chamada promodependência, com ações promocionais permanentes e percentuais de desconto muito elevados”.

Impacto do Orçamento de Estado

2017 será um ano em que se viverá “com o Orçamento possível, um Orçamento que passou no crivo europeu mas está longe de ser amigo das empresas e do investimento. Continuamos confrontados com uma dívida impagável e um serviço de dívida asfixiante do crescimento económico”, afirma João Vieira Lopes, Presidente da Associação dos Distribuidores de Produtos Alimentares (ADIPA) e Presidente da Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP). O responsável não espera grandes resultados no setor durante este ano. “O fraco crescimento e a persistência de baixos rendimentos, apesar do aumento do salário mínimo, vai exigir um grande esforço de gestão das empresas, no sentido da contenção de custos para conseguir manter as já baixas margens, face a um consumidor cada vez mais exigente e seletivo”, salienta.

Também a Centromarca está atenta ao impacto do recente Orçamento de Estado. Para Pedro Pimentel, “há pouco mais de um ano, uma figura da política portuguesa referia que Portugal estava melhor mas que os portugueses ainda não sentiam essa melhoria. Hoje, salvo melhor opinião, a sensação que fica é a de que os portugueses consideram estar a viver melhor mas que o país nem tanto”. Na sua opinião, a gestão de expectativas mostra-se “favorável a alguma euforia do consumo e a fenómenos como a quebra da poupança ou o disparar do crédito ao consumo que parecem não preocupar o cidadão comum nem o poder político”. Por isso, prefere ser cauteloso relativamente ao ano de 2017. “A manter-se o cenário económico atual, a conjuntura continuará a mostrar-se favorável ao setor, com o comparativo face a 2016 a poder ser afetado por fenómenos meteorológicos ou pela ausência de grandes eventos desportivos mobilizadores do consumo (como os recentes Europeu e Jogos Olímpicos). Contudo, tal não deve obviar a um seguimento atento da situação económica e política do país e dos potenciais impactos no orçamento disponível das famílias e na sua propensão para o consumo”, defende.

Tendências do Retalho para 2017

Num ano que se espera mais “amigo do consumo”, pedimos aos entrevistados para este Especial, que nos traçassem as principais tendências do setor (ver caixa) bem como o que há a melhorar em relação a 2016. Daqui resultam múltiplas ideias que podem ajudá-lo diariamente no seu negócio.

O diretor da Centromarca considera que os principais desafios passarão por: “perceber o timing, o formato e a dimensão da entrada da cadeia espanhola Mercadona no mercado de retalho nacional; compreender os efeitos do fenómeno Amazon no mercado FMCG espanhol e antecipar movimentos que acelerem o e-commerce no setor do grande consumo em Portugal. Por último, entender como se fará o equilíbrio MDD vs MDF que surgirá de um novo cenário menos dependente de promoções e com maior preponderância de operadores com modelos de negócio assentes em sortido curto”.

A opinião de José António Rousseau é semelhante. “Estou convencido que o ano de 2017 será o melhor ano, desde 2010, no que se refere a crescimento de vendas e expansão física do parque de lojas dos diferentes operadores retalhistas ainda que a aposta continue a ser em formatos de pequena e média dimensão. O ambiente económico apresenta melhores perspetivas, as expectativas positivas dos consumidores estão mais elevadas, tal como o seu índice de confiança e é evidente o aumento do consumo interno, quer por força de políticas de devolução de rendimentos, quer pelo aumento do crédito ao consumo”. Os desafios para o novo ano não são exclusivos do retalho. “Utilizando um trabalho desenvolvido pelo semanário Expresso ao longo de 2016, que reúne as cinco as grandes áreas de evolução e desenvolvimento, nomeadamente, a capacidade das empresas e dos seus gestores para gerir e gerar o talento dos seus colaboradores, diria que as empresas de distribuição portuguesas muito terão que melhorar”, diz-nos. Como tendências, aponta para as seguintes: “a transformação digital das empresas e dos negócios e a aplicação de novas tecnologias; a criação de valor acrescentado para empresas e consumidores; a capacidade de trabalhar em rede, em cooptição e de partilhar informação e, por fim, o incontornável foco no consumidor em tudo o que se faça”.

Rui Miguel Nabeiro, administrador do Grupo Nabeiro - Delta Cafés

Rui Miguel Nabeiro, administrador do Grupo Nabeiro – Delta Cafés

Rui Miguel Nabeiro também não ficou indiferente à entrada da Mercadona em Portugal e à prresença da Amazon no mercado espanhol. “Portugal tem registado um crescimento acentuado (pelo menos superior à média europeia) no contexto dos FMCG e já se fala na entrada de novos operadores da distribuição organizada (do qual, a Mercadona tem sido o mais mediático) ou mesmo da distribuição eletrónica (nomeadamente a Amazon, via plataformas em Espanha). De igual modo, o comércio de proximidade tem registado crescimentos dignos de registo, o que indica uma menor propensão do consumidor em ter grandes deslocações às grandes superfícies preferindo que sejam os operadores de retalho a aproximarem-se do local onde o consumidor está – casa, escritório, bombas de gasolina”. Por último, o responsável considera que 2017 será o ano de interface entre o online e offline, com a adoção de tecnologias de ponta ao longo da shopper journey”.

Daniel Redondo, diretor-geral da J.Carranca Redondo

Daniel Redondo, diretor-geral da J.Carranca Redondo

Para Pedro Dionísio, professor do ISCTE-IUL e membro do Marketing FutureCast Lab, depois de um período de cortes, os portugueses estão a procurar “novos conceitos e novas experiências. O anúncio da entrada de novos operadores estrangeiros vai naturalmente trazer uma concorrência acrescida e com novas formas”. O consumidor não ficará indiferente àquilo que passou no passado recente, e que se consubstancia numa maior racionalidade na hora de consumir. Aliado a isso, surgirá, na opinião do docente, “a vontade de experimentação de outras formas que tragam novidades ao consumidor português. Caberá às empresas responder a este desafio”. Destaque ainda para as cidades de Lisboa e Porto que estão “a atrair um número crescente de turistas, que constituem uma oportunidade para produtos de origem portuguesa. Para além dos vinhos e dos doces, há produtos, como as conservas que também têm aproveitado este nicho de mercado”.

Há então duas perspetivas a ter em conta: a do consumidor e da empresa. Ambas serão tendências a estudar no “Marketing FutureCast Lab do ISCTE-IUL, durante o ano de 2017”. Pedro Dionísio explica um pouco melhor: “Na perspetiva do consumidor, vamos continuar a ter uma procura de experimentação e também a ter um crescimento da comunicação mobile com impacto do social media. Na perspetiva das empresas, a multiplicidade de touch points com o consumidor lança um novo desafio relativamente às métricas de marketing mais adequadas”.

João Vieira Lopes destaca “o recente acordo na Concertação Social sobre o salário mínimo e a abertura de processo de discussão de um acordo de médio prazo que abranja um leque alargado de temas económicos e sociais, e que poderá ser um passo significativo, não só para manter a situação de estabilidade que vivemos em 2016, mas abre ainda uma janela de oportunidade para uma nova dinâmica de crescimento económico. Assim todos os intervenientes trabalhem nesse sentido e saibam encontrar os pontos de convergência”.

Categorias com tendências de crescimento

Perante este panorama, que empresas tenderão a crescer? Quais os produtos e categorias que constituirão uma maior tendência de consumo no presente ano? A Nielsen considera que a maior procura incidirá sobre os produtos ligados à “saúde, beleza e conveniência. As categorias de dietéticos não têm parado de crescer nos últimos anos. E esta tendência irá manter-se nos próximos anos, com um consumidor cada vez mais informado e uma oferta que se vai ampliando e especializando”, explica Ana Paula Barbosa. A DISTRIBUIÇÃO HOJE dedicou um artigo na edição de maio de 2016 onde abordou ao detalhe, e com a opinião de muitos players do setor, o dito consumo saudável.

“Na área da beleza, também tem havido uma sofisticação da gama que, aliada a uma maior disponibilidade financeira do shopper, contribuiu para os resultados muito positivos verificados em 2016. Relativamente à conveniência, é notória a procura cada vez maior de produtos que facilitem a vida dos consumidores. O take-away, que cresceu 18% nos hipermercados e supermercados nos últimos dois anos, é um bom exemplo disso. E num contexto favorável como o atual, há espaço para apostar em produtos mais premium. De acordo com um recente estudo divulgado pela Nielsen (Global Survey Premiumization), 88% dos portugueses estão dispostos a pagar um preço mais elevado para produtos que tenham funções ou desempenhos superiores”, defende Ana Paula Barbosa.

Para José Fortunato, o foco dos retalhistas em 2017 será no sentido de “preservar as suas margens e melhorar a experiência de compra dos clientes, potenciando a criação de valor para todos os stakeholders. Como principais tendências para o ano, destaco o reforço da oferta cruzada de benefícios (para além da poupança) e a contínua adaptação da proposta de valor ao estilo de vida dos consumidores, quer em termos operacionais aprimorando os processos logísticos e de distribuição ao omnicanal, quer em termos de alinhamento com a cultura de valores humanos, ambientais e sustentáveis da sociedade”.

Espera-se um ano “promissor e especial para a Nobre”, explica Rui Silva, CEO da empresa. No ano em que comemora o seu 60º aniversário, as expectativas são positivas. “Somos cada vez mais a marca líder de mercado nos produtos de charcutaria em Portugal. Juntando a isso o facto de os consumidores portugueses estarem mais otimistas e confiantes, segundo dados da Nielsen, as nossas previsões apontam para um crescimento sustentado, numa estratégia consolidada envolvendo um esforço de inovação constante”, sublinha o responsável. Na linha de inovação, o CEO destaca os lançamentos de produtos de charcutaria, de onde sobressaem: “salsichas Nobre Forno de Lenha, nas variedades de peru e porco, a gama Nobre Cuida-t⁺, uma opção para refeições leves, práticas e adequadas a cada estilo de vida, as salsichas Nobre Soja, que são uma excelente fonte de proteína, e Nobre Tofu também uma fonte de proteína e de fibra”.

Rui Silva, CEO da Nobre

Rui Silva, CEO da Nobre

O mercado está constantemente a mudar e a distribuição tem tido um papel ativo na mesma, nos últimos anos. “É verdade que o consumidor tornou-se mais exigente, mas também é certo que as marcas estão hoje mais atentas e a apresentar soluções inovadoras, quer relativamente ao produto, quer no ponto de venda, por via de uma melhor exposição no linear ou no packaging, quer no próprio contacto com o consumidor”, explica.

Considerando que os consumidores portugueses valorizam cada vez mais o binómio qualidade / preço, defende que estarão “dispostos a pagar mais quando percebem a qualidade e benefícios de um determinado produto. Por exemplo, o fiambre, produto presente em mais de 80% dos lares portugueses, continua a ser a principal categoria do mercado da charcutaria, representando cerca de 35% das vendas em valor deste setor. O fiambre de porco é o preferido das famílias, mas o fiambre de aves tem vindo a ganhar expressão nos últimos anos.”

Devidamente atenta a novas necessidades dos consumidores, sobretudo no que respeita à alimentação saudável, a empresa tem apostado no segmento de saúde e bem-estar. “A gama Nobre Cuida-t⁺ é um claro exemplo de resposta às preocupações dos portugueses. A gama das salsichas Nobre Soja e Nobre Tofu, duas opções que se encontram no mercado, sem corantes e conservantes, sem glúten e lactose, sublinham uma vez mais a preocupação em proporcionar aos portugueses uma alimentação equilibrada”, explica o CEO.

Por todos estes motivos, a Nobre apresenta neste começo de ano “um grande otimismo em relação ao futuro, sempre alicerçado na inovação e na diferenciação”, salienta Rui Silva.

rar os 60 anos e disso sidades.er tuguesesçs sade, rigor, inovaçaçNo que respeita às bebidas, a Central de Cervejas pretende continuar “a crescer e inovar, procurando surpreender os consumidores com novas experiências de consumo e melhorar os níveis de serviço ao cliente”, explica Nuno Pinto Magalhães. Deseja também que haja “a gradual reposição de níveis promocionais adequados às categorias, que tragam valor para a toda a cadeia de fornecimento e consumidores”.

No segmento das bebidas espirituosas, Daniel Redondo considera que 2017 trará a manutenção da estratégia de “crescimento sustentado” para a empresa, reforçando “o relacionamento com os clientes por via de um serviço de distribuição de qualidade, suportado  por um portfólio de marcas e produtos abrangente e de valor acrescentado”. Por outro lado, antecipa a identificação de oportunidades de novos produtos e marcas diferenciadoras que possam ser complementares à oferta atual, bem como o reforço da posição competitiva da Comunidade Europeia no segmento de bebidas espirituosas”, defende.

No Retalho Alimentar em geral, o responsável considera que o crescimento estará em linha “com evolução do consumo privado e o reflexo do aumento do rendimento disponível das famílias” e haverá um aumento “da pressão competitiva sobre as marcas do produtor e do parque de lojas de proximidade dos principais players de retalho e níveis acrescidos de associação do comércio tradicional como resposta”. Por último, Daniel Redondo considera que as atividades promocionais serão ainda “mais correntes” e implicarão o “reposicionamento dos fornecedores”.

Na categoria do café, a bebida de eleição dos portugueses, a inovação é um dos principais pilares. “O Grupo Nabeiro – Delta Cafés considera que é preciso lançar novos produtos como fator para o crescimento das marcas. É preciso ser diferente, inovar, estar próximo dos consumidores, criar tendências, acrescentando valor e proporcionando experiências únicas. Temos expectativas de que o mercado de café continue a crescer, por via do aumento da procura, quer pela diversidade de oferta, quer pelos novos momentos de consumo. Esperamos que esta tendência se mantenha nos próximos anos”, afirma Rui Miguel Nabeiro.

O ano de 2017 é muito importante para a Gelpeixe com a comemoração do 40º aniversário. “Sendo a empresa reconhecida no mercado pela sua constante inovação, decidimos que seria a ocasião indicada para dar início a um processo de rebranding. Acreditamos que dando uma ‘nova cara’ à marca, a aproximamos mais do consumidor e do dinamismo que o mercado de hoje exige. Este projeto levou a marca a adotar uma nova arquitetura nomeadamente ao nível de segmentação de produto e packaging, com duas identidades distintas: Gelpeixe – a mais conhecida do consumidor e que reúne todos os produtos de origem do mar, e Delidu – que englobará todos os produtos de outras origens”, avança Lídia Tarré. A empresa tem inovado com produtos diferenciadores que contrapõem com a oferta de peixe congelado na década de 70. “Hoje oferecemos entradas, sobremesas, salgados, padaria, vegetais, entre outros. A segmentação de todos estes produtos provocou a necessidade desta nova arquitetura e de uma nova imagem que vem reforçar a visão para o futuro da empresa”, acrescenta a administradora.

Em 2017, as marcas da Sonae MC “estarão empenhadas na dinamização das suas posições de liderança, apostando em oferecer uma proposta de valor distintiva e uma experiência de compra única A empresa tem vindo a reforçar a sua presença em Portugal através de formatos de proximidade, com destaque para os supermercados ‘Continente Bom Dia’, para as lojas de retalho alimentar em regime de franchising ‘Meu Super’ e para as lojas de saúde e bem-estar Well’s”, explica o administrador. Ao longo dos últimos trimestres, “a Sonae MC manteve-se focada na implementação de várias medidas com o objetivo de reforçar a proposta de valor do Continente, onde se inclui a perceção de preços, a comunicação da oferta distintiva de produtos (especialmente para perecíveis e marcas exclusivas) e lançando também campanhas promocionais inovadoras. Este trabalho foi reconhecido pela DECO, a Associação de Defesa do Consumidor, que no último estudo de comparação de preços voltou a considerar o Continente como líder de mercado em preço”, salienta José Fortunato.

E do lado das transportadoras?

Não quisemos deixar de fora o lado das transportadoras enquanto providers dos retalhistas. Carlos Pinheiro, BD Manager da UPS garante que o ano de 2016 foi “muito positivo” para a empresa. Para 2017, o objetivo passa por “continuar a investir no crescimento e otimização dos serviços”. A empresa anunciou, em 2014, o investimento de dois mil milhões de dólares na sua rede e infraestruturas europeias até ao ano de 2019, de forma a ajudar “os clientes portugueses a exportarem os seus produtos de forma mais eficiente”, salienta o responsável.

Carlos Pinheiro, BD Manager da UPS

Carlos Pinheiro, BD Manager da UPS

A empresa estuda “as oportunidades apresentadas pelas mega-tendências que moldam a indústria” e em relação ao setor logístico e do retalho, denota algumas perspetivas para os próximos anos. “Prevê-se que o comércio transcontinental e além-fronteiras cresça a taxas superiores às taxas de crescimento do PIB global. Como resultado, as economias estão cada vez mais interligadas e dependentes do comércio exterior. Consideramos que as oportunidades presentes nos mercados emergentes continuarão a expandir-se. Ao longo dos próximos 15 anos, estes mercados deverão representar cerca de três quartos do crescimento do PIB global, bem como uma parte crescente do comércio entre países”, avança Carlos Pinheiro.

Considerando que a gestão do supply chain decorrerá com cada vez maior prevalência no mundo empresarial, as cadeias logísticas terão nisto uma oportunidade e uma vantagem estratégica para os seus negócios.

Por outro lado, “o e-commerce continua a crescer, ultrapassando as linhas tradicionais de negócios, em várias regiões do mundo, sendo que, além-fronteiras cresce a um ritmo ainda mais acelerado”, defende. Este novo modelo de consumo “tem alterado os padrões de compra dos consumidores domésticos. Esta característica está precisamente refletida no estudo da UPS ‘2014 Pulse of the Online Shopper’ que revelou a ascensão do ‘cliente flex’, um comprador online que muda facilmente de canais e dispositivos para avaliar e comprar produtos.” A omnicanalidade tem sido mais valorizada por estes consumidores que esperam “uma experiência positiva e consistente em todos os canais, desde o online/digital/móvel até à compra na loja física”.

Ainda assim, os tempos económicos são desafiantes. Carlos Pinheiro traça uma perspetiva do setor relacionada com a evolução da economia global: “as condições económicas globais permanecem incertas e esperamos que, até ao fim do primeiro semestre de 2017, as tendências económicas mistas permaneçam, à semelhança do que acontece desde o último semestre de 2016. O PIB europeu deverá melhorar ligeiramente em 2017, sendo que os mercados emergentes continuarão a ser o grande desafio do comércio mundial. O mercado norte-americano continua dependente de uma economia baseada no consumo, enquanto a produção industrial deverá ser mais fraca de ano para ano. Já a confiança dos consumidores permanece alta, apesar da estagnação do crescimento dos salários e da riqueza pessoal”, defende.

O mercado português é então relevante para a UPS, “e contribui para o crescimento de quase 5% do volume das exportações europeias nos primeiros três trimestres de 2016, quando comparado com o mesmo período em 2015. Os clientes portugueses atuam em diversos setores de atividade, incluindo: cuidados de saúde, retalho, automóvel, high-tech e bens de luxo. São empresas altamente focadas na exportação, tendo entregue aos serviços da UPS a logística e transporte dos seus produtos”, assegura.

O responsável adianta um exemplo prático no setor do retalho, nomeadamente para a Salsa Jeans. “O principal foco do projeto reside na redução do apelidado ‘time to market’ da Salsa para as suas lojas (lojas próprias, lojas em regime de franchising e shops-in-shops, para além de grandes armazéns e outlets). A rede da UPS permitiu à empresa portuguesa fazer envios em qualquer dia útil para qualquer destino com tempos de entrega reduzidos, bem como a escolha do tipo de serviço mediante a urgência no envio. Através das nossas soluções, a Salsa consegue assim reduzir os seus tempos de trânsito, incrementar a fiabilidade do serviço e a visibilidade ao longo de todo o processo”, explica.

Por último, a UPS considera que a sua principal competência é mais do que “mover bens de um ponto para o outro. Todos os dias, conectamos milhões de pessoas e empresas em 220 países e territórios”, defende Carlos Pinheiro. A empresa assegura algumas soluções adequadas às várias necessidades dos clientes. “O setor do retalho precisa de evoluir, de eliminar barreiras e limites, e de oferecer aos consumidores aquilo que querem, quando querem e onde querem – e através de todos os canais”, conclui.